Se você pensa que toda campanha eleitoral é igual, está na hora de conhecer melhor a realidade dos municípios gaúchos. Em lugares sem propaganda na TV, onde os candidatos ainda visitam os eleitores de porta em porta, enredos improváveis pautam disputas pouco conhecidas além dos limites municipais.
Zero Hora vai apresentar sete exemplos, em uma série que contará a história de cidades que têm suas eleições marcadas por peculiaridades. Para conhecê-las, a equipe percorreu mais de 2,8 mil quilômetros, passando por diferentes regiões do Estado, durante 15 dias na estrada.
No caminho, encontrou territórios divididos por disputas familiares, como o caso de dois irmãos que travam uma guerra política em Vila Nova do Sul, na Região Central, e do genro e sogro que se enfrentam em Tabaí, na Região Metropolitana. Conversou com eleitores divididos sobre a candidatura a prefeito de um "guri" de 21 anos, o candidato mais jovem ao cargo do Rio Grande do Sul, na Região da Campanha. Conheceu um lugar onde nunca houve disputa eleitoral, com acordos que garantem uma sucessão de consensos, e pasmem: onde sobram vagas e remédios nos postos de saúde.
Descobriu por que as mulheres têm a tradição de governar em São João do Polêsine — e o que pensam os homens da cidade. Acompanhou o dilema da oposição em Santiago, na Fronteira Oeste, onde um mesmo partido tem hegemonia na prefeitura desde antes da época da ditadura. E testemunhou declarações de amor entre petistas e tucanos, que governam juntos em Candiota, na Região Sul.
O critério da escolha não foi o tamanho do município nem sua importância econômica, e sim as histórias mais inusitadas. Conheça abaixo a primeira entre as sete eleitas.
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Em Tabaí, o muro da separação
A pouco mais de um mês das eleições, dois adversários à prefeitura de Tabaí se cruzam em frente à cerca que divide suas casas, às margens de uma estrada de chão batido. São 8h25min de 4 de setembro. Trocam olhares sem se cumprimentar, recuam alguns passos e fincam pé em lados opostos, separados pelas tábuas de madeira enfileiradas que delimitam as duas propriedades.
De um lado, está Osvaldo Pereira Machado, o Vadico, 64 anos, que concorre a prefeito pelo PP. Do outro, seu genro, Mauro Sérgio de Vargas, 39 anos, que após desentendimentos políticos com o sogro saiu do partido que os unia, fundou o PSB no município e hoje concorre a vice-prefeito na chapa do PT.
— O Vadico podia estar aqui desse lado, né — diz o genro, sabendo que é ouvido do outro lado da cerca pelo pai da mulher por quem se apaixonou à primeira vista quando tinha 12 anos, encantado pelo “jeito diferente de olhar” e pelos “cabelos compridos e ondulados” da morena.
— E tu aqui — responde, sem descruzar as mãos que repousam sobre a barriga, Vadico, que no começo foi contra o namoro da filha, por achar que o pretendente não era lá muito chegado em trabalho, mas depois foi conquistado pelo empenho demonstrado pelo genro na serraria da família.
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Os dois falam olhando para a frente, sem esperar resposta nem esticar assunto. Desde que se apartaram, no ano passado, os churrascos de domingo em família foram suspensos, o chimarrão deixou de passar de mão em mão, os conselhos políticos até então compartilhados foram substituídos por chispas cruzadas em comícios. E a eleição em Tabaí ganhou um ingrediente passional que transformou a campanha em bem mais do que um espaço para apresentação de promessas e discussão de políticas públicas. A desavença colocou os eleitores diante de um julgamento moral: ao escolher seu voto, acabarão decidindo indiretamente quem tem razão nesta peleia que, de alguma forma, enreda as três chapas que concorrem em Tabaí.
Versões diferentes
Para entender como tudo começou, é preciso voltar aos bons tempos em que só a costela bovina era dividida na família de Mauro e Vadico. Na última eleição, o sogro foi candidato a prefeito e, o genro, o vereador mais votado da cidade pelo PP. Mas a coligação foi derrotada pelo atual prefeito, Arsenio Cardoso (DEM). Apontando supostas irregularidades na campanha do adversário, como a falsificação de assinaturas do registro das candidaturas e compra de votos, a coligação encabeçada pelo PP recorreu à Justiça. Nessa época, genro e sogro entoavam juntos críticas a Arsenio e ao vice-prefeito, Enídio Pereira (PTB), lutando para que fossem derrubados. Quase conseguiram. O prefeito e o vice chegaram a ser cassados, em 2010, mas reverteram a decisão judicial minutos antes de entregarem os cargos.
O clima era tão tenso que todos imaginavam mais uma disputa polarizada nesta campanha. Só que, às vésperas desta eleição, tudo mudou. Depois de tanta luta para tentar cassar o prefeito, o sogro chegou um dia em casa contando algo que o genro jamais imaginava ouvir: iria se coligar com o partido do arquirrival, oferecendo a vaga de vice em sua chapa em troca de apoio político do DEM. Inconformado, o genro abandonou o PP e criou o PSB na cidade – o que lhe rendeu a cassação de seu mandato como vereador, por infidelidade partidária.
— Como é que a gente iria nas casas pedir voto e explicar que tá junto com o inimigo? É uma vergonha, um desrespeito com o povo — critica Mauro, que hoje é vice do petista João Brandão.
O sogro conta uma versão diferente. Garante que o verdadeiro interesse do genro era tomar o seu lugar como candidato do PP a prefeito.
— Queriam que eu desse meu lugar para o meu genro. Ele tem ciúme de mim — reage.
Vadico defende a aproximação com o antigo rival político com o argumento de que, na verdade, se trata de uma reaproximação. Lembra que ele e o atual prefeito trabalharam juntos pela emancipação do município de Taquari, alcançada em 1995, na época em que foram colegas na Câmara da cidade-mãe. Chegaram a governar juntos no primeiro mandato, quando Vadico foi prefeito, tendo Arsenio como vice. Mas se desentenderam e se tornaram adversários.
Sem reunião em família
Com sua fala simples, de quem só estudou até “o quinto livro”, Vadico resume seu entendimento sobre a elasticidade das alianças:
— Assim como eu fazia críticas contra eles, hoje os que eram deles tão tudo comigo aí, fazendo crítica contra eles. Isso é política. E não é só aqui que aparece isso, aparece lá em Brasília, tudo que é lugar... só que aqui a gente não tem estudo.
A reviravolta que acabou aproximando os antigos oponentes Vadico e Arsenio aconteceu por causa de um desentendimento entre os partidos que comandam a prefeitura. Sem conseguir conciliar seus interesses na escolha da presidência da Câmara, racharam. Como o prefeito não podia mais se reeleger, após oito anos no poder, seu partido decidiu apoiar Vadico, enquanto o vice-prefeito lançou chapa própria. A situação ainda causa estranhamentos.
— Outro dia fui numa festinha e já veio uma tia me cobrar: ah, vocês não têm vergonha na cara? Eu disse: tia, podemos até não ter vergonha, mas rancor nós não temos — contou o prefeito, aliado de Vadico.
Na campanha, o sogro provoca dizendo que tem “a melhor vice”, o genro responde que está com “o melhor candidato a prefeito”. Reservadamente, ambos lamentam o afastamento. Vadico diz que Mauro é “um genro sem defeito”, Mauro afirma que o sogro “é um homem muito honesto”. No meio da briga está a dona de casa Andréia, 39 anos, que se viu com dois corações ao ver a briga entre o pai e o marido. Decidiu apoiar o companheiro, mas segue frequentando a casa do pai.
— Procuro não falar de política, mas acho que meu pai errou — diz ela, que segue filiada ao PP.
Tanto o genro quanto o sogro estão confiantes. Mas, por via das dúvidas, o sogro fez uma combinação com Deus. Durante uma viagem a Jerusalém, no ano passado, deixou um bilhetinho no Muro das Lamentações: se Deus quisesse que ele fosse prefeito, que o fizesse ganhar. Senão, que o fizesse perder.
Caso perca para o genro, Vadico já decidiu: vai na festa da vitória. Mauro torce por esse resultado, mas não pensa em retribuir o gesto caso ocorra o inverso. Com tanta indigestão eleitoral, o próximo churrasco em família não deve sair tão cedo.
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