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Noveleiros11/12/2021 | 10h00Atualizada em 11/12/2021 | 10h00

Assim como Lara, de "Um Lugar ao Sol", brasileiras optam cada vez mais por não ter filhos

Pesquisas mostram tendência crescente do público feminino de abrir mão da maternidade

Assim como Lara, de "Um Lugar ao Sol", brasileiras optam cada vez mais por não ter filhos Fabio Rocha / TV Globo/Divulgação/TV Globo/Divulgação
Postura da protagonista vai na contramão da maioria das heroínas de novela, mas retrata a realidade de muitas mulheres Foto: Fabio Rocha / TV Globo/Divulgação / TV Globo/Divulgação

A telenovela sempre foi um reflexo da sociedade e, como tal, precisa acompanhar as transformações que acontecem ao longo dos anos. Desde os tempos das mocinhas “casadouras” das décadas de 1960 e 1970, passando pelas primeiras divorciadas, mães solo ou, simplesmente, livres e donas dos próprios destinos, foram muitas as transições vividas pelas figuras femininas das novelas e da vida real.

Mas, em pleno 2021, alguns clichês se perpetuam na teledramaturgia. É o caso do "felizes para sempre", geralmente com filhos – nascidos ou a caminho. Final de novela, via de regra, precisa ter casamentos, juras de amor e, quase sempre, nascimentos de muitos bebês. O público está acostumado a essa velha fórmula do folhetim, talvez por isso, uma cena de Lara (Andréia Horta) em Um Lugar ao Sol tenha chamado tanta atenção. Em conversa com a avó, Noca (Marieta Severo), a mocinha declarou com todas as letras que nunca teve o sonho de ser mãe. 

E completou:

– Ter filho é uma escolha, não uma obrigação.

Lara é diferente de outras mocinhas da telinha. O motivo? Ela não deseja ser mãe. Por mais que essa discussão esteja cada vez mais em pauta, a ideia de que ter filhos é o dever de uma mulher ainda circula por aí – daí a importância de a maternidade compulsória ser desmistificada no horário nobre da Globo.

Novos tempos

O pensamento de Lara vai na contramão da maioria das mocinhas de novela. Por outro lado, reflete bem a realidade do nosso país nesta década. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014, 38,4% das brasileiras não eram mães. Em pesquisa recente, de 2019, realizada pela farmacêutica Bayer, com o apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (TANCO), 37% das entrevistadas alegaram não querer ter filhos em nenhum momento da vida.

Os números indicam que a maternidade não é mais uma prioridade na vida de muitas mulheres, que postergam a decisão de aumentar a família ao máximo – pelo menos enquanto a biologia permitir – ou, simplesmente, decidem não ter filhos. 

 A decisão de se dedicar a outros projetos que não seja a maternidade pode ser tomada sem culpa, ainda que a sociedade continue cobrando a construção de uma família "tradicional", o que inclui, é claro, ao menos uma criança. Apesar das pressões externas, muitas mulheres têm se mantido firmes na opção de não serem mães, destaca a psicóloga Andréia Alves, colunista do Falando de Sexo do DG.

– Hoje em dia, as mulheres se sentem mais autorizadas, mais seguras de poderem dizer: "Não quero ter filho". Não preciso de um parceiro para minha existência e não preciso de um filho para provar que eu sou uma mulher legal, para me sentir realizada na minha vida profissional e nas minhas decisões pessoais – comenta a especialista. 

Outras prioridades

Andréia conta que, em seu consultório, atende muitas mulheres às voltas com esse tipo de questão. Algumas decidem, por volta dos 30 anos, que precisam elencar outras prioridades. A liberdade de poder sair, viajar, fazer cursos, dedicar-se à vida profissional ou, simplesmente, cuidarem apenas de si mesmas são algumas das razões de quem abre mão da maternidade. A psicóloga garante que é raro que surjam arrependimentos, mesmo quando o parceiro tem opiniões divergentes sobre o assunto: 

– Os homens, muitas vezes, em um primeiro momento, se incomodam. Já tratei alguns casais que vieram justamente com esse dilema de engravidar ou não. Desses, que eu me lembre, quase todos decidiram continuar juntos e sem filhos, porque não adianta só um querer.

"Ir contra a corrente é sempre complicado"

Letícia e sua turminhaFoto: Arquivo Pessoal

Para Letícia Cardoso, 38 anos, tradutora e professora de inglês, a decisão de não ter filhos surgiu na época em que ela e o marido, Marcelo, se preparavam para engravidar. 

– No meio do processo, começamos a nos questionar se realmente era isso que queríamos ou se estávamos apenas seguindo o fluxo, atendendo às demandas que a sociedade impõe a todos os casais – conta ela.

Enquanto ponderavam os prós e os contras, Letícia e Marcelo adotaram os gatinhos Sushi e Pipoca. A dupla de peludos acabou preenchendo o espaço que, até então, o casal reservava para os futuros bebês.

– Tivemos uma amostra do tamanho da responsabilidade que é a maternidade/paternidade. Então eu compreendi que já éramos uma família completa, pelo menos até a chegada da Farofa) – destaca Letícia, dando um spoiler de que a família logo iria aumentar ainda mais.

Cobranças

Embora tenham tomado a resolução em comum acordo e após muitas conversas, Letícia reconhece que não foi um período fácil. Cobranças externas e internas a acompanharam por um bom tempo:

– Eu demorei mais para confessar ao mundo que não queria ser mãe, porque as pressões externas recaem com mais força sobre as mulheres, não adianta. Aquele papo infernal de relógio biológico. O homem que não quer ser pai é bem menos julgado do que a mulher que não quer ser mãe. 

Segundo o último censo demográfico divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, o número de casais sem filhos no Brasil aumentou. Segundo o levantamento, 20,2% dos casais não têm filhos. Em 2000, o percentual era de 14,9%. Ainda que o número de casais sem filhos aumente a cada ano, a sociedade ainda cobra o “pacote tradicional” de família. 

– Ir contra a corrente é sempre complicado. As pessoas têm a tendência de achar que quem não tem filhos está destinado à infelicidade e à solidão, e isso é mentira. Escolhas implicam renúncias – ressalta Letícia.

A decisão das famosas

A fatia da população feminina que opta por não exercer a maternidade é engrossada por muitas famosas. Em tempos de empoderamento das mulheres, o assunto é tratado abertamente por celebridades que se sentem cobradas por não terem filhos.

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Thalita ainda recebe questionamentos em suas redesFoto: João Miguel Júnior / TV Globo/Divulgação

É o caso da escritora e apresentadora Thalita Rebouças, 46 anos. Apesar da forte conexão com crianças e adolescentes, na vida pessoal, ela resolveu não ser mãe. E as cobranças, garante, são enormes.

– Sou da geração que mais foi pressionada. Tomei a decisão com 27 ou 28 anos. Não era a minha praia, é muito tempo de dedicação. Sempre falo que fazer filho é fácil, educar que é difícil. Não sei se teria vocação – contou ela à revista Marie Claire.

Thalita disse ainda que recebe muitos comentários, em suas redes sociais, questionando o fato de ela não ter engravidado:

– É uma cobrança que, além de tudo, é muito agressiva. Por que a mulher precisa ser mãe para ser completa, para ser feliz? Depositar em um bebê ou em uma criança a sua esperança de felicidade é ruim. 

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Jen: “Somos completas com ou sem uma criança”Foto: Instagram / Reprodução

Em Hollywood, o assunto também veio à tona após declarações da norte-americana Jennifer Aniston. Aos 52 anos, a atriz mandou um recado às mulheres que, assim como ela, não se dedicaram à maternidade:

– Nós somos completas com ou sem um companheiro, com ou sem uma criança. Nós não precisamos ser casadas ou mães para sermos completas. Nós conseguimos determinar o nosso próprio "felizes para sempre".

 
 
 
 
 
 
 
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