"Não pude fazer mais nada", conta sobrinho de mulher morta pelo ex-marido - Diário Gaúcho

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Feminicídio no Vale do Caí09/10/2018 | 17h21Atualizada em 09/10/2018 | 17h25

"Não pude fazer mais nada", conta sobrinho de mulher morta pelo ex-marido

Segundo familiares, há um mês Rosane Aires de Oliveira, 33 anos, era ameaçada, mas não procurou a polícia

Leticia Mendes
"Não pude fazer mais nada", conta sobrinho de mulher morta pelo ex-marido Arquivo pessoal/Reprodução
Natural do Paraná, Rosane se mudou com a família para o Rio Grande do Sul há dois anos Foto: Arquivo pessoal / Reprodução

Há dois anos, Rosane Aires de Oliveira, 33 anos, deixou Diamante do Sul, no oeste do Paraná, com a família. Percorreu 760 quilômetros até a pacata Tupandi, no Vale do Caí. A paranaense esperava conseguir emprego e dar um futuro melhor para os dois filhos. Sonhos que foram dilacerados a golpes de facão na madrugada desta segunda-feira (8), quando Rosane foi morta. O ex-marido, Sidnei Francisco dos Santos, 42 anos, principal suspeito do crime, tentou cometer suicídio e foi hospitalizado.

— Maicon corre! Meu pai matando a minha mãe — gritava em desespero o adolescente, de 15 anos.

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O garoto acreditava que o primo podia conter o pai e salvar a vida de Rosane. Já era tarde. Quando o rapaz chegou em frente à residência, a tia estava caída no meio da rua, a poucos metros dali. O jovem saltou sobre o tio.

— Derrubei ele e tirei o facão. Não pude fazer mais nada. Ela morreu nos meus braços — recorda Maicon Oliveira Araújo, 19 anos.

Rosane e Sidnei estavam juntos há mais de uma década. Além do filho adolescente, fruto de relacionamento anterior da mulher, tiveram um menino, de 10 anos. Antes de sair de casa para o trabalho, a mulher beijava os dois filhos. Nesta madrugada, pouco tempo depois de a mãe fechar a porta, os garotos ouviram os gritos do lado de fora. A mulher tentava escapar do ex-marido. Correram até a rua e deparam com o pai atacando a mãe com um facão. Sidnei havia saído de casa há um mês, mas segundo os familiares, não aceitava a separação.

— Mandava mensagens, dizia que ia matar ela. Ela não acreditava que ele ia fazer mesmo. Sempre foi bom para os dois filhos — relata o sobrinho.

Segundo a delegada Cleusa Spinato, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) do Vale do Caí, não havia registro de violência doméstica do casal. Nenhum dos dois tinha antecedentes.

— É uma lástima. É o clássico feminicídio, que acontece logo após a separação, um período crítico. Por subestimar o risco ou por medo, a mulher não busca proteção que a lei poderia dar — afirma.

A policial orienta mulheres vítimas de violência doméstica a denunciarem para evitar desfecho mais grave.

— Elas acreditam que nunca vai acontecer e o resultado são essas tragédias. Se ele demonstra sinais de violência, de agressividade, não se pode ter dúvida. Nunca começa no femincídio. Inicia-se com outras formas de violência, até culminar na morte da mulher — orienta.

Mulher estava caminho do trabalho

Quando se mudou para o Rio Grande do Sul, Rosane estava desempregada. Escolheu o município onde já vivia uma irmã para tentar vida nova. Há cerca de um ano, conseguiu emprego em um fábrica de móveis. O marido trabalhava em uma granja de suínos.

Todos os dias, a mulher saía de casa ainda na madrugada para pegar carona com uma colega no mesmo bairro. O crime aconteceu neste trajeto. Para a polícia, Sidnei aproveitou-se do momento em que a mulher estava indefesa para cometer o crime. Familiares encontraram uma camisa dele e a bainha do facão perto da casa da vítima.

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A polícia não conseguiu precisar quantos golpes atingiram o corpo de Rosane, algo que deve ser indicado pela necropsia. O homem está hospitalizado em estado gravíssimo. Os policiais monitoram a evolução do quadro de saúde suspeito para definir sobre eventual pedido de prisão. O corpo de Rosane será transportado para o Paraná, onde vivem seus familiares. Os filhos dela também serão levados de volta para o Estado.

— Neste caso, ainda há dois filhos vitimados por toda essa violência. Perderam a mãe, o pai corre risco e, se sobreviver, deve ser preso por conta dessa atrocidade —  lamenta  a delegada Cleusa.

 
 
 
 
 
 
 
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