Escolas municipais têm falta de 150 professores e alunos da Restinga têm aula só três vezes por semana - Diário Gaúcho

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Educação11/04/2019 | 06h01Atualizada em 11/04/2019 | 07h48

Escolas municipais têm falta de 150 professores e alunos da Restinga têm aula só três vezes por semana

Na Escola Carlos Pessoa de Brum, ano letivo começou com oito profissionais a menos que o necessário 

Escolas municipais têm falta de 150 professores e alunos da Restinga têm aula só três vezes por semana Jeniffer Gularte/Agência RBS
Alunos da turma B22 têm aulas apenas nas terças, quartas e quintas Foto: Jeniffer Gularte / Agência RBS

Após o recreio da manhã de terça-feira, a vice-diretora Adriana Braga pediu licença para entrar na turma B22, o 5º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Vereador Carlos Pessoa de Brum. Quando apresentou à turma a chegada da reportagem, que acompanharia um pedaço da aula, um dos alunos comentou, desanimado:

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– Ah, achei que fosse nossa nova professora. 

O desalento de Christoffer Davi Dutra Lopes, 10 anos, não é à toa. Aluno do 5º ano, o garoto só tem aulas três vezes por semana – o mesmo ocorre com outra turma da mesma série. Nas sextas e terças, a B22 não tem aulas por falta de professor. A escola da Restinga, no Extremo-Sul de Porto Alegre, começou o ano com oito profissionais a menos do que o necessário. Para não deixar mais turmas sem atendimento, a direção fechou o laboratório de aprendizagem, que serve de reforço no contraturno. Mais um serviço que deixa de ser prestado. 

Escola VereadorCarlos Pessoa de Brum começa ano letivo com falta de 9 professores. Alunos do 5º ano tem aulas só três vezes por semana. Christoffer Davi Dutra Lopes, 10 anos, aluno da turma do 5º ano.
Christoffer está à espera de um professorFoto: Jeniffer Gularte / Agência RBS

Déficit

O problema não é exclusivo da Carlos Pessoa de Brum. A Secretaria Municipal de Educação (Smed) confirma que pelo menos 150 professores estão em falta nos educandários da Capital. Segundo a Smed, o déficit se acentuou por motivos de aposentadoria, exoneração e falecimento de servidores. 

No ano passado, a Escola Pessoa de Brum enfrentava situação mais grave. Chegou à metade do ano letivo sem 19 professores, com alunos sem aulas de português e matemática até outubro. O ano letivo de 2019, que começou em 27 de março, já deu a largada com percalços semelhantes. 

– No primeiro dia de aula, foi uma tristeza ver a carinha dos alunos quando comunicamos que eles não teriam professores – lembra a supervisora da escola Juliana Sicco. 

Escola VereadorCarlos Pessoa de Brum começa ano letivo com falta de 9 professores. Alunos do 5º ano tem aulas só três vezes por semana.Laboratório de aprendizagem fechado desde ano passado por falta de professores.
Laboratório de aprendizagem fechado por falta de professorFoto: Jeniffer Gularte / Agência RBS

Dentro da sala de aula, a turma demonstra desânimo por não ter um professor de referência. Questionados sobre o que fazem nos dois dias que não têm aula, os pequenos admitem:

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– Eu até tento estudar em casa, mas acabo vendo TV porque não consigo me concentrar – diz Christoffer, que teme o fechamento da turma se um professor fixo demorar muito a chegar. 

– Quem não gostaria de ter um professor só pra sua turma, né? – questionou Kaiany Britto da Silva, 10 anos, como quem diz algo evidente. 

– Em casa pratico a tabuada, mas é na escola mesmo que tenho vontade de estudar – afirma a menina. 

"Lugar de criança é na escola" 

A direção afirma que a falta de docentes foi apresentada para a Smed em um encontro em 26 fevereiro. Para não deixar uma turma completamente desassistida, a escola apresentou aos pais a possibilidade das duas turmas do 5º ano terem aulas três vezes na semana. A medida afeta 60 alunos:

– Com certeza ainda assim há um prejuízo, porque as crianças não criam vínculo com a profe e não cumprem toda a carga horária devida, que terá de ser recuperada – avalia a supervisora Juliana Sicco.

Na avaliação da vice-diretora, a situação da escola é uma falta de consideração com os alunos, pelo segundo ano consecutivo. Ela também reclama de professores que pedem transferência para a escola e não conseguem autorização da Smed. 

– Lugar de criança é na escola e não na rua. Estamos tentando resolver um problema com o pouco que temos – resume Adriana Braga.

Soluções em marcha lenta

Ao mesmo tempo em que apresenta falta de 150 professores em sala de aula, a Smed dispõe de um concurso público no qual os 137 aprovados para Séries Iniciais _ e outros 121 para Educação Infantil – estão aptos a serem nomeados. A secretaria, contundo, não deu mais detalhes ao questionamento da reportagem sobre o motivo da demora para chamar os profissionais. Apenas resumiu que as nomeações ocorrem de "acordo com fluxo entre as secretarias da Educação e a Secretária Municipal de Planejamento e Gestão". 

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Até agora apenas quatro professores de séries iniciais (1º ao 5º ano) foram chamados para trabalhar. O concurso foi feito em 23 setembro do ano passado e chegou a ser suspenso por falta de recursos. A homologação do processo foi publicada em 11 de março deste ano. Embora exista necessidade, não há previsão de concurso para as séries finais (6º ao 9º ano).

Outro processo seletivo que também poderia suprir a falta de profissionais nas escolas anda a passos lentos. Em 24 de janeiro, a Câmara de Vereadores autorizou a contratação emergencial de até 240 profissionais pelo prazo de um ano, podendo prorrogar por mais um. A Smed informa que o processo está em fase de desempate entre candidatos e que os professores "começarão a ser chamados logo após a fase final" da seleção, sem precisar quando. 

 
 
 
 
 
 
 
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