Projeto prevê arranha-céu de 256 metros para o Quarto Distrito - Diário Gaúcho

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Porto Alegre25/11/2015 | 17h41

Projeto prevê arranha-céu de 256 metros para o Quarto Distrito

Arquiteto apresentou projeto acadêmico com torre de 256 metros à Secretaria de Urbanismo na semana passada

Projeto prevê arranha-céu de 256 metros para o Quarto Distrito  Repdorução/Reprodução
Edificação ficaria no quarteirão entre as ruas Garibaldi, Ernesto Alves, Voluntários da Pátria e a Avenida Farrapos Foto: Repdorução / Reprodução

Parada no tempo há mais de três décadas após a debandada das fábricas que exploraram a região, a área do Quarto Distrito, que compreende os bairros Floresta, Navegantes, São Geraldo, Humaitá e Farrapos, em Porto Alegre, poderá ostentar um dos símbolos arquitetônicos mais usados em cenários futurísticos da ficção: um arranha-céu de mais de 200 metros de altura.

Apresentado à Secretaria Municipal de Urbanismo na semana passada, o projeto de conclusão de curso do arquiteto Luis Henrique Bueno Villanova sequer teria condições de sair no papel na atual conjuntura: o plano diretor da Capital estipula um limite de 52 metros de altura para as edificações. Mas a ideia de uma torre no quarteirão ladeado pelas ruas Voluntários da Pátria, Garibaldi, Ernesto Alves e pela Avenida Farrapos foi vista com bons olhos pelo secretário de Urbanismo, Valter Nagelstein.

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Na sexta-feira passada, durante a apresentação do projeto de Villanova à prefeitura, Nagelstein postou duas imagens em seu perfil no Instagram, acompanhadas de comentários como "Que tal um prédio de 260 mts no Quarto Distrito?" e "Quem disse que não pode torre em orla?". O projeto arquitetônico, segundo a Smurb, seria encaminhado aos grupos que discutem a área — a prefeitura tem pelo menos dois grupos de trabalho cuja pauta é a revitalização do Quarto Distrito.

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O projeto prevê um modelo de arranha-céu sustentável, com placas de energia solar, parques verticais e uma área permeável (que recebe água da chuva) de cerca de 40% (o exigido pelo plano diretor atual é de 20%). Ele também não ficaria na orla, como citou o titular da Smurb, mas no interior do bairro Floresta. Para o arquiteto de 28 anos, essa é uma oportunidade de rediscutir o plano diretor de Porto Alegre e mostrar às pessoas que é possível um ícone de megalópoles estar em harmonia com o meio ambiente.

— Pensei em um conceito de edifício que contrapusesse o plano diretor atual. Apresentei o projeto em vários lugares, e o secretário me convidou para exibi-lo à equipe dele, para mostrar que não é um terror ter um arranha-céu na cidade — diz Villanova.

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O plano diretor do município serviu de ponto de partida para a criação do arranha-céu. Segundo Villanova, primeiro, foram criados, para a mesma quadra, prédios que respeitassem as diretrizes atuais, o que resultou em 12 edificações com alturas distintas. Depois disso, o arquiteto utilizou esses volumes para projetar um único edifício para a mesma área.

O resultado foi uma edificação de 256 metros de altura (mais que o dobro dos prédios mais altos da Capital, que têm cerca de 100 metros). Em vez de um bloco único, no entanto, a construção seria "vazada", com andares intermediários onde ficaria retida água para reutilização. Ele foi projetado para uso misto: além de apartamentos residenciais, prevê um hotel e uma área de uso comercial.

Prédios acima do limite permitido pelo plano diretor, porém, já geraram polêmica em outros pontos da cidade — e seguem provocando conflitos, como no caso da revitalização do Cais Mauá, que prevê torres comerciais de 100 metros na orla do Guaíba. Além disso, o debate sobre o arranha-céu promete levantar questões relacionadas ao uso do espaço urbano, que, nos últimos anos, tem marcado a discussão sobre outros projetos arquitetônicos previstos para a Capital.

Conforme o secretário de Governança, César Buzatto, que participa de um dos grupos de trabalho que planejam a revitalização do Quarto Distrito, um projeto como o do arranha-céu sustentável pode ser bem-vindo, mas só deve ser implantado se for aprovado pela comunidade.

— Estamos tentando construir os próximos passos com o maior consenso possível. Se (o projeto) for muito polêmico, não vai acontecer — diz.

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Entusiasta do arranha-céu, o titular do Urbanismo, Valter Nagelstein, foi procurado pela reportagem em pelo menos quatro oportunidades para comentar o assunto, sem sucesso. Na última tentativa, nesta quarta-feira, a assessoria de imprensa da secretaria informou que ele viajou ao México a trabalho e deve retornar à Capital apenas no fim da semana.

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Convidados por ZH para apreciar o projeto apresentado à Secretaria de Urbanismo, especialistas convergiram em dois pontos: os três consideraram o arranha-céu sustentável competente tecnicamente como projeto acadêmico, mas acreditam que, antes de tudo, ele deve gerar reflexão para a cidade.

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Professor da faculdade de arquitetura Mackenzie, em São Paulo, Valter Caldana observa que um arranha-céu tem vantagens arquitetônicas e não necessariamente estraga a paisagem, pelo contrário: pode criar uma composição agradável com o entorno, como marco arquitetônico excepcional. O problema, segundo o arquiteto, é que não há garantias de que, com o tempo, o solo liberado pela construção de uma torre não seja ocupado com outras.

— Em São Paulo, temos um ditado que diz: onde passa um boi, passa uma boiada. Em geral, as pessoas são contra (arranha-céus) porque depois de um, você não sabe o que vem. É uma preocupação pertinente, porque nossa legislação é frágil e faz as exceções virarem regra — pondera.

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Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), Tiago Holzmann da Silva acredita que a discussão sobre a cidade deve se sobrepor ao objeto edificado, provocando uma reflexão sobre o contexto em que o prédio estaria inserido. No seu entendimento, o conceito de sustentabilidade nas cidades não se constrói com arranha-céus:

— Toda a teoria da cidade contemporânea indica para altas densidades (muita gente e muitas unidades), mas em baixas alturas (até oito pavimentos), criando uma cidade compacta, estimulando a vida de bairro, oportunizando insolação e ventilação à maior parte das edificações, permitindo uma relação visual com a rua (que gera segurança), reduzindo o consumo de energia, etc. O edifício em grandes alturas pode ser uma boa solução eventual, mas entendo que não é o caso.

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Para o vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-RS), Joaquim Haas, o projeto é uma "provocação" para que se pense a "Porto Alegre do futuro". Ele considera positiva uma possível revisão do plano diretor atual, com base em estudos, mas destaca a importância de preservar a harmonia no ambiente urbano.

— A proposta dele é importante, contemporânea, inovadora, mas está fora da realidade de Porto Alegre. Esses conceitos de arquitetura são importantes, e o Quarto Distrito é uma boa oportunidade (para aplicá-los), mas não é simplesmente derrubar tudo e erguer prédios. É uma excelente oportunidade para discutir e se criar novas alternativas, desde que tenha estudo, e não fique perdido, agredindo a região.

 
 
 
 
 
 
 
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