Jogo Ilegal
Caça-níqueis apreendidos voltavam para contravenção
Cinco integrantes de ONG do Vale do Sinos foram indiciados pelo desvio do material de depósito
Componentes de caça-níqueis apreendidos pelo Ministério Público estavam sendo desviados de um depósito e revendidos aos próprios contraventores. Inquérito realizado pela Polícia Civil indiciou cinco integrantes de uma ONG encarregada de transformar as máquinas em computadores doados a entidades e escolas, dentro do projeto conhecido por Alquimia. O desvio foi revelado por reportagem da RBS TV.
A investigação começou depois que a Força-tarefa de Combate aos Jogos Ilegais fez dois comunicados à Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre informando sobre os supostos desvios.
Um dos casos envolve a apreensão de um caça-níquel em Taquara em dezembro de 2010. Dentro da máquina, foi descoberto um componente que pertencia a outra, apreendida um ano antes em Viamão. A peça, conhecida por placa-mãe, estava com adesivo colocado pela Brigada Militar, durante a operação.
- Nós apreendíamos as máquinas nas casas (de jogos), (as máquinas) eram destinadas ao depósitos e de lá voltavam às casas - diz o delegado Tiago Baldin.
Ele trata o caso como isolado, pois não surgiram indícios de envolvimento da cúpula da ONG no crime.
Componentes foram desviados entre abril e setembro de 2011
Localizado pela reportagem da RBSTV, um contraventor admitiu ter adquirido componentes desviados do depósito da ONG:
- Teve situações em que este material já voltou para a gente de novo.
A base do inquérito da Polícia Civil é a sindicância aberta pela própria ONG Desafio Jovem Gideões, com sede em Ivoti e depósito em Novo Hamburgo.
A entidade abriga ex-dependentes químicos que tentam a reinserção social por meio do projeto Alquimia. A investigação interna apontou que foram desviados 892 ceduleiras e 420 placas-mães, oriundas de 286 operações realizadas pelo Ministério Público entre abril e setembro de 2011.
Material foi trocado por notas de R$ 50
Em depoimento na sindicância aberta pela ONG Desafio Jovem Gideões, um funcionário da entidade disse ter visto um dos indiciados recebendo dinheiro do gerente de uma casa de jogos na Avenida Princesa Isabel, em Porto Alegre.
O local já foi fechado várias vezes, mas continua em funcionamento. Em outro relato, uma testemunha descreve que três indiciados "encheram um saco plástico de 50 litros com ceduleiras e placas-mãe retirados das máquinas" e o entregaram a um homem em troca de "notas de R$ 50".
- Eu fui comunicado pelo Ministério Público sobre essas denúncias. Imediatamente, a gente tomou medidas cabíveis que são a sindicância e a ocorrência policial. A entidade não compactua com ações imorais nem ilegais - diz o pastor Roque Serpa, responsável pela ONG.
Por entender que não houve envolvimento de diretores da ONG, o Ministério Público decidiu não romper o convênio, mas estuda incluir novas cláusulas visando a aumentar o controle e evitar desvios.
- Nos limites do nosso efetivo, nós incrementamos a fiscalização, a nossa presença, especialmente nesses atos de abertura de ceduleira. A própria entidade parceira do Ministério Público também alocou um efetivo específico para fazer esta fiscalização, no sentido de reduzir o máximo possível o risco de que fatos como esse aconteçam novamente - diz César Faccioli, promotor-assessor da Subprocuradoria-geral de Justiça para Assuntos Institucionais do Ministério Público.