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RONDA POLICIAL10/01/2012 | 06h49

Tráfico deixa rastro de dor

O Diário Gaúcho fez um balanço da planilha dos homicídios de 2011

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Tráfico deixa rastro de dor  Mateus Bruxel/Agencia RBS
Sheila guarda como recordação pertences da filha Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Em 2011, três pessoas foram assassinadas por dia na Grande Porto Alegre. Este cenário de terror é o retrato de uma contagem feita pelo Diário Gaúcho desde janeiro. Foram 1.088 crimes em 19 cidades da Região Metropolitana (média diária é de 2,98). Para ir além de números, de hoje até sexta-feira, vamos recontar histórias e atualizar as investigações.

Nesta primeira reportagem, mostramos como o tráfico serve de pano de fundo para boa parte dos crimes. Traficantes são os principais alvos. Mas os tiros também atingem inocentes, como é o caso de Rafaela. E a dor desta perda mutilou sonhos de sua mãe.

Em tempo: o registro do caso mil foi feito em 29 de dezembro. Depois disso, a reportagem percorreu 33 delegacias em busca de dados que ainda não tinham sido informadas. Por isso o salto para 1.088 casos.

Com todo o cuidado, Sheila Patrícia dos Reis, 34 anos, folheia as páginas com trabalhos escolares da filha. Para em uma com a foto dela ao lado dos colegas. Rafaela dos Reis Braga, quatro anos, aparece com o rosto pintado de coelho. Na página seguinte, Sheila passa a mão sobre a pintura feita pela menina para o Dia das Mães. No alto, lê-se "Minha Mamãe".

Mas o álbum está incompleto. Não há pinturas do Dia dos Pais, nem colagens do Dia das Crianças ou de Natal. Rafaela não corre mais pela casa, não brinca com bonecas, nem com Piti, o cãozinho poodle de pelúcia rosa.

As fantasias estão no armário, onde está pendurado o bordado com a oração do Santo Anjo, que ela rezava todas as noites antes de dormir. Uma rotina ceifada há sete meses: morreu por bala perdida na noite de 4 de junho.

Por ironia, eles trocaram de mesa

Sheila revela:

- Foi um segundo que mudou toda a minha vida. Por medo, não quero ter outro filho.

O namorado dela, João Gabriel da Silva, 34 anos, que estava no local, compara:

- Normalmente, a gente vive um sonho acordado e, quando dorme, tem um pesadelo. No nosso caso, a gente vive um pesadelo e sonhamos com ela.

No dia do crime, Rafaela havia passado o sábado com o pai, de quem havia ganho uma Barbie que não largava de jeito nenhum. Com Sheila e o namorado dela, a menina foi a uma lanchonete perto de casa, no Bairro Ponta Porã, em Cachoeirinha.

No balcão, pediram batatas fritas e refrigerantes. João lembra de terem trocado de mesa, em função de uma corrente de ar nas costas da menina. A escolha se mostraria cruel. Protegida do frio, ela viu o garçom trazer os refrigerantes e avisar que as batatas já viriam. Não vieram. O momento de alegria à mesa deu lugar ao pânico diante da invasão do local.


Sheila ficou imóvel

João lembra de ter visto um homem com o rosto coberto entrar no cômodo que ficava às suas costas. Ouviu estampidos e os confundiu com bombinhas. Recorda de ter visto um segundo homem chegar por outra porta à sua esquerda, armado. Sentiu como se atirassem por cima de sua cabeça.

Sheila não conseguiu se mexer. Pensou que todos seriam mortos, menos a filha. Pensou até em quem cuidaria de Rafaela.

Os estampidos cessaram, dando lugar aos gritos. Rafaela estava caída no chão. Levaram-na ao Hospital Conceição.

Dez minutos depois, os médicos deram a notícia de que Rafaela havia morrido.

- Tento ocupar minha cabeça, senão penso nela o tempo todo. É torturante - disse Sheila, sem conseguir conter as lágrimas.

Rafaela estava na linha de tiro entre rivais


O alvo dos tiros que mataram Rafaela estava outra mesa da lancheria. Nela, antes da invasão, Denison Luis Correa Franco, 29 anos, e a namorada conversavam quando o telefone dele tocou. Foi logo depois de desligar que dois homens fizeram vários disparos de pistola .380 e .40. Denison foi executado.

A Polícia Civil acredita que o assassinato havia sido planejado para impedir que ele retornasse ao antigo negócio. Recém-saído da prisão, ele estaria tentando se reestruturar no tráfico. O que Denison não sabia é que a área já tinha novo dono. E foi desse novo patrão, identificado como Jackson dos Santos Moreira, o Batata, 21 anos, a ordem para matá-lo.

As investigações da 1ª DP de Cachoeirinha revelaram que, antes do crime, uma Saveiro branca passou em frente ao local. Dentro, estaria Batata. Em seguida, Batata teria ligado para Denison. A conversa foi rápida.Segundos depois, Lucas Carvalho de Borba, o Lucas Atentado, 26 anos, e Jonas de Moraes Felisberto, 26 anos, invadiram o local e executaram Denison.

E um tiro acabou com a vida de Rafaela.

Em ação certeira, Mano Louco morreu traído

Ao menos um alento: são minoria os casos em que balas vitimam inocentes quando há duelo entre traficantes. E a morte narrada ao lado e o texto a seguir ilustram algo comum: traficantes matando traficantes.

O fato ocorreu às 19h37min do dia 5 de março, um sábado. O horário ficou registrado na câmera de segurança de um minimercado na Rua dos Pintores, no Bairro Mathias Velho, em Canoas. De regata preta, Irineu Antônio de Oliveira, o Mano Louco, 36 anos, entrou correndo no estabelecimento.

Em três segundos, os funcionários saíram apavorados ao ver uma dupla usando capacetes invadir o local. Entre prateleiras derrubadas e mercadorias no chão, a dupla fez ao menos três disparos e fugiu, deixando Mano Louco caído no chão, ferido na cabeça e na barriga. Na ação de 14 segundos, a disputa por pontos de tráfico havia feito mais uma vítima - a mando de uma facção a quem Mano Louco devia.

Ela fez parte de um contexto criminoso

As investigações da 1ª DP de Canoas revelaram o plano para matar o homem que era considerado o grande patrão do Bairro Mathias Velho desde que herdou o ponto do sogro, Dorvalino Oliveira, o Dorva, executado em 2008.

O crime foi tramado e executado por Fábio Rosa Carvalho, o Fábio Noia, 28 anos. Ele cumpria pena no regime semiaberto do Instituto Penal de Viamão, mas fugia à noite. Na data do crime, Fábio Noia contou com a ajuda do então segurança de Mano Louco, Claudio Junio Silva da Cruz, o Juninho, 33 anos, que o atraiu para uma emboscada.

Fábio Nóia foi preso em 20 de junho, em Tramandaí, junto com Juninho. Na mesma ação, em Canoas, policiais do Denarc prenderam Rafael Pereira Rockenbach, 20 anos. Na madrugada daquele dia, Juninho e Rafael teriam participado da execução de Flávio Moreira Roza Junior, o Nego Zoio, 30 anos - na saída de um bar em Cachoeirinha. Nego Zoio foi morto a mando de Batata, o mesmo homem que encomendou a morte de Denison, 16 dias antes.

E foi por causa desse crime que Rafaela morreu...

Opinião do especialista

Para analisar o tráfico, o DG ouviu o promotor David Medina da Silva, do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público. Durante dez anos atuou nas varas do Júri na Região Metropolitana, Vale do Sinos e Capital. Hoje, está no Centro, que atua em casos complexos.

TRÁFICO COMO PANO DE FUNDO:

"É uma constante. O tráfico de drogas é o principal responsável pelos homicídios. Como é descrito na lei, não se trata de um crime violento. Mas sabemos que o tráfico não existe sem uma carga enorme de violência. E os crimes acontecem por rivalidade entre grupos, cobrança de dívidas. Inclusive, a violência é também moeda de troca no narcotráfico."

GRANDES E PEQUENOS TRAFICANTES:

"Hoje, se fala dos pequenos traficantes, dos usuários que traficam para sustentar o vício. Mas, se somarmos tudo que ele faz durante um ano, entre dinheiro e quantidade de drogas, vamos nos supreender. Aí, vamos ver se ele continua a ser considerado pequeno. E nesse comércio também circulam armas, munições, exploração sexual e uma série de outros elementos."

A MUDANÇA DOS HOMICÍDIOS EM DEZ ANOS:

"Há dez anos, a motivação era diferente. Então, houve um fenômeno relacionado ao crack, somado à falta de políticas públicas e de legislações mais firmes. Temos dificuldade para investigar o tráfico. Quando conseguimos a condenação, as penas são inexpressivas. Além disso, a prisão acaba favorecendo o tráfico. E reforça a aliança entre as quadrilhas e as facções."

DIÁRIO GAÚCHO

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