Neto Fagundes: "A triste vida de um secador"  - Esporte - Diário Gaúcho

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Paixão colorada30/03/2018 | 07h00Atualizada em 30/03/2018 | 07h00

Neto Fagundes: "A triste vida de um secador" 

O estranho de estarmos secando é que esse time pelo qual estamos torcendo não é o nosso time

Neto Fagundes: "A triste vida de um secador"  Carlos Insaurriaga / Brasil-Pel/Brasil-Pel
Clemer é a esperança dos secadores Foto: Carlos Insaurriaga / Brasil-Pel / Brasil-Pel

As mulheres e até alguns homens não dispensam o uso de um secador de cabelos. Durante o banho, lavam com xampu, passam condicionador, retiram tudo e depois passam muitos minutos fazendo aquela barulheira para arrumar o cabelo. Mas não é desse secador que estou me referindo, e sim ao torcedor secador colorado, aquele capaz de comprar dezenas de camisetas dos times que jogam contra o Grêmio. 

O sorriso no rosto desfilando pelo centro da cidade vestindo a camiseta do time que na noite anterior tinha vencido o Tricolor, peito estufado como se fosse o time dele que tinha ganho a partida. Camiseta do Boca, do Lanús , duas do Real Madrid, uma de treino e outra de jogo. Isso tudo já meio beirando à loucura. Falando nisso, eu lembro de um vizinho meu no Bom Fim, colorado roxo, que estava secando em silêncio. Televisão sem som, fone na orelha, o narrador aos berro  dando como certa a desclassificação do Grêmio, quando escapa um lateral pela direita, ele cruza, a bola bate no zagueiro e entra. O meu vizinho quase enfartou. Deu chute na porta do apartamento, e a porta se abriu. Pude ver que na sala dele tinha um sofá gigante em frente à TV com todas as camisetas de times que jogaram contra o Grêmio espalhadas, e ele enrolado na bandeira do Inter pulando que nem Saci, pois tinha dado um bico de raiva na mesa de centro e quebrou dois dedos do pé direito. 

O Andrezinho, do Inter, fez o avô da minha cunhada enfartar depois de fazer um gol no último minuto. Ali estava o secador, concentradíssimo e quieto como todo o secador. Andrezinho correu para a bola,  bateu e guardou. O coração dele quase não resistiu, fruto dela, a secada. 

"Nosso time do coração"

Muitos secadores se tornam profissionais e gastam até muito dinheiro secando. Viajam, vão para fora do Estado, misturam-se na outra torcida sem que ninguém note para desfrutar daquele momento de prazer. O estranho de estarmos secando é que esse time pelo qual estamos torcendo não é o nosso time. Às vezes, não conhecemos quase ninguém do elenco, mas mesmo assim, por estar jogando contra o rival, se torna rapidamente o nosso time do coração. 

O torcedor colorado, aquele velho secador, deve estar dizendo agora que acompanha o trabalho do Clemer há muito tempo, que ele sempre foi um líder dentro e fora do campo.

Campeão do mundo com o Inter, vai decidir em casa e tem uma equipe competitiva. Se ganhar aqui na Arena o primeiro jogo, pode ter chance de levar a taça do Gauchão e fazer a alegria dos torcedores do  Xavante. Vou bater ali no meu vizinho e ver se ele melhorou. Ele poderá até me explicar melhor se é mesmo  triste essa vida de secador . 

 

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