Bate-papo
Dunga descarta "superpoderes" no Inter e projeta um 2013 difícil: "Vai ser duro"
Técnico colorado disse que constantes viagens podem atrapalhar e se autoconceitua como perfeccionista: "Não sou mal-humorado, mas, dentro do meu trabalho, sou chato"

Dunga sabe que a temporada 2013 pode trazer complicações ao Inter devido à distância do Beira-Rio - em obras para a Copa do Mundo 2014. Acredita que a temporada pode ser difícil devido às viagens a Caxias do Sul ou outras cidades do Estado. E nega veementemente que tenha "superpoderes" dentro do clube, com uma autoridade tão grande quanto a do presidente Giovanni Luigi, por exemplo.
Na noite deste domingo, o técnico colorado concedeu entrevista aos jornalistas Silvio Benfica, Luciano Périco e Filipe Gamba, no quadro Papo no Bar, do programa Balanço Final, da Rádio Gaúcha. Descontraído, mas sempre objetivo, respondeu a todas as perguntas com um misto de seriedade e bom humor, na noite deste domingo.
Apontou o Atlético-MG, o Corinthians e o São Paulo como alguns dos clubes que saem na frente na disputa do Campeonato Brasileiro, que começa no próximo sábado - a estreia do Inter será em Salvador, contra o Vitória, às 18h30min.
- O Corinthians tem um plantel definido, pronto desde o início. O Atlético-MG é o que melhor joga, mas não podemos nos esquecer do Corinthians, além do São Paulo - declarou. - Tem que ter regularidade. Nós ainda temos que encaixar algumas peças. Sem dúvidas, quanto mais pontos conseguirmos fazer no início, mais tranquilidade teremos no meio (do campeonato), quando haverá lesão, suspensões por cartões - complementou.
Referente ao Brasileiro e à maratona de viagens que o grupo e comissão técnica irão enfrentar entre Caxias, Novo Hamburgo e, possivelmente, outras cidades, Dunga foi direto:
- Temos que ter consciência de que vamos sofrer mais do que nos outros anos. Sem dúvidas, este ano vai ser duro. O Brasileiro já é difícil, e o desgaste mental e físico para os jogadores vai ser enorme - disse.
Questionado sobre os "superpoderes" que teria junto ao grupo e aos dirigentes no Beira-Rio, o treinador respondeu de maneira séria e, ao mesmo tempo, brincou com a ideia de que seria um chefe pleno no clube.
- Primeiro, eu não demito ninguém. Disseram isso, e por isso que não me dou com a imprensa às vezes. Fui criticado três meses, e o cara subiu de cargo. Se eu comandasse, iriam trabalhar comigo as pessoas que eu tivesse escolhido. E iriam fazer o que tivéssemos combinado.
Confira alguns momentos da entrevista de Dunga:
Viagens do Inter
"Até agora, já fizemos 20 mil e poucos quilômetros. Seremos o único a jogar sempre fora de casa. Não tem outra maneira. Vamos precisar de todo mundo, torcedores, dirigentes, jogadores, para suprir essa dificuldade. No meu modo de ver, a dificuldade é o regresso do jogo. Em Porto Alegre, estamos em casa em 45 minutos. Fora, neste caso, levará mais tempo. Podemos chegar até as 3h da manhã, por exemplo."
Perfeccionismo
"Eu não sou mal-humorado, mas, dentro do meu trabalho, eu sou chato, perfeccionista. As coisas têm que andar."
Dificuldades contra Juventude e Santa Cruz
"No Gaúcho, jogamos contra quem tínhamos que jogar. Se outros foram eliminados, não é problema nosso. O Santa Cruz-PE foi campeão, ganhou do Sport na Ilha do Retiro. Com duas linhas de quatro, a equipe adversária tem que se movimentar mais. Se desgasta mais, é preciso substituir."
Futebol atual
"O futebol continua a mesma coisa, todos os esquemas acabam se não tiver drible, chute de fora da área, bom passe, cruzamento. Hoje, o jogador técnico joga com mais facilidade. Só precisa estar bem fisicamente. Um bom passe, com velocidade, é fundamental. Se virar a bola com rapidez, não tem sincronismo para o adversário fechar."
Oscilação
"Normal (o time oscilar boas e más atuações). Trabalhamos a pré-temporada com uma equipe, no campeonato, com outra. Todo mundo é ser humano, chega um momento em que a perna pesa e as equipes adversárias começam a marcar. No segundo turno, contra o VEC, o primeiro tempo foi bom, faltou só o gol, e como era partida decisiva, se toma um gol, complica tudo. E aí falam que tem que mudar, mas daí tiraria meus batedores de pênalti. Confio no meu time? Confio. O treinador tem que pensar em muito mais coisas do que as pessoas que estão fora pensam. Tem que estar muito mais na frente do que as pessoas que estão torcendo."
Presidente x vestiário
"O presidente manda no clube, mas no vestiário quem manda é o treinador. Quem é responsável pelos jogadores sou eu. Eu que cobro. Eu cobro e um cara fala uma besteira lá dentro, como vou explicar para o jogador? Todo mundo quer botar o dedo no bolo, principalmente quando o bolo está doce. Quando está amargo, se esquiva (risos). Nada impede de o presidente falar com o treinador, questionar, por que deu folga. É uma forma de se trabalhar. Não tenho superpoder nenhum. Todo mundo que brigou comigo subiu de cargo. Que superpoder é esse?"
Dirigente
"Dirigente entra no vestiário. A torcida, não. Dirigente assiste a palestra. Tem horas em que preciso conversar apenas com meus jogadores. Na palestra, com 18 jogadores, vou vou oito dirigentes? Dois, sim, tudo bem. Às vezes, eu saio, porque os jogadores falam entre eles. Só entramos no momento certo."
Clube x Seleção
"Clube é mais desgastante. Em qualquer clube, 'respinga' no treinador. Se alguém quiser atacar o presidente do clube, vai atacar o técnico. A Seleção é mais tranquila porque já tem definição, nas reuniões se definem os papeis de cada um, você só vai tomar decisões. Questão de logística, viagem, está tudo na tua mesa. No clube, é diário, tem que mudar, fazer. Se você não se meter em tudo, acaba sobrando para o treinador."
Ronaldinho é opção
"Não conversei com o Felipão atualmente, mas ele sabe o que o Ronaldinho vai render. Ele está criando uma estrutura com outros jogadores, porque se chegar daqui a dois anos, e o atleta que estiver jogando não corresponder, tem outra opção. Se continuar, tem opção na mão."
Era Dunga
"Não (tenho mágoa). De nenhuma forma. O que me dói é não valorizar 94 (Copa de 1994), questionar 94, e valorizar os que não ganharam. Questionar o Zagallo, que ganhou. Encontramos defeitos em tudo que é lugar, e não elogiamos. A geração de 1994 ganhou tudo. O Ricardo Rocha (ex-zagueiro) falava um negócio fantástico: os outros são melhores, mas nós damos voltas olímpicas."
Dunga x Bebeto
"Em 1998, ele tinha que ficar na frente da bola. Ele demorou, eu o chamei duas, três vezes. Contra o Marrocos, tomamos um gol porque ele não ficou ninguém na frente da bola. Contra esses times, numa Copa, com um batedor bom de falta, que bate bem na bola, esses times podem ter sucesso. Depois, põem todo mundo atrás, e os espaços ficam reduzidos. As dificuldades aumentam."
Convocação de Felipão
"Aprovo a convocação de Felipão para a Copa das Confederações. Ele tem uma programação do que quer. Vai ser bom para ver como vai ser agora, em uma competição oficial."