"Lurdes ensina que não se pode esperar ficar tudo bem para depois ser feliz", diz Regina Casé sobre personagem - Entretenimento

Versão mobile

 
 

Entrevista09/04/2021 | 09h16Atualizada em 09/04/2021 | 09h16

"Lurdes ensina que não se pode esperar ficar tudo bem para depois ser feliz", diz Regina Casé sobre personagem

Atriz conversou com GZH sobre os bastidores de "Amor de Mãe", que termina nesta sexta

"Lurdes ensina que não se pode esperar ficar tudo bem para depois ser feliz", diz Regina Casé sobre personagem Camilla Maia / TV Globo/Divulgação/TV Globo/Divulgação
Regina Casé fica encantada com a aceitação de Lurdes nas redes sociais: "Ela não tem nem 0,001% de rejeição" Foto: Camilla Maia / TV Globo/Divulgação / TV Globo/Divulgação

A trajetória de Lurdes, vivida por Regina Casé, comoveu o público desde sua primeira cena em Amor de Mãe, que chega ao último capítulo nesta sexta-feira (9), na RBS TV. Ela deixou a pequena Malaquitas, no interior do Nordeste, para buscar Domênico e, de lá para cá, criou quatro filhos e superou dificuldades para sustentar a família que mora no bairro do Passeio, no Rio. A força das mulheres no século 21, aliás, foi um dos destaques da trama. Em entrevista por telefone a GZH, Regina Casé falou sobre sua personagem e as emoções da reta final da novela.

Lurdes já foi comparada a Val, sua personagem no filme Que Horas Ela Volta?. Como vê essa relação?
Quando eu comecei a trabalhar na Lurdes, eu conversei com os diretores sobre o sotaque dela que, se eu colocasse, seria muito comparado com o da Val. É uma tendência preconceituosa das pessoas achar que, por serem nordestinas, pobres ou domésticas, seriam todas iguais. O Silvio de Abreu (diretor de dramaturgia, na época) disse algo que me tranquilizou: "Se a Lurdes tiver muito da Val, vai ser tão bom pra ela. Quantas pessoas não viram o filme e agora vão ver essa mulher incrível?". Assim, ele me tranquilizou que poderiam ter coisas em comum, mas eu acredito que elas são completamente diferentes.  

Como foi a construção da personagem?
Quando um ator vai fazer um enfermeiro, normalmente fica no hospital como se fosse um laboratório. Quando atua como criminoso, vai até um presídio. Eu estou há mais de 30 anos fazendo laboratório para a Lurdes, indo na casa das mulheres, abrindo gavetinhas por aí, conversando, indo à missa e cortando cana junto com mulheres como ela. A vida me deu a chance de fazer 30 anos de preparação para a Lurdes, no mínimo (risos). 

Na primeira fase da novela, Camila (Jessica Ellen) desabafou com Lurdes que estava "cansada de ser forte". A novela debateu muito sobre a força da mulher no século 21. Como você analisa o papel delas?
Ainda falta muito caminho para todas essas batalhas, tanto a antirracista quanto a feminista, mas é impressionante como no meu tempo de vida eu vi grandes modificações. Não só a Camila, como a própria Jessica Ellen... Vejo que a geração dela de mulheres negras fortaleceu o feminismo, e o feminismo fortaleceu as mulheres negras. Acho bonito ver essa discussão. A Camila desmanchou naquela cama (em uma cena da novela), mas é como a Lurdes diz em cena: não é agora, na sua vida, que as coisas vão mudar; é a sua filha ou neta que vão mudar a realidade. Estamos caminhando. Por mais que falte muito, é emocionante ver essas conquistas todas que as mulheres e negras tiveram. 

Em entrevista recente, você disse que a Carminha (vilã de Avenida Brasil, também interpretada por Adriana Esteves) era uma fofa perto de Thelma. Como foi o clima nos bastidores da traição da Thelma, já que elas eram muito amigas?
Nós duas (Regina e Adriana), juntas com a Manuela Dias, sofremos muito, porque ficamos todas muito amigas e animadas com a relação da Thelma e da Lurdes. Nós acreditávamos piamente naquela amizade, ainda mais naquelas cenas dela ajudando a Thelma no hospital, elas pegando dinheiro na praia. Isso tudo alimentou a união delas. Quando foi para a vilania, nós ficamos arrasadas. A Adriana jura que ela não queria fazer maldade, e eu perdoava (risos). Vejo as duas vilãs muito diferentes, na verdade, porque a Thelma é até mais surpreendente, era uma pessoa mais para dentro do que a Carminha. Esse rebuliço é só porque é vilã. A Adriana é uma atriz incrível que cria uma personagem fantástica atrás da outra.

O encontro entre Lurdes e seu filho Domênico foi um dos momentos de alegria da novela. Como foi gravar essa cena?
Eu e o Chay (Suede) morríamos de medo de como seria, e a  gente nem dormiu quando sabíamos da perspectiva de gravar. Ficamos os dois apavorados, mas o que aconteceu superou as minhas expectativas. Foi uma das cenas mais lindas que fiz e ali vivemos aquela catarse do sofrimento e da vida passando diante dos nossos olhos. 

Ainda na primeira fase, essa relação dos dois ficou marcada por uma cena deles no bar, em que Danilo desabafa sobre a existência. Lurdes o consola e fala que Deus sempre dá um jeito para tudo se resolver. Como você percebe a relação dos dois personagens?
O Chay é um ator que, mesmo sem chorar, é muito comovente e tem um olhar que transmite muito da verdade interior. Ele passa mesmo a emoção sem falar, e é algo tão forte e bonito que eu sempre me emociono, tanto assistindo como contracenando. Naquela cena do bar, ele está aos prantos e simboliza muito o que ele é. A Lurdes é apaixonada por ele, porque ele é suave, enquanto os outros filhos dela são exuberantes, mais para fora. Tudo ali vai muito também porque sou apaixonada pelo Chay. Nas primeiras vezes em que o vi em Império (novela que reestreia na próxima segunda-feira, dia 12) e vi seu sotaque como nordestino, tinha certeza que era muito dessa geração nova, de tão bem que ele faz, do ator novo nordestino. Ele é maravilhoso. Nas minhas cenas, fiquei derretida não só por ser Lurdes com Domênico, e sim de estar ali a Regina com o Chay. 

O que a novela reforçou para você sobre a figura da mãe?
Procurei aprender ao máximo com a Lurdes, por ser uma mulher alegre mesmo enfrentando tanto sofrimento. Apesar dessa dor permanente, de buscar o filho e passar por tantas provações, Lurdes nunca deixa de ser alegre. O grande ensinamento é: você não pode guardar sua vida no armário, esperar ficar tudo bem para depois ser feliz. Ela ia sendo feliz dentro do sofrimento, procurando alegria ali mesmo, o que é um baita ensinamento para todas as mães que lutam com tantas dificuldades.

Nas redes sociais, parte do público comenta que o fato de Manuela Dias retratar a realidade de forma tão direta acabou tornando a trama de Amor de Mãe um pouco sombria. O que pensa sobre isso?
Tem uma parte das pessoas que fala isso, que se queixa sobre estar pesado, mas ao mesmo tempo isso tudo cria um sentimento de humanidade e fraternidade entre todos nós. Não só os atores, mas os personagens e os espectadores estamos vivendo a mesma coisa. Isso que é bonito. 

Lurdes, inclusive, tem boa aceitação nas redes sociais. Ao que você atribui essa repercussão?
É incrível e apaixonante de ver que a Lurdes não tem nem 0,001% de rejeição, porque adolescentes, jovens, pessoas velhas, todo mundo a ama. Lurdes tem uma intimidade com o espectador como se ela fosse da família, e eu fico encantada com a quantidade de apoiadores dela no Twitter. Quando foi sequestrada, tinha gente querendo fazer caravana para buscar a Lurdes de ônibus. 

Amor de Mãe foi sua primeira novela depois de um hiato de 20 anos. Tem planos de voltar a fazer programas de não ficção, como o Esquenta?
Não só o reconhecimento do público, mas a minha satisfação em atuar está sendo tão grande que agora os pedidos são para que eu faça uma novela atrás da outra. Concordo com o público. E, modéstia à parte, acho que mando muito bem, então vou seguir como atriz por um tempo.

 
 
 
 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros