Chove, mas venta pouco. A temperatura cai e a mínima atinge 10,7ºC. Embaixo de marquises, deitados na laje fria e ainda úmida, moradores de rua se abrigam como podem, protegidos por pedaços de papelão, jornais e cobertores rasgados.
Eles são centenas, espalhados por toda a cidade, um número que aumenta sempre. Em cinco horas, o DG contou 101 sem-teto em 14 bairros - que se dispersam nas primeiras horas da manhã e retornam para os mesmos lugares sempre que anoitece.
Estatística está defasada
A prefeitura não sabe quantos moradores de rua vivem na Capital. O levantamento mais recente, feito em parceria com a Ufrgs, em 2007, está defasado. Há quatro anos, eram 1,2 mil adultos. Hoje, podem ser 1,5 mil ou mais. Não estão concentrados apenas na região central. Os andarilhos agora se espalham por todos os bairros.
Para atender a esta população crescente, a maioria das medidas da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) ainda são paliativas. Aumentar o número de vagas em albergues no inverno não resolve o problema, visível o ano inteiro. Durante a ronda, a equipe do DG não viiu a equipe de abordagem social. Mesmo assim, pouco adiantaria: se as 101 pessoas encontradas aceitassem ir para um abrigo, não haveria vagas para acomodá-los.
Fasc promete investimentos
Presidente da Fasc, Kevin Krieger, admite as limitações na estrutura, mas destaca melhorias e anuncia investimentos.
– É bastante gente, mas temos 613 pessoas acolhidas. Conseguimos internação clínica para alguns e outros voltaram para suas casas. Em dois meses, vamos saber quantas pessoas estão nesta situação na cidade – promete o presidente.
Cerca de 130 servidores estão fazendo um curso de capacitação para atendimento da população em vulnerabilidade social. A consultoria com dois psicólogos e mestres em saúde pública custou R$ 140 mil (R$ 60 mil a mais do que foi gasto para ampliar o número de vagas nos albergues).
A Fasc contratou 40 educadores sociais para atuar na abordagem de rua, criará um comitê para discutir os problemas do setor e destinará, ainda este mês, 17 casas para ex-moradores de rua. Em agosto, um projeto que prevê a construção de novos alojamentos (repúblicas, creas e centro de inclusão produtiva) será entregue ao prefeito.
Abordagem social
O serviço de atendimento social de rua aborda e identifica os sem-teto, convidando-os para entrarem na rede de atendimento (assistência social, saúde, habitação, geração de renda, alfabetização etc).
Telefones:
3289-4994 - de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30min
às 18h.
3346-3238 - à noite e nos finais de semana.
Endereços
Albergue Municipal
Oferece pernoite, janta, café da manhã, banho e roupas limpas. Diariamente, das 19h às 7h. Rua Comendador Azevedo, 215 - Bairro Floresta
Abrigo Municipal Marlene
Oferece serviço de abrigagem para adultos moradores de rua. Avenida Getúlio Vargas, 40 - Bairro Menino Deus
Abrigo Municipal Bom Jesus
Abriga adultos moradores de rua e os auxilia em sua reorganização pessoal e social. Rua São Domingos, 165 - Bairro Bom Jesus
O mapa do descaso
23h
- Bairro Rio Branco, Avenida Mariante: duas pessoas
23h40min
- Bairro São Geraldo, Avenida Benjamin Constant: cinco pessoas
- Bairro São João, Avenida Benjamin, próximo à Avenida Brasil: uma pessoa
- Bairro Passo d'Areia, Avenida Assis Brasil: uma
0h17min
- Bairro Passo das Pedras, Avenida Baltazar de Oliveira Garcia: uma pessoa
0h38min
- Bairro Jardim Lindoia, Avenida Sertório (corredor de ônibus): uma pessoa
- Bairro São Geraldo, Avenida Farrapos esquina com a Rua Moura Azevedo: uma pessoa
1h
- Bairro Floresta, Avenida Farrapos: uma pessoa
- Bairro Floresta, Avenida Cristóvão Colombo: uma pessoa
1h30min
- Bairro Independência, Avenida Alberto Bins: quatro pessoas
A reportagem tentou falar com o morador, mas ele não quis dar informações.
-O que tu quer? Não estou a fim de conversa. Estou a fim de descansar-afirmou, o senhor de barba branca.
1h40min
- Centro, embaixo do Viaduto da Rua Conceição: seis pessoas
1h45min
- Bairro Floresta, Avenida Farrapos: duas pessoas
- Centro, embaixo do viaduto da Rua Conceição: sete pessoas
- Centro, Avenida Borges de Medeiros (perto do Largo Glênio Peres): uma pessoa (carrinho de súper)
- Centro, Rua Jerônimo Coelho (embaixo do edifício Cristaleira): nove pessoas
- Centro, Avenida Borges de Medeiros (embaixo do Viaduto Otávio Rocha): uma pessoa
2h
- Centro, Rua dos Andradas: cinco pessoas
- Centro, Rua Duque de Caxias (escadaria da Catedral): três pessoas
- Centro, Entorno da Praça da Matriz: três pessoas
2h10min
- Centro, Rua Duque de Caxias: duas pessoas
2h20min
- Bairro Independência, Rua Garibaldi: quatro pessoas
- Bairro Independência, Rua Santo Antônio, ao lado do Palacinho (casa do vice-governador): cinco pessoas
- Centro, embaixo do viaduto da Rua Conceição: duas pessoas
- Centro, Rua Voluntários da Pátria: uma pessoa
- Centro, Praça Osvaldo Cruz: três pessoas
- Centro, entorno do Camelódromo: duas pessoas
- Centro, Rua José Montaury: sete pessoas
- Centro, Borges de Medeiros: duas pessoas
- Menino Deus, Avenida Padre Cacique (embaixo do viaduto Dom Pedro II): três pessoas
3h15min
- Bairro Nonoai, Avenida Nonoai: uma pessoa (carrinho de papeleiro)
3h30min
- Bairro Partenon, Avenida Bento Gonçalves: duas pessoas
3h40min
- Bairro Santana, Avenida Ipiranga esquina com a Rua Santana: quatro pessoas
- Bairro Cidade Baixa, Rua da República: uma pessoa
3h45min
- Bairro Santana, Avenida João Pessoa: seis pessoas
4h
- Bairro Santana, Rua Laurindo: duas pessoas
Total: 101





