Fraude no leite
Mais cinco são presos por suspeita de adulteração no leite no norte do Estado
Ministério Público desencadeou segunda etapa da Operação Leite Compen$ado

Na noite de terça-feira, madrugada e manhã desta quarta, três equipes formadas por 26 policiais, 10 servidores do Ministério Público Estadual (MPE) e seis promotores de Justiça colocaram em andamento a segunda fase da Operação Leite Compen$ado.
Os cinco mandados de prisão preventiva foram cumpridos até as 8h30min. Outros seis mandados de busca e apreensão nas cidades de Rondinha e Boa Vista do Buricá, próximo a Três de Maio, também foram executados.
A exemplo da primeira operação, esta também é uma parceria entre o MPE e o Ministério da Agricultura. Dias antes da segunda fase, foi montada uma base de operações em Palmeira das Missões.
Lá, agentes policiais tinham a missão de vigiar os passos dos suspeitos, enquanto promotores faziam os últimos ajustes nos pedidos de prisões preventivas. No anoitecer de segunda-feira, a Justiça concedeu mandados. Era o início da operação.
As prisões iniciaram na noite de terça-feira, em Horizontina. Larri Lauri Jappe, vereador do PDT, empresário do setor de transporte de leite cru, foi preso por suspeita de adulteração de leite. Ele foi encaminhado ao presídio de Santa Rosa. Segundo Mauro Rockenbach, promotor de Justiça responsável pela operação, Jappe já vinha sendo investigado e foi preso porque estaria preparando uma fuga. Jappe não teria reagido à prisão.
- Ele pediu licença no cargo e temos informações que se preparava para fugir para a Argentina - disse o promotor, sem entrar em detalhes.
Na madrugada desta quarta, equipes saíram de Sarandi rumo a Rondinha, que fica distante 12 quilômetros do município. A parte mais sensível da operação estava com a equipe de Sarandi, que tinha a missão de prender os irmãos Antenor Pedro Signor e Adelar Roque Signor e o cúmplice, o caminhoneiro Odirlei Focalli.
Os três são suspeitos de ter fraudado leite e entregue em Selbach, a 120 quilômetros de Rondinha. Segundo Adelar, o responsável pelo leite é seu irmão:
- Eu não administro o leite, quem faz é o meu irmão (Antenor). Para mim, é uma surpresa (a prisão), inclusive porque estamos quebrados. Temos uma dívida de mais de R$ 300 mil.
Questionado sobre o parentesco com o superintendente do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, Francisco Signor, Adelar afirmou que ambos não têm relação. À Zero Hora, Francisco disse desconhecer os irmãos detidos na operação.
Já o caminhoneiro Odirlei Focalli disse que desconhece qualquer tipo de fraude no produto. Os três foram encaminhados ao presídio de Sarandi. Também foi decretada novamente a prisão de Daniel Riet Villanova, já recolhido no Presídio Estadual de Espumoso desde a primeira fase da operação.
Nesta quarta-feira, outra equipe saiu do centro de Três Maio rumo a Boa Vista do Buricá para cumprir mandado de busca e apreensão de documentos em uma das empresas investigadas.
Núcleo de Rondinha
Em uma possível fraude comandada pelos irmãos e empresários Antenor Pedro Signor e Adelar Roque Signor, com a cumplicidade do caminhoneiro Odirlei Focalli, 113,5 mil litros de leite foram alterados, por meio do uso de ureia e formol, entre os dias 5 de fevereiro e 8 de maio.
As adulterações foram registradas em 11 laudos do Ministério da Agricultura, sendo que 10 foram de cargas de leite entregues no posto Marasca Comércio de Cereais Ltda., em Selbach - a 120 quilômetros do local de recolhimento.
O outro laudo, datado de 8 de maio - dia da deflagração da Operação Leite Compen$ado - trata da entrega feita na Cootal, em Taquara, nas proximidades da Região Metropolitana.
A investigação do MPE, apoiada pelos fiscais do Ministério da Agricultura, descobriu que o leite era entregue em Selbach devido à suposta cumplicidade do veterinário Daniel Riet Villanova. A ligação entre os irmãos e o veterinário permitiu que eles sejam enquadrados, além do crime de adulteração de alimentos (pena de quatro a oito anos), no de formação de quadrilha (pena de um a três anos).
Núcleo de Três de Maio
Seria comandado por um caminhoneiro que recolhe leite em vários locais no interior do município. Conforme o MP, ele fraudava o leite com ureia e formol e o entregava em vários postos de resfriamento. Teriam sido adulterados 6,5 mil litros de leite. O Ministério Público fez o pedido de prisão preventiva do empresário, mas que acabou rejeitado pela Justiça. Porém, um mandado de busca e apreensão em um caminhão foi cumprido.
Núcleo de Horizontina
Seria coordenado por Larri Lauri Jappe, vereador do PDT. Na primeira operação, o MPE pediu a prisão, mas não foi concedida pela Justiça. Na ocasião, foram encontradas na propriedade dele três toneladas de ureia e, em uma das cargas de leite, foram encontrados traços de ureia e formol.
Os promotores procuravam provas que o ligassem a outros núcleos de fraude do leite.
Núcleos de Ibirubá e Guaporé
Além dos três núcleos investigados na operação desta quarta, 13 pessoas já foram denunciadas nos municípios de Ibirubá e Guaporé.
Conforme o MP, o esquema em Ibirubá funcionaria de forma autônoma: todos os elos da fraude operariam na mesma cidade, sem conexão direta com outros núcleos. Produtores receberiam o pagamento da indústria por uma quantidade acima do que realmente haviam vendido e dividiriam o lucro com transportadores que faziam a mistura e técnicos de postos de refrigeração. O leite seria vendido para as indústrias Mu-mu e Confepar, no Paraná, que desconheceriam a fraude.
Em Guaporé, foram denunciados pelo MP Leandro e Luis Vicenzi. Em Ibirubá, consta no inquérito os nomes de João Cristiano Marx, Angélica Capponi Marx, João Irio Marx, Alexandre Capponi, Rosilei Gueller, Natália Junges, Paulo Cesar Chiesa, Daniel Vilanova, Cleomar Canal, Egon Bender, Senald Wachter.
Indústrias já haviam sido alertadas pelo MP
Em 18 de fevereiro, as indústrias foram avisadas, através do memorando 112/2013 do Ministério da Agricultura, que o leite cru vindo de seis postos de resfriamento tinha restrições no seu uso. O produto não poderia compor leite vendido para o consumidor.
Poderia ser usado apenas para a fabricação de derivados do leite, com a condição de os lotes industrializados ficarem estocados na empresa à espera da análise da fiscalização federal.
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Dos seis postos citados no documento, apenas dois (Marasca Comércio de Cereais Ltda e LTV Indústria, Transporte e Comércio de Laticínios Ltda) foram alvo, em 8 de maio, da Operação Leite Compen$ado, na qual o MPE e de fiscais do Ministério da Agricultura encontraram leite fraudado com ureia e formol. Os outros quatro estabelecimentos não foram envolvidos na ação, embora testes realizados em fevereiro tenham detectado traços de formaldeído no leite.
- Portanto não é verdade a afirmação das indústrias de que não sabiam que o leite estava com problema - afirma o promotor Mauro Rockenbach.
Nos dias seguintes à operação, as indústrias que usaram o leite fraudado alegaram que não sabiam, conforme consta no processo tramitando na Justiça. Rockenbach disse que ainda não havia mostrado o documento em público porque ele poderia comprometer a segunda fase da operação, que estava em gestação.
Nos próximos dias, os representantes das indústrias devem ser chamados para conversar a respeito do memorando.
Os seis postos mencionados no documento:
- Marasca Comércio de Cereais Ltda. - Selbach
- Cooperativa Agrícola Mixta São Roque Ltda. - Salvador das Missões
- LTV Indústria, Transporte e Comércio de Laticínios Ltda. - Guaporé
- Comércio de Latícinios Mallmann Ltda.-EPP - Sede Nova
- Hubner Posto Regional de Recebimento de Leite Ltda. - Tapera
- Cooperativa Agropecuária de Petrópolis Ltda. - Vila Flores

