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17/05/2010 | 06h50

A mestre de obras Clair é a dona do campinho

Filha e irmã de trabalhadores da construção civil, ela decidiu ingressar no ramo

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A mestre de obras Clair é a dona do campinho Andréa Graiz/
Clair venceu o preconceito Foto: Andréa Graiz
Aos 17 anos, Clair Nascimento da Silva contrariou a família, abandonou as roupas sociais e um emprego estável como secretária para se dedicar à profissão exercida pelos familiares. Ela se tornou servente de pedreiro.

A mudança radical na vida da jovem ocorreu há 26 anos, durante as férias do trabalho, quando ela pediu ao pai, José Furtado, para auxiliá-lo na obra conduzida por ele e cinco filhos.

– Ele foi totalmente contra, mas insisti. Comecei virando massa e carregando tijolo. Então, ele percebeu que eu poderia ser util. Na volta ao trabalho, pedi demissão – recorda.

Em pouco tempo, Clair passou a se interessar pela análise das plantas das obras, mesmo tendo cursado apenas até a sétima série do ensino fundamental. Cada momento com o engenheiro da construção era aproveitado para tirar dúvidas sobre o tema.

– Na hora de receber o salário, meu pai me pagava como pedreiro porque eu fazia o mesmo que todos os homens. Mas isso não era visto com bons olhos por eles. Enfrentei muitos obstáculos – conta.

- Tremedeira no primeiro dia

Três anos depois, com experiência para trabalhar sozinha, Clair decidiu se tornar autônoma. E ela não esquece da tremedeira do primeiro dia como construtora civil. Mas o muro de 10m de cumprimento e 2m de altura não foi capaz de assustar a mulher de 1m45cm.

– No início, as pessoas passavam e ficavam me olhando desconfiadas. Mas quando viram que o muro estava perfeito, começaram a parar e perguntar se eu mesma havia construído. Nunca mais parei.

A maior obra construída pelas mãos de Clair foi uma casa de dois pavimentos, iniciada desde a fundação. De tão apaixonada pela profissão, ela nunca se importou em trabalhar até 15 horas diárias, com chuva ou sol.

– O cimento está no meu sangue – afirma.

- "Serenidade para orientar”

No ano passado, depois de 25 anos trabalhando na mesma lida, Clair buscou novos ares. Ao ter assinada a carteira pela segunda vez – a primeira foi como secretária – ela se tornou mestre de obras.

E, apesar da pouca altura, a chefe se destaca no comando de homens e mulheres.

Atualmente, Clair lidera 36 homens e quatro mulheres em duas construções em andamento.

– É a primeira vez que tenho uma mulher como chefe numa obra, e estou gostando. Ela conhece o que faz e tem jogo de cintura. Diferente dos homens, ela tem serenidade para orientar. É muito mais tranquilo e o trabalho rende bem mais – conta o pintor Eduardo Bueno, 29 anos.

DIÁRIO GAÚCHO

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