Na boca do caixa
Queda no juro ainda não vale para todos os clientes
Consumidores enfrentam informações desencontradas e exigências na tentativa de obter crédito barato nos grandes bancos

Há um mês anunciados com insistência por bancos públicos e privados, os cortes nas taxas de juro de empréstimos ainda são realidade distante para boa parte dos clientes.
Reduções limitadas a taxas mínimas, exigência de aplicações elevadas ou adesão a pacotes de serviços barram o acesso ao dinheiro mais barato.
Moradora de Viamão, a aposentada Sílvia da Silva Carvalho, 59 anos, surpreendeu-se ao ser informada em duas agências da Caixa que a redução do juro nos empréstimos consignados (com desconto em folha de pagamento) não seria aplicada para aposentados pela prefeitura de Porto Alegre.
- Disseram que o juro não vai cair para todo mundo. Isso me surpreendeu, pois os bancos anunciavam que todas as linhas cairiam, inclusive a dos consignados - afirma Sílvia.
Informações desencontradas ou incompletas são responsáveis por boa parte dos problemas na hora de obter empréstimo. Quando chegam ao caixa, muitos clientes descobrem que o juro menor está disponível apenas em condições especiais. É necessário saldo médio ou aplicações elevadas para ter direito às taxas mínimas, por exemplo. Muitas vezes, as operações mais baratas só estão disponíveis em curto prazo.
Associação aponta venda casada e instituição nega
Algumas exigências passaram a ser contestadas. A Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) acusou o Banco do Brasil (BB) de fazer venda casada ao oferecer taxas especiais de crédito se os clientes aderirem ao Bompratodos - pacote de tarifas com preços entre R$ 6,70 (para segurados do INSS) e R$ 54 (dá direito a mais serviços). O BB nega, justificando que as condições variam de acordo com o relacionamento com o cliente.
Para especialistas, as exigências dificultam o acesso ao crédito barato a clientes de renda mais baixa.
- Nos bancos públicos, até há redução na taxa final ao cliente com menor renda. Mas nos privados as reduções são compensadas por aumento de tarifa - afirma Alberto Borges Matias, professor de sistema financeiro na Universidade de São Paulo (USP).
Ainda deve levar pelo menos três meses até que os bancos consolidem as taxas - depois de novos cortes ou ajustes -, e os clientes avaliem com mais clareza as condições para empréstimo, avalia Matias.
Pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) mostra que o juro médio para pessoa física caiu apenas 0,08 ponto percentual em abril, quando começou a ofensiva ordenada pela presidente Dilma Rousseff. Ainda assim, as reduções têm estimulado a procura por empréstimos: a Caixa informa alta de busca por crédito de 39% em abril em relação a março.
