Matança na Grande Porto Alegre é maior que a do PCC em São Paulo - Polícia

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2,5 vezes maior27/11/2012 | 07h36

Matança na Grande Porto Alegre é maior que a do PCC em São Paulo

Índice de mortes a cada 100 mil habitantes determina comparação

Matança na Grande Porto Alegre é maior que a do PCC em São Paulo Marcelo Oliveira/Agencia RBS
Medo domina no Recanto do Sabiá após corpos serem encontrados em matagal Foto: Marcelo Oliveira / Agencia RBS

A sequência de assassinatos e atentados em São Paulo ganhou destaque nacional. A ação do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção que controla os presídios paulistas, escancarou a criminalidade que coloca policiais e bandidos em constante duelo. E a Grande Porto Alegre, incluindo Vale do Sinos? Mesmo sem PCC, a violência, proporcionalmente, é 2,5 vezes maior do que na capital paulista. A diferença nunca esteve tão grande na comparação com a maior metrópole brasileira. Ou seja, a guerra aqui não tem atentados, mas uma constância alarmante: média de um homicídio a cada oito horas em 2012. A comparação vem do índice de mortes por grupos de 100 mil habitantes. Em São Paulo, a média é de 11, contra 27 da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Explicações de lado a lado

Em São Paulo, as autoridades têm três teses para explicar o aumento das mortes: retaliação por assassinatos ou prisões de criminosos ligados ao PCC, traficantes buscando ampliar seus negócios ou, ainda, policiais tentando revidar a morte de colegas - foram mais de 90 PMs mortos em 2012.

Na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde o PCC não atua, a situação não parece ser ruim como em São Paulo. É um engano. Especialistas acreditam que o elevado número de mortes na Capital gaúcha é explicado pela existência de diversas quadrilhas, cada uma dominando pontos diferentes. A disputa entre esses bandos é que provoca a mortandade em conta-gotas, diferente das chacinas paulistas, que causam impacto maior e sensação de insegurança.

Secretário dá sua versão

Sobre o menor morticínio em São Paulo, o secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, Airton Michels, tem uma avaliação polêmica.

- O que está acontecendo em São Paulo é que, em tese, houve um domínio do PCC. O PCC resolveu, para ter o controle das cadeias de São Paulo, diminuir o número de homicídios, não matar mais tantos seus desafetos e ficar apenas nos negócios - disse, em entrevista ao Diário, na semana passada.

E Michels explica o porquê de a situação aqui ser diferente:

- Não temos isso aqui e nunca teremos. Nunca vamos permitir uma determinada tendência, que uma facção domine o sistema prisional.

No berço dos Bala, medo constante

No Bairro Bom Jesus, a guerra entre as quadrilhas Banha e Bala na Cara tem feito com que moradores da Vila Pinto não cheguem com tranqulidade até a Vila Divineia.

- Já perdi várias crianças que vinham aqui e que agora não podem mais atravessar de lá para cá - contou uma moradora da Divineia que faz trabalho comunitário com estudantes.

O medo tem fundamento em dois fatos. O primeiro é a volta dos tiroteios à noite. O segundo, a vingança dos traficantes. Há um mês, um dos líderes do movimento hip hop, Antônio Carlos Vasconcelos, o Nego Caio, 47 anos, foi morto a tiros no Campo da Panamá, na Vila Mato Sampaio, que fica entre as duas comunidades. O crime teria sido cometido por vingança.

Morto por vingança

Dono de um bar na Rua A, reduto dominado pelos Bala na Cara, ele teria expulsado do local Cleisson Willian da Silva Ferreira, 18 anos, que tentava se refugiar de inimigos, na noite de 21 de outubro. O jovem foi morto horas depois, a tiros, na Rua Santa Isabel. Nego Caio teria sido morto por retaliação.

Os Bala na Cara, quadrilha de traficantes que nasceu no bairro, é considerada a maior facção em atuação nas cadeias gaúchas.

Pelos dados da planilha do Diário Gaúcho, ao menos sete em cada dez assassinatos estão ligados ao tráfico. São esses homicídios, fruto das disputas pelo controle de bocas de fumo, que deixam o número de mortes da Região Metropolitana em situação ainda mais alarmante que os da cidade de São Paulo.

De onde vem o índice?

O índice de mortes a cada 100 mil habitantes é um padrão usado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Acima de 10, a média já é considerada uma epidemia.

Governo comemora números

Embora admita que o acumulado do ano mostre acréscimo de 12% nas mortes, o secretário da Segurança do Rio Grande do Sul vê motivos para comemorar. É que uma parcial anunciada ontem pelo governo apresenta queda de 9% na comparação entre outubro de 2012 com o mesmo período de 2011 em todo o Estado.

Airton Michels acredita que seja resultado da força-tarefa da Polícia Civil na elucidação de crimes e do reforço de PMs em Alvorada, Porto Alegre, Gravataí, Viamão, Cachoeirinha, São Leopoldo e Novo Hamburgo. O secretário faz uma projeção.

- Quando começarem a operar as quatro novas delegacias de homicídios aqui em Porto Alegre, deveremos aumentar o índice de crimes resolvidos.

A promessa da Polícia Civil é de que as novas delegacias de homicídios entrem em funcionamento até o final de novembro.

Silêncio nas ruas do Recanto

Desde a semana passada, a Brigada Militar virou presença constante entre as vielas do Recanto do Sabiá, no Loteamento Timbaúva 3, Bairro Mario Quintana, em Porto Alegre. É o ensaio de uma resposta ao domínio do tráfico na região, no limite com Alvorada.

Mais de uma dezena de casebres ficaram vazios em um ponto transformado praticamente em uma "vila fantasma". Somente no intervalo de uma semana, seis corpos foram encontrados na região.

O clima de tensão domina o bairro há pelo menos um ano. Jovens que herdaram bocas de fumo no Recanto mantiveram a forma de poder dos antigos líderes (presos ou mortos), expulsando moradores para transformar os casebres em mais pontos de venda de drogas.

Mesmo depois da chegada da Brigada à região, o silêncio persiste. A suspeita da Polícia Civil é de que os seis corpos achados na semana passada possam ser de uma mesma família, que teria se oposto aos criminosos.

Entenda os números

1) Taxa de mortes entre janeiro e outubro de 2012:

Local População Assassinatos Mortes a cada 100 mil hab.

GPOA* 
População: 3,5 milhões  
Assassinatos: 950  
Mortes a cada 100 mil habitantes: 27

SP**  
População: 11,2 milhões  
Assassinatos: 1.246 
Mortes a cada 100 mil habitantes: 11

* Dados do Diário Gaúcho referentes a Porto Alegre e as 18 maiores cidades da Região Metropolitana e Vale do Sinos (GPOA).

** Capital (números da Secretária de Segurança de São Paulo).

2) Evolução dos dados - Taxa de homicídios ano a ano*

De 2000 a 2005, São Paulo era mais violenta do que Porto Alegre, em números absolutos e de índice da OMS. Em 2006, houve a inversão na proporção. Desde 2007 (faltando dados de 2011), Porto Alegre tem hoje o ápice da diferença: 2,5 vezes maior - dividindo 27 por 11 chega-se à 2,5.

São Paulo - Taxa de homicídios
Em 2000: 63,3
Em 2006: 25,6
Em 2010: 15,4

Porto Alegre - Taxa de homicídios
Em 2000: 26,9
Em 2006: 26,9
Em 2010: 29,6

3) Comparação com o Brasil - regiões metropolitanas mais violentas em 2010*

Cidade - Taxa por 100 mil habitantes

1º) Maceió  100,7
2º) Belém 80,2
3º) João Pessoa 72,9
4º) Vitória 68,6
5º) Salvador  60,1
17º) Porto Alegre  29,1

Obs.: A Região Metropolitana de Porto Alegre teve índice pior do que metrópoles como Rio de Janeiro (26,7) e São Paulo (15,4)

*Mapa da Violência do Instituto Sangari

Planilha do Diário já contabiliza 1.021 assassinatos

Até a noite de ontem, a Região Metropolitana de Porto Alegre havia registrado a marca de 1.021 assassinatos este ano. Com um população de pouco mais de 3,5 milhões de habitantes, as 19 cidades acompanhadas pelo Diário Gaúcho desde janeiro de 2011 já apresentam, em 2012, quase o mesmo número total de mortes registradas no ano passado: 1.088 casos. E faltam ainda 34 dias para o fim de 2012.

Este ano, caso mil ocorreu antes

Na semana passada, em entrevista ao Diário Gaúcho feita após a coletiva sobre o projeto das patrulhas Maria da Penha, o secretário de Segurança Airton Michels admitiu aumento na taxa de homicídios na Capital. O número já tinha sido mostrado pelo Diário Gaúcho, ao ser registrado o assassinato de número mil, 40 dias antes do que em 2011.

"É isso que temos dito"

Ao ser questionado sobre o aumento no número de mortes, Michels explicou:

- Você está me relatando um aumento provável de 12% no número de homicídios. E é isso que nós temos dito. Os números de homicídios estão aumentando. Veja bem, nós começamos o ano com um aumento médio, nos três primeiros meses, de 24 ou 25%....

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