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02/08/2011 | 07h31

Gangues da droga estão em pé de guerra

A polícia prevê confrontos sangrentos na disputa por bocas de fumo na Região Metropolitana

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Gangues da droga estão  em pé de guerra Ellen Dick, Divulgação Denarc/Polícia Civil/
Polícia tenta rastrear material apreendido Foto: Ellen Dick, Divulgação Denarc/Polícia Civil

Execução de líder do tráfico do Rubem Berta no fim de semana dá indícios sobre uma suposta "lista da morte" contra os Bala na Cara. Quadrilha rachou o consórcio do tráfico comandado das cadeias e passou a comprar e até a fabricar sua própria droga.

Autonomia teria gerado ira na facção Os Manos, cujo líder Maradona está fragilizado. A suspeita é de que os Bala estejam tentando domínio total, passando por cima dos antigos parceiros.

* Colaborou Carolina Rocha

Um racha e a troca de comando forçada na organização do tráfico prenuncia, como aponta uma investigação do Denarc, dias sangrentos em parte da Capital, em Viamão e em Alvorada. Considerado o braço armado e encarregado de "serviços pesados" no bando Os Manos, o grupo Bala na Cara cresceu, estaria tentando tomar o controle de seus aliados e, agora, seria alvo dos Manos, comandados da cadeia por Maradona.

A polícia investiga a existência de uma lista de morte contra líderes dos Bala após a ida de Paulo Márcio Duarte da Silva, o Maradona, 32 anos, para o presídio federal no Paraná, em abril. Até então, ele era líder dos Manos.

Golpe mais duro foi no sábado

A comprovação veio na madrugada de sábado passado, com o golpe mais duro até o momento contra o comando dos Bala. Gelson da Silva Barcelos, o Preto, 41 anos, foi executado na frente de casa, na Rua Raul Cauduro, Bairro Mario Quintana.

Em liberdade desde o mês passado, era apontado pela polícia como interlocutor de sua quadrilha e a dos Manos. Teria sido um pivô da derrocada de Maradona – a suspeita é de que queria o "trono" para si.

– As relações do tráfico ficaram estremecidas à medida em que os Bala na Cara começaram a criar o espaço deles nos presídios, passando por cima do consórcio que mantinha a ordem – revela o delegado Rodrigo Zucco.

Mulher também foi assassinada

Três homens armados com pistolas teriam emboscado Preto e sua mulher, Geneci Pires, 27 anos. Ela tentou escapar para dentro da casa, onde também estavam as filhas de Preto e a mãe dele. Ferida, chegou a ser levada para o Hospital Cristo Redentor e morreu no fim de semana. O caso é apurado pela 2ª Delegacia de Homicídios, do Deic, que não revela detalhes da investigação. Há suspeita de que os assassinos tenham sido mandados pela nova cúpula da facção Os Manos.
 
O próximo alvo seria o homem conhecido como Júnior, 32 anos, criador dos Bala e, atualmente, cumprindo pena no semiaberto em Charqueadas. De acordo com o delegado Zucco, há indícios de que ele continua dando as ordens ao grupo.

Laboratório era "independência" dos Bala

O primeiro laboratório de refino de óxi no Estado, descoberto na quarta-feira em um sítio de Viamão, revela o poder que os Bala na Cara conseguiram alcançar a partir da derrubada de Maradona. A intenção do Denarc é mapear o caminho dos produtos químicos – todos com venda controlada no país – usados no preparo da droga.

Embalagens de ácido sulfúrico, ácido clorídrico e outros têm o rótulo da empresa Dinâmica Química, com sede em Diadema, interior de São Paulo.

– É possível que os materiais tenham sido desviados da empresa – avalia o diretor de investigações do Denarc, delegado Heliomar Franco.

Investigação da polícia paulista aponta o município como centro das operações da facção criminosa PCC. Para lá seria enviado, e lavado, o dinheiro do crime. No Rio Grande do Sul, Maradona era o elo com o PCC para obter drogas e armas. Era a partir dele que o material chegava às quadrilhas gaúchas.

A suspeita é de que os Bala tenham tentado encurtar o caminho, o que fatalmente resultou no domínio das bocas de fumo da região. Desde o início do ano, o Denarc prendeu 41 pessoas ligadas aos Bala e apreendeu armamentos pesados. Na Zona Sul, policiais encontraram um colete com a sigla PCC.

A primeira apreensão do óxi no Estado, em abril, foi no Rubem Berta. E, em uma casa, em Viamão, foram apreendidos 3kg de óxi.

Em 16 de junho, três dias após a libertação de Preto, outro integrante dos Bala foi executado. Rodrigo Souza da Silva, o Grilo, 25 anos, levou cinco tiros (dois no rosto) e foi achado no porta-malas de um carro no Passo das Pedras. O laboratório descoberto em Viamão estava no nome dele.

Apreendido filho de um dos líderes

Na tarde de ontem, a polícia de São Leopoldo deu mais um passo na desarticulação da quadrilha dos Manos. Filho de um dos líderes, um rapaz de 15 anos, investigado por homicídio e tráfico, foi apreendido no Bairro Feitoria. Comandada pelo delegado Alencar Carraro, a Operação Los Hermanos, desencadeada na semana passada, já prendeu
18 pessoas no Vale do Sinos.

corpo é achado em lixão

Na manhã de ontem, o corpo de um homem foi encontrado junto a um lixão nas proximidades do Parque Chico Mendes. De acordo com a Brigada Militar, a vítima aparentava 50 anos e tinha marcas de tiros na nuca e nas costas. Seria, supostamente, morador de rua e usuário de crack. É mais um executado de maneira semelhante na região do Rubem Berta desde o dia 13 de junho.

Toda semana, um morto na região

Desde então, só neste bairro, o Diário Gaúcho registrou oito homicídios com características de execução (média de aproximadamente um a cada seis dias). O número mostra que há abalo no comando do tráfico local.

Pelo menos duas vítimas têm perfil das mortes atribuídas a um dos integrantes dos Bala. Foram abatidas por atiradores em um carro em movimento. Uma dos mortos, Rodrigo de Souza Rocha, foi degolado e encontrado no Jardim Itu-Sabará.

Criminoso tinha carro blindado

Gelson da Silva Barcelos, o Preto, 41 anos, estava em liberdade desde 13 de junho, quando concluiu pena de seis anos de prisão por tráfico. Em julho de 2008, o Diário Gaúcho noticiou a prisão de Preto, que na época era considerado o principal e mais violento traficante do Bairro Rubem Berta, na Capital.

Preso em casa, no Bairro São Pedro, em Alvorada, por policiais da 3ª DP do Denarc, ele tinha um Omega 2001 blindado, que teria sido comprado por R$ 65 mil (com dinheiro do tráfico). Em depoimento, Preto negou as acusações.

Segundo a polícia, mesmo cumprindo pena em regime semiaberto em Montenegro, ele saía de dia para comandar o tráfico na Capital. Executado a tiros na madrugada de sábado, havia se tornado, dentro dos presídios, a liderança mais forte dos Bala na Cara, graças ao apoio de Júnior, o chefe do bando, e às suas relações com Maradona, decadente líder do grupo Manos.

Entenda o caso

– O esquema: depois de pelo menos seis meses de investigações da Polícia Civil, Brigada Militar e Ministério Público, foi revelado que o principal comando do tráfico na Capital era feito de dentro da Pasc, em Charqueadas. Dali, o traficante Paulo Márcio Duarte da Silva, o Maradona, líder da facção Os Manos, comandava a venda de drogas na Região Metropolitana. Eram de Maradona os principais contatos com traficantes de São Paulo e do Rio, por isso a facção unia em torno de si as principais quadrilhas, interessadas no fornecimento mais barato de drogas. Entre elas, a Bala na Cara.

– O crescimento dos Bala: braço armado na sociedade de traficantes, a quadrilha com origem no Bairro Bom Jesus ganhou visibilidade pela violência. Desde 2009, sua expansão é investigada pela polícia. Na base do terror, o grupo garantia controle das bocas de fumo da Capital, Alvorada e Viamão. Em troca, recebia armas e drogas vindas dos Manos.

– O racha: em abril, Maradona foi preso e transferido para o presídio federal de Catanduvas (PR). Seus principais comparsas também. Desde então, a gangue Os Manos passa por declínio. Enfraquecido, o próprio Maradona estaria na lista dos marcados para morrer. Os Bala teriam feito contato direto com criminosos de São Paulo, fornecedores de armas e drogas. Passaram por cima dos Manos, desagradando os antigos aliados. Chegaram a montar um laboratório de refino de óxi, em Viamão.

– Os marcados: com a queda de Maradona, o comando dos Manos teria passado para um aliado de 52 anos, do Vale do Sinos, que cumpre pena no Presídio Central. Mas os Bala não teriam admitido o novo controle e passaram a representar uma força independente, inclusive nas cadeias, a partir de uma organização já estruturada na Fase. A estratégia dos Manos contra os Bala seria a mesma usada para fortalecê-los: parceria com novos grupos, municiando-os com armas e drogas e transformando-os em rivais dos Bala. Por sua vez, o grupo oriundo da Bom Jesus, com bons contatos em São Paulo, teria poder suficiente para enfrentar o combate.

DIÁRIO GAÚCHO

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