Fotógrafo Ricardo Chaves inaugura restrospectiva "A Força do Tempo" - Diário Gaúcho

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Testemunha da história06/05/2014 | 08h01

Fotógrafo Ricardo Chaves inaugura restrospectiva "A Força do Tempo"

Exposição tem imagens de fatos que marcaram os últimos 40 anos no fotojornalismo

Fotógrafo Ricardo Chaves inaugura restrospectiva "A Força do Tempo" Jefferson Botega/Agencia RBS
Ricardo Chaves, o Kadão, participou de coberturas fotojornalísticas em todo o mundo Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Seu trabalho era estar ali, onde a notícia irrompe. Chegou a ser detido pela polícia três vezes por fazer exatamente isso. Fotografou na Sibéria, a 40ºC negativos. Na Amazônia, enfrentou a fúria dos mosquitos; nas ruas brasileiras, a mira dos militares em plena ditadura. Ricardo Chaves, o Kadão, fez sua parte para narrar a história como a conhecemos hoje.

Por mais de 40 anos, Kadão produziu fotografias para os maiores veículos de imprensa do país. Em cada imagem, deixou um pouco de si, como se verá na retrospectiva A Força do Tempo, que será aberta nesta terça-feira, às 19h, pelo Museu de Arte Contemporânea do RS, na Casa de Cultura Mario Quintana. A mostra é uma homenagem que o 7º FotoFestPOA faz a um dos maiores fotojornalistas do país.

– Sua carreira é nacional, passou pelo Rio, por SP e por Brasília, as três principais bases, em uma época em que o imaginário do Brasil era criado pelo fotojornalismo – relata Carlos Carvalho, organizador do FotoFestPOA.

Um panorama da trajetória de Kadão é também sua versão particular das últimas quatro décadas no país e no mundo.

– A gente fotografa com tudo o que a gente é, com tudo o que viveu – afirma o fotojornalista.

Para ligar a narrativa da grande imprensa à intimidade de uma voz, a mostra não traz só fotografias de Kadão, mas também imagens de bastidores. Nas paredes da galeria, estarão uma centena de fotos realizadas em 38 coberturas e, abaixo delas, outros 85 documentos que as contextualizam. Ao visitante, será oferecida, assim, uma reflexão sobre a passagem do tempo nas dimensões coletiva e individual. Um painel ainda mostrará 200 retratos de personalidades, de Xuxa a Fidel Castro. Há um projeto de livro com proposta semelhante à da mostra previsto para o fim do ano.

Essa dedicação em buscar o contexto de cada imagem é o que os colegas admiram em Kadão.

– Alguns profissionais fazem a imagem, voltam e não procuram entender o que estavam cobrindo. O Kadão nunca fez isso. Sempre tentava entender por que ele estava ali e o que representava esse fato que estava acompanhando, qual era o seu sentido – conta o jornalista Luiz Cláudio Cunha.

Para Cunha, Kadão traz a consciência política no seu DNA. Seu pai, o jornalista e político Hamilton Chaves, foi preso durante a ditadura militar devido a suas ligações com Leonel Brizola.

A história, segundo Kadão, é também mais humana e sensível.

– A foto do Kadão é muito o que ele é. É respeitosa, não é sensacionalista. Ele é um tremendo contador de história, que se preocupa com a pessoa do lado – avalia Hélio Campos Mello, diretor de redação da revista Brasileiros, fotógrafo e publisher.

Outro que acompanha a carreira de Kadão é Pedro Martinelli, um dos fotojornalistas mais prestigiados do país:

– Na Copa de 1982, eu era o editor de fotografia da Veja. E levei não apenas o melhor fotógrafo, mas o melhor jornalista. O Kadão tem a capacidade de buscar detalhes nas entrelinhas das coisas, nas beiradas. É isso o que faz a diferença de um jornal para o outro.

Ao contrário de muitos fotojornalistas, Kadão não tem um trabalho autoral paralelo à carreira. E ele dá um bom motivo para isso:

– Os melhores fotógrafos sempre tinham essa coisa do "Eu faço isso para ganhar dinheiro, mas o meu trabalho autoral é...". Eu queria que o trabalho do dia a dia fosse o mais importante para mim e para todo mundo. O que eu fiz ali é tudo o que eu sei, tudo o que achava importante fazer.


"Brizola, em 1974, no exílio, disse-nos que voltaria. Eu duvidei. Cinco anos depois, estava de volta para ser governador do Rio de Janeiro. Aprendi a duvidar menos e a ouvir mais os mais velhos."

Kadão viaja o mundo

Ricardo Chaves começa a falar e a impressão é a de que cada palavra poderia se desdobrar em outro "causo". Nos intervalos dos "causos", sabedoria acumulada.

– Primeiro, eu achava que fotografava para os leitores. Em momentos de crise, achei que era para os donos de empresas. Quando descobri que era para mim mesmo, foi ótimo – diz o fotógrafo.

Kadão nasceu em 1951, em Porto Alegre. Começou a frequentar a redação de Zero Hora em 1969, para aprender a fotografar carros, e descobriu o fotojornalismo. Como fotógrafo da Veja, cobriu a primeira visita do Papa João Paulo II à Polônia ainda comunista. Na equipe da IstoÉ a partir de 1984, foi à Austrália contar a história do milionário Tião Maia. Em 1988, mudou-se para Brasília a convite da Agência Estado e testemunhou a promulgação da nova constituição e a posse de Collor. Foi aos limites do atlas, acompanhando Sarney à China. Cobriu Copas e corridas de Fórmula 1.

E então, em 1992, retornou à Porto Alegre para ser o editor de fotografia de Zero Hora por duas décadas – permeadas por muitas outras viagens (Vietnã, Cuba, Moçambique, Rússia, Japão). Assinou a coluna Reflexo, sobre fotografia, durante dois anos. Desde setembro de 2011, edita o Almanaque Gaúcho, coluna de memória de ZH. Todos os dias, lá está ele, na redação, vestindo o colete de fotógrafo.

Confira galeria com fotos de Ricardo Chaves e imagens do próprio autor no contexto das reportagens:


A Força do Tempo – Fotografias de Ricardo Chaves

Abertura nesta terça-feira, às 19h. Visitação a partir desta quarta-feira. Às segundas, das 14h às 19h, de terças a sextas, das 10h às 19h, e sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h. Até 1° de junho.
Entrada franca.
Galeria Xico Stockinger do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul
(Casa de Cultura Mario Quintana, Rua dos Andradas, 736, 6º andar), em Porto Alegre, fone (51) 3221-5900.
A exposição: com organização de Carlos Carvalho, a retrospectiva da carreira do fotojornalista Ricardo Chaves apresenta mais de cem fotografias realizadas em 38 coberturas jornalísticas. Um painel exibe um mosaico de retratos de personalidades.
Preste atenção: nos fac-símiles das páginas nas quais as fotografias foram publicadas originalmente, contextualizando cada imagem.

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