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Transexualidade

Famosos ou anônimos: histórias de pessoas que nasceram no corpo errado

O que une a gaúcha Isabelly Rubiane da Silva, 35 anos, e o paulista Thammy Miranda, 33, é o que a Medicina chama de disforia de gênero ou transexualidade

17/10/2015 - 10h15min

Atualizada em: 17/10/2015 - 10h15min


Cristiane Bazilio
Cristiane Bazilio
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Arte de Alexandre Oliveira / sobre fotos de divulgação e de Jonas Ramos

O que uma moradora da periferia de Caxias do Sul pode ter em comum com alguém famoso, cuja mãe foi símbolo sexual e povoou o imaginário masculino por anos? Mais do que se imagina. O que une a gaúcha Isabelly Rubiane da Silva, 35 anos, e o paulista Thammy Miranda, 33, é o que a Medicina chama de disforia de gênero ou transexualidade.

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Ainda na infância, eles perceberam que não se reconheciam nos corpos que tinham, o que causava dor e sofrimento. Era como se calçassem um sapato apertado, que deixa ferida nos pés sem poder tirá-lo, ou como se vestissem uma roupa que os fizesse ter vergonha até de se olhar no espelho, mas sem nunca conseguir despi-la. Isabelly nasceu menino. O filho de Gretchen, menina. Mas nenhum se via assim. Entender e assumir essa condição exigiu anos de repressão e até de agressões.

O Diário Gaúcho mergulha nessas histórias e, para entender de perto esse universo, visita o Programa de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Protig), que presta suporte médico, psicológico, psiquiátrico e prepara pacientes para a etapa final de um longo processo de sincronização entre corpo e alma. É a cirurgia de redesignação de sexo.

Orientação sexual e gênero

De acordo com a psiquiatra Maria Inês Lobato, coordenadora do Protig, é preciso diferenciar orientação sexual de gênero para entender as denominações associadas a essas questões.

Na transexualidade, há a convicção de que nasceu com o sexo oposto ao que acredita pertencer. Existe total inconformidade entre o corpo com o qual nasceu e como se vê (gênero).

Descoberta: a orientação sexual, geralmente, acaba sendo revelada na puberdade, entre 11 e 12 anos. Já o gênero é identificado bem antes, entre os três e os cinco anos de idade.

As diferenças

- HETEROSSEXUAL: sente atração por pessoas de sexo oposto.
- HOMOSSEXUAL: sente atração por pessoas do mesmo sexo.
- BISSEXUAL: sente-se atraído tanto por pessoas do mesmo sexo quanto por outras do sexo oposto.
- TRANSEXUAL: nasce com corpo pertencente a um sexo, mas não se reconhece como tal. Pensa, sente e se enxerga como mulher, mas tem corpo de homem e vice-versa. A transexualidade implica desejo de mudança de sexo, mesmo que ainda não tenha sido feita a cirurgia.

Menina desde criancinha


Isabelly sonha com a sua transformação final. Foto: Jonas Ramos / Agência RBS

Primogênito de dez irmãos, filho de um comerciante e de uma dona de casa, a lembrança mais remota de quando se percebeu menina em um corpo de rapaz beira os oito anos de idade. Isabelly Rubiane da Silva - nome que hoje consta em seus documentos depois de conquistar o direito na Justiça - não gosta nem quer mencionar o seu de nascença. Faz parte de um passado que não tem mais espaço na vida que
ela construiu.

Moradora do Bairro Interlagos, em Caxias do Sul, funcionária da área de produção de um frigorífico, Isabelly exibe cabelos longos, maquiagem discreta e roupas femininas, que acompanham a sua transformação psicológica.

- Eu tinha 15 anos quando comecei a me vestir como mulher, mas as gurias com quem eu andava me botavam roupas horrorosas,  e todo mundo ria de mim. Só mais tarde conheci uma grande amiga, que me ensinou a me vestir e a me cuidar. Hoje, não ando ridícula. Então, as pessoas não me humilham mais - destaca Isabelly, que não abre mão de ir ao salão de beleza e gaba-se do carinho que recebe dos vizinhos.

- Eles me tratam muito bem, com respeito e ainda brincam: "Mas tu tá gostosa, hein?!" - diverte-se.


Salão de beleza é parada obrigatória

Na infância, ela adorava as brincadeiras de menina:

- Simulava casamentos entre bonecas e sempre me vi como a noiva. Os meus pais desconfiavam, mas não queriam aceitar. Por isso, fingiam que não viam.

Revelação traumática

Isabelly, que estudou até o primeiro ano do Ensino Médio, trocou de escola na terceira série por conta do bullying. Os pais, frequentemente chamados para "dar um jeito" no menino que se portava como menina, faziam vista grossa. Mas a verdade logo veio à tona.

- Eu tinha 13 anos e um namoradinho de 16. Meu irmão nos viu no açude e levou a mãe até lá. Ela me surrou, me jogou no chão, pisou no meu pescoço... Gritava que não merecia um filho assim. Meu pai nunca me bateu, mas não me aceitava. Nem meus irmãos - conta.

Aos 15 anos, Isabelly saiu de casa e foi morar com a avó paterna. Mas, pouco depois, a idosa faleceu, e ela foi parar em um abrigo para menores infratores, onde só havia meninos.

Lá, ficou até os seus 18. E, do abrigo, saiu para viver com uma tia, que nunca aceitou a sua sexualidade.

Jogo aberto no amor


Pela internet, namorado francês

Isabelly, que mora sozinha, teve dois relacionamentos longos. O primeiro durou quatro anos, e o segundo, seis. Hoje, namora pela internet um francês, que deve vir ao Brasil em dezembro, para o primeiro encontro. Ele sabe e aceita a sua transexualidade:

- Sempre contei a verdade de cara. Se me quiser, é desse jeito. Não é fácil. Eu fico aflita, não pelo medo da rejeição, mas pelo sofrimento que eu posso causar.

Perdão e reconciliação

A mãe de Isabelly morreu em 2010. Na época, as duas já haviam se reconciliado.

- Tivemos um encontro muito bonito, em um Natal, e nos perdoamos. Não posso dizer que a minha vida foi ruim. Passei por coisas que precisava, mas tenho saúde. Nunca me droguei, não sofri nenhum abuso, nunca me perdi na vida. É uma vitória - declara, resignada.

Com o pai, a reaproximação foi recente: em meados de junho, três meses depois que ela ingressou no programa do Hospital de Clínicas.

- Ele era da roça, dizia que aquilo era sem-vergonhice minha. Eu não queria envergonhar o meu pai. Por isso, me mantive distante por todos esses anos. Mas eu o amo e preciso dele nesse momento. Ele chorou quando soube da cirurgia, e eu consigo sentir a dor dele - se compadece.

Com os irmãos, apesar do pouco contato, garante que a relação, hoje, é de cordialidade.

- Tem muita morbidade psiquiátrica ligada a essa condição social: rejeição, agressão, repressão... A culpa que sente a faz incorporar essa reprovação externa. Ela acha que está errada, que está fazendo os outros sofrerem. É muito difícil, a pessoa passa por muita tristeza até chegar aqui - observa a psiquiatra do Protig, Maria Inês Lobato.

Apoio familiar

A especialista afirma que a participação da família é fundamental no programa.

- A gente orienta explicando que isso não é uma opção, não é culpa de ninguém. É uma condição com a qual se nasce, como qualquer outra característica de comportamento. É preciso apoiar e educar, sabendo que isso está além da vontade do filho - alerta.

"Quero tirar isso que me incomoda"

No ano passado, Isabelly conquistou, na Justiça, o direito de trocar o nome nos seus documentos. A vitória foi o fim de um tormento:

- É tão chato chegar em um lugar e te chamarem pelo nome de um homem, enquanto tu está vestido de mulher. Tu te sente envergonhada. Abala muito.

O corpo de Isabelly começa a dar sinais de mudanças, graças aos hormônios tomados há cerca de um mês.

Qualidade de vida

Mas ela quer mais. Se for considerada apta, passará pela cirurgia que vai remover o pênis e construir a vagina.

- Usar uma calcinha, um biquíni ou uma legging machuca, sem falar em ter um órgão que nunca quis. Quero tirar isso que me incomoda - assegura ela, confiante de que vai concretizar o seu sonho. 

Para a psiquiatra Maria Inês, mulher com um pênis ou homem com seios são vistos como anomalias:

- É isso que eles sentem. A retirada de algo que tu não entende como parte de ti melhora a qualidade de vida, das relações, porque abre espaço para outros pensamentos e objetivos.

Dissociação

Para a Medicina, existe uma teoria ainda não comprovada de que alterações hormonais durante a gravidez podem influenciar o comportamento futuro da criança.

- A genitália se forma até os quatro meses de gestação, mas a formação do cérebro acontece mais tarde. Por isso, pode ocorrer uma dissociação entre os dois - explica a psiquiatra do Protig.

Porto Alegre como referência

O Protig é referência no Brasil em acompanhamento a transexuais, incluindo a realização de cirurgia para redesignação de sexo.

Para inscrever-se: agende uma consulta nos postos da rede pública ou na secretaria de saúde do município. Moradores de outros Estados devem procurar a secretaria estadual de saúde.

Preparação e cirurgia

- São feitas entrevistas individuais, familiares e avaliações com equipe multidisciplinar antes de entrar em atendimento.
- Encontros em grupos permitem compartilhar as experiências.
- O tempo mínimo de acompanhamento é de dois anos. Se aprovado, o paciente entra em lista de espera para a cirurgia, feita a partir dos 21 anos.
- Consiste na retirada do pênis, na construção da vagina e na colocação de próteses mamárias. Ou na retirada das mamas, do útero e dos ovários. Não são mais feitos implantes de pênis. O resultado ficou aquém do esperado.

Fila de espera

- São realizados dois procedimentos mensais. Há agendamentos até o final de 2016 e cerca de 100 pacientes em acompanhamento hormonal para operar.

Filho de símbolo sexual

Olhos verdes, boca carnuda, seios fartos e a herança genética da eterna Rainha do Bumbum. A beleza com que a maioria das mulheres sonha era, para Thammy Miranda, um fardo que escondia como ela, realmente, se sentia: um homem. Depois de rebolar nos palcos ao lado de Gretchen e ser apontada como a sua sucessora, ele virou sua vida do avesso ao se assumir transexual. Os atributos que povoaram a fantasia de muitos homens, aos poucos, deram lugar a um corpo masculinizado, que culminou com a retirada dos seios, neste ano.



Conscientização

Sua história de vida, assim como a de Isabelly, é permeada por episódios de preconceito, exclusão e violência. Inclui-se aí a mãe, que demorou a aceitar sua condição. Em sua biografia, Nadando Contra a Corrente (editora Best Seller, preço médio de R$ 23) Thammy conta sobre a infância entre brinquedos de meninos, a falta de desejo por homens na adolescência, o namoro de dois anos com Andressa Ferreira e a difícil relação com Gretchen, quando revelou a sua sexualidade. Feliz com o sucesso do livro, ela diz que deseja ajudar quem vive o mesmo drama e conscientizar sobre questões da sexualidade.

Em entrevista, por telefone, Thammy conta que não pretende implantar um pênis nem mudar de nome. E se diz feliz, completamente realizado.

Diário Gaúcho - Como está a repercussão do seu livro?
Thammy Miranda -
Muito legal! Tem todo tipo de pessoa curtindo: famílias, crianças, evangélicos... Muitos heterossexuais compram e se mostram solidários.

Diário - Como você lida com a agressividade de algumas pessoas nas redes sociais?
Thammy -
Só acontece isso na internet, que virou terra de ninguém. Mas essas pessoas são mal-amadas, amargas. Isso não tem a ver com a questão da minha transexualidade, e, sim com elas mesmas. Eu sou muito feliz e de bem com a vida. Uso o bom humor para rebater a grosseria. Cada um dá aquilo que tem de melhor.

Diário - De qual episódio do livro foi mais difícil de lembrar?
Thammy -
Não foi difícil escrever o livro, foi bem tranquilo, porque são coisas que eu já resolvi. Mas a história com a minha mãe, talvez, seja a parte mais triste, por essa questão de ela não me aceitar no começo.

Diário - Apesar de bem-resolvido, o que ainda o fere?
Thammy -
Só me incomodo quando maltratam as pessoas que eu amo, quando falam besteira para Andressa ou para a minha mãe. Eu sou muito feliz. Nada, além disso, me magoa ou me ofende.

Diário - Pretende trocar o nome nos documentos?
Thammy -
Não.

Diário - Você retirou os seios, mas não pretende fazer o implante de pênis. Por quê?
Thammy -
Essa cirurgia é experimental. O resultado não é confirmado em relação a muitas questões, como o prazer. E eu sou muito feliz como sou. Não perderia o meu prazer por nada. 



Diário - Como foi um pouco antes de retirar os seios?
Thammy -
Meu nervoso era só pela cirurgia e pelas questões práticas de passar por uma operação, não por perder o peito. Fiquei bastante nervoso na noite anterior, mas, quando estou nervoso, me recolho.

Diário - Que recado manda para quem se identifica com você?
Thammy -
O principal é ter certeza do que quer. Se sentir necessidade de acompanhamento psicológico, procure ajuda. Isso conforta. Quando estiver certo, vá atrás da sua felicidade. A vida é uma só para viver preso e infeliz.


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