Polícia



Caminhos possíveis

Meninas da Fase: "Eu trocaria tudo por uma casa", afirma jovem

O Diário Gaúcho encerra hoje a série de reportagens contando três histórias com finais diferentes

01/06/2012 - 06h43min

Atualizada em: 01/06/2012 - 06h43min


Centro de Atendimento Socio Educativo Feminino abriga meninas menores infratoras

Passa o tempo e chega ao fim a reclusão das meninas na Fase. O desafio é voltar ao lar e viver dentro da lei. As que recaem tendem à voltar para a clausura. Ou morrem. Na linguagem delas, são os "três Cs": casa, cadeia ou cemitério.

Um horizonte que brilha

De cabeça erguida e olhar confiante, J., 17 anos, abre a porta da casa: sente orgulho de contar sua história. Enquanto embala o uniforme do trabalho, atende a mãe ao telefone e se despede das irmãs caçulas. De início, fala pouco e economiza nos detalhes.

Mas ao colocar o pé fora de casa, entrega: queria poupar as irmãs das más recordações. Com vida nova, só topa falar para provar que é possível trilhar o caminho longe dos delitos, mesmo que eles já tenham a tentado mais de uma vez.

Por um ano inteiro, J. viveu no sistema fechado do Casef. Apreendida por tráfico de drogas, não tinha chance nem de levar o lixo na lixeira do pátio.

Assim que teve a primeira oportunidade, abraçou. Foi estagiária da presidência da Fase e, quando convidada a participar do programa de acolhimento ao final da medida, disse sim.

Mudança de endereço ajudou

Fez curso de secretariado, trabalhou em uma metalúrgica, em um hipermercado e, agora, conquistou um salário melhor numa grande lanchonete da Capital. É prova viva da persistência.

E ela tem um diferencial: quando acabou sua medida, a família mudou de endereço. A mudança trouxe novos ares. Mesmo que velhos amigos a procurassem, J. conseguiu dizer não. Segue fiel ao novo estilo de vida que escolheu: longe das drogas, distante dos delitos.

- Aceitei entrar para o programa para continuar o acompanhamento. Se não tivesse isso, não sei para que lado eu teria seguido - admite a fã de Luan Santana.

Uma de suas ex-companheiras do tráfico não conseguiu. Acabou assassinada no mês passado.

Um sol que nasce quadrado

Por três oportunidades, Rosângela Gonçalves Rodrigues, 20 anos, esteve reclusa no Casef. Não teve a quarta vez porque estourou o limite etário. Maior de idade, teve um outro destino: a Penitenciária Madre Pelletier, para onde vão as mulheres que cometem crimes.

Da última vez que saiu da Fase, escolheu a opção errada ao deparar com o dilema dos "três Cs". Por dois anos lutou para seguir o primeiro caminho, o da casa, mas algo saiu errado.

Ainda dentro do Casef, ela tinha decidido não voltar para as drogas. Traficar era um verbo que ela só queria conjugar no passado, mas não teve estrutura para aguentar quando viu a mãe adotiva ser presa, a biológica morrer e a casa ser retirada da família.

Um relato sobre a tentação

Rosângela não tinha para onde ir. E as tentações a cercaram. Cada dia com uma oferta diferente.

- Fui comprar minha pedra e fui pega - conta a garota, argumentando que tinha dez pedras de crack para consumo, mas caiu por tráfico.

Mesmo dentro de uma cadeia de verdade, Rosângela pode dizer que está com sorte: a espera de um bebê, caiu na ala das grávidas. E o agradecimento estará no nome da menina: Vitória. Mas também poderia chamar Esperança.

- O Casef é muito bom. Há trabalho e saímos de lá com um dinheiro bom. O problema é não saber o que fazer da vida. Começa a voltar tudo. Os convites voltam, o patrão (do tráfico) oferece mais dinheiro, mesmo vendo que a pessoa está tentando sair fora. Tem que ser muito, muito forte.

E, por fim, resume seu desejo:

- Eu trocaria tudo por uma casa.

Uma tragédia anunciada

A gaveta 536 do Cemitério Vila Nova, em Porto Alegre, não revela nome, muito menos história. Mas se pudesse contar, abriria um livro de uma bem triste. Lá foi enterrada Karen da Rosa Bezerra, 17 anos, assassinada em 9 de abril, no Bairro Restinga.

A garota, que fugiu do Casef na primeira oportunidade que teve, encontrou a morte duas semanas depois. Ficou em meio à guerra do tráfico.

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- Nós tentamos fazer tudo por ela. E, de repente, ela morreu. Ninguém esperava - disse a irmã Carina da Rosa, 25 anos.

Parente fala do rumo sem volta

Durante o período em que a menina ficou ausente, a direção do Casef rezou pelo seu retorno. Hoje, a mãe dela chora em silêncio. Poucos sabem o que, de fato, levou sua menina.

Para Carina, ficou uma lição:

- A morte é certa, mas a gente espera que ela seja natural. Só que ela (Karen) estava nessa trilha. A droga leva a dois ou três caminhos. A morte é o único sem volta.


E Karen não é caso isolado de adolescente assassinada em função do envolvimento com entorpecentes. Somente no mês passado, ela foi a terceira jovem a ter esse fim no mesmo bairro da Capital.

O DESAFIO DE VOLTAR PARA CASA

Dentro do Casef, única unidade feminina da Fase no Estado, um novo mundo se apresenta às meninas. E quando chega ao fim? Como é o voltar para casa?

- Enquanto a gente está aqui, está bem. O difícil é lá fora - já sabe F., 18 anos.

Ela e as outras 29 gurias aprenderam que o caminho certo é o da lei, de um emprego formal, ainda que em troca de salário mínimo. A tentação da grana fácil do tráfico é o desafio a vencer.

- A gente propicia valores de como lidar com pessoas. É preciso amadurecimento e o delas vem através da mudança de raciocínio - define a coordenadora da semiliberdade, Patrícia Dornelles.

Hoje, dentro da casa, M., 18 anos, fala em dar exemplo:

- Não vou mais me envolver no tráfico. Vou colocar em prática o que eu tô fazendo aqui. Estava lá fora e podia fazer de tudo, mas acabei fazendo as coisas erradas. Aqui dentro aprendi o que é certo e o que é errado.

Sem os direitos fundamentais

Muitas meninas não conheceram o pai. E está presente em quase todos os relatos o descaso da mãe. As internas contam que faltou carinho, faltou amor.

- Não podemos esquecer que essa adolescência foi privada de todos os seus direitos. Alguns fundamentais como ter pai, mãe, escola, comemorar um aniversário - sublinha a presidente da Fase, Joelza Mesquita.

Diretor de investigações do Denarc, o delegado Heliomar Franco reforça: elas estão em situação vulnerável, em um ambiente já infestado pela drogadição:

- A repressão policial tem elevado a prisão de namorados e familiares, e elas assumem responsabilidades deles. E aí cometem as mesmas atitudes deles. Por questão de sobrevivência, dão continuidade aos negócios.

DIFERENÇAS ENTRE OS SEXOS

Parece estar nas ruas a explicação para a diferença gritante entre o número de meninos e meninas internadas na Fase. Elas são só 3% de um universo de 926. A presidente da Fase, Joelza Mesquita, convida a olhar para uma questão cultural:

- O menino sai de casa muito cedo. Com sete anos, estão na rua jogando bola. Salvo raras exceções, as meninas não. Estão em casa brincando de boneca.

Há meninas que se consideram sortudas por terem caído na Fase. Para a presidente, é sinal de amadurecimento. A., 20 anos, internada por ter ajudado o namorado a cometer um homicídio, faz uma reflexão, arrependida:

- Foi uma lição de vida. Hoje, sei o que é perder um filho. Vou ficar aqui três anos e, quando sair, vou ver a minha filha em casa. Mas aquela mãe não vai mais ver o filho (que A. ajudou a matar).

MENINAS que reingressam: 2009: 22,7% 2010: 20% 2011: 23,2% Incluindo os MENINOS: 2009: 36% 2010: 35,3% 2011: 37,9% QUARTA Meninas do tráfico ONTEM A rotina da casa HOJE Três destinos possíveis


 


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