Quem são e como funciona a quadrilha dos Bala na Cara - Polícia

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Tráfico de drogas02/09/2014 | 07h03

Quem são e como funciona a quadrilha dos Bala na Cara

Facção dos Bala na Cara é a que mais cresce nas cadeias e nas ruas da Região Metropolitana. Praticamente todas as delegacias da região investigam algum braço do grupo, mas ninguém consegue decifrar todos os caminhos da organização para eliminá-la

"O quê? Ele não quer vim pro nosso lado? "Passa" ele, então. Nós somos Bala".

A ordem era quase trivial, mandando o comparsa matar um desafeto. Foi interceptada em uma escuta telefônica há dois anos, durante uma investigação que não evoluiu por falta de fôlego da polícia. E virou elemento fundamental para mostrar a diferença da facção dos Bala na Cara em relação a qualquer outro grupo criminoso organizado entre as cadeias do Estado. A pirâmide de poder dos Bala, diferente das facções rivais, não tem um líder único, que dite as regras.

O Denarc, todas as delegacias de homicídios da Região Metropolitana, o Deic e o Ministério Público mantêm investigações sobre a facção. Mas sempre tendo como foco algum tentáculo da organização, nunca a facção como um todo. 

— Sabemos que a quadrilha nasceu na Bom Jesus e que a expansão acontece sem um líder absoluto. O tráfico pulverizado, e a forma de atuar em associação a quadrilhas locais, dificulta qualquer investigação mais precisa sobre eles — afirma o diretor de investigações do Denarc, delegado Cléber dos Santos Lima.

Bando tem pelo menos quatro líderes

A polícia estima que pelo menos quatro homens ditem as regras do bando — não necessariamente com um discurso afinado. E não são eles que dão ordens para a ponta dessa rede. Aos soldados, quem dá as cartas são os líderes de quadrilhas locais. Assim, é difícil para a polícia chegar aos mais poderosos do bando.

A forma de atuar, quase como uma franquia, se consolidou há pelo menos três anos, quando a facção ganhou respeito ao desbancar a liderança dos Manos. Mas, diferentemente do momento em que a quadrilha ficou conhecida, em 2009, dessa vez nenhum personagem ganhou notoriedade com essa ascensão.

Em vez de soldados, nas cadeias os Bala passaram a atrair sócios. Ao traficante de qualquer localidade, a facção ofereceria reforços de soldados e armas — que saem de outras regiões dominadas pelo grupo — para garantir o controle do território. Depois, o novo sócio se compromete a vender somente a droga fornecida pela facção.

Lucro é o interesse em comum

Os negócios são tratados por gerentes das galerias de cada prisão. A forma como eles se comunicam com os principais líderes ainda não está clara para as autoridades. A certeza que se tem é que a sociedade com a facção tem um único interesse: lucro. Como a grana é dividida, as investigações até hoje não esclareceram.

Ação exigiria força-tarefa

— Uma ação única para derrubar os Bala na Cara como um todo, exigiria uma força-tarefa. E, hoje, não teríamos condições de fazer isso. Também não sei qual seria a eficiência, se dentro das cadeias ainda são os presos que definem até o lugar onde vão ficar — diz o diretor de investigações do Departamento de Homicídios, delegado Cristiano Reschke.

Ainda assim, ele garante que, entre as delegacias de homicídios, há constante troca de informações sobre a presença da facção em todas as regiões da cidade. E aí, os investigadores ainda precisam driblar mais uma "cortina de fumaça".

— Sempre que o nome da facção surge em alguma investigação, o primeiro desafio é filtrar o que realmente é Bala e o que é só grife. Não podemos alimentar isso — alerta Cléber dos Santos Lima.

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Facção se adapta às regras da cadeia

Quem agride mais, vive menos. A frase é regra de convivência básica na cadeia. A negociação, mais do que o medo, sempre garantiu a permanência das principais facções nos presídios gaúchos. Os Bala, vistos como extremamente violentos mesmo com seus aliados, pareciam ter transgredido também essa norma.

Os mandamentos da facção ordenam não ter pena, ser duro com os seus traficantes e eliminar os traidores. Porém, para o juiz da Vara de Execuções Criminais, Sidinei Brzuska, há um interesse maior do que estas regras.

— Entre as facções gaúchas, não há uma ideologia. O que há é o interesse econômico. Fazem alianças por conveniência. E essa facção se adapta muito bem a esse ambiente — acredita.

Segundo ele, sobretudo no Presídio Central, há indícios de que os Bala se tornaram mais flexíveis para crescer. Uma estimativa dá conta de que a galeria dominada pela facção, que tem entre 200 e 300 presos no Pavilhão F, teria atualmente o maior faturamento. Nas prisões do semiaberto também teriam diminuído os casos de punições com morte impostas pela quadrilha.

A estratégia estaria garantindo uma expansão nas cadeias. Pelo menos dois líderes de quadrilhas ligadas aos Bala na Zona Sul da Capital estão presos na galeria dominada pelos traficantes da Vila Maria da Conceição. Com o enfraquecimento do traficante Paulão, a facção teria se aliado aos novos comandantes do tráfico na vila da Zona Leste da cidade.

Carros viraram a nova moeda do tráfico

Se, em 2007, os Bala na Cara ganharam notoriedade pelos violentos roubos a joalherias e bancos para financiar o tráfico e a compra de armas, agora, o ramo deles mudou. E tem chamado a atenção da Delegacia de Roubos de Veículos do Deic. Pelo menos um terço dos carros recuperados este ano na Capital foram achados em bairros onde a facção domina.

Os bairros Mario Quintana, Bom Jesus e Lomba do Pinheiro estão entre os principais destinos, na cidade, de veículos roubados e furtados. Na Região Metropolitana, Viamão e Alvorada — também com forte presença dos Bala — repetem a dose.

— O roubo de carros virou uma grande moeda de troca para os traficantes. É muito menos arriscado do que roubar um banco, por exemplo — estima o delegado Juliano Ferreira.

Um ladrão de carros chegaria a ganhar em torno de R$ 1 mil para repassar o veículo ao bando que, em casos de clonagens, chega a revender o carro por R$ 10 a R$ 15 mil.

— Estamos muito atentos à organização deste grupo, agora, a partir das cadeias. É de lá que saem as ordens para os roubos — diz o delegado.

Ele afirma que há diversas investigações relacionando a facção aos roubos de veículos, inclusive com a possibilidade de que o bando tenha lucros em esquemas de desmanches e clonagens de carros posteriormente revendidos.

O tamanho dos Bala na Cara

Bom Jesus - É o berço da facção. Hoje, são hegemônicos no tráfico de drogas do bairro, e com influência sobre o Jardim Carvalho, Vila Jardim e Jardim Itu Sabará.

Serraria - A Vila dos Sargentos é, talvez, a área de domínio mais violenta da facção. Em 2009, um traficante local, reforçado pelos Bala, eliminou um antigo gerente, que devia ao bando. Sua morte, decapitado, foi considerada exemplar pelos criminosos. Da vila, sairiam os soldados que cumpririam ordens da facção para disputas do tráfico em toda a Zona Sul da Capital.

Mario Quintana -- Vila Safira é considerada pela polícia uma das principais bases da facção. Ali se concentram boa parte dos criminosos — boa parte ainda adolescentes — usados como soldados em guerras do tráfico.

Atualmente não há conflito pelo domínio do tráfico neste bairro, mas as disputas são constantes com a Gangue dos Bobós, do Rubem Berta. Até 2011, os grupos eram parceiros, mas houve um racha na quadrilha.

Morro Santana - Vila das Laranjeiras viveu uma guerra entre o final de 2012 e o começo de 2013. A região acabou dominada pelos traficantes da Vila Safira, que surgiram como apoiadores de um dos gerentes locais.

Lomba do Pinheiro - Vila Tamanca é vista como uma das zonas de influência da facção, mas há domínios dos Bala na Cara em outros pontos do bairro. Atualmente, haveria um racha interno. Integrantes da facção estariam em desacordo com a liderança da Vila dos Sargentos.

Sarandi - Três quadrilhas disputam o controle do tráfico local. Uma delas, liderado por um traficante conhecido como Carroça, de acordo com a 3ª DHPP, teria o reforço dos Bala.

São Geraldo - A facção tomou conta dos pontos entre os bairros São Geraldo e Navegantes, entrando em enfrentamento com a facção dos Farrapos, que também domina uma galeria no Presídio Central. Nessa região da cidade, o bando também estaria controlando um esquema de prostituição.

Santa Tereza - Os Bala na Cara estariam por trás de pelo menos duas das guerras pelo controle de pontos de tráfico na Vila Cruzeiro. O grupo conhecido como V7 seria o grupo armado da facção no bairro. Eles estariam apoiando ainda o bando dos Bala de Goma.

Vila Nova - A Vila Monte Cristo e o Campo Novo são apontados como redutos da facção na região. Integrantes da V7 e da Vila dos Sargentos estariam atuando em confrontos principalmente com traficantes da Cohab Cavalhada, que seria dominada pelos Manos.

Restinga - As gangues dos Miltons e dos Primeira são investigadas como relacionadas com os Bala na Cara. A região, porém, não se configura como um domínio sem rivais à facção pelo grande número de gangues atuando na mesma região.

Partenon - A Vila Maria da Conceição sempre foi um objetivo dos líderes dos Bala na Cara. E essa aproximação estaria acontecendo dentro do Presídio Central, desde que o tráfico na área considerada a mais lucrativa da Capital rachou. Alguns líderes ligados aos Bala estariam na galeria dominada pela Maria da Conceição.

Alvorada - Os bairros Umbu, Maria Regina e Aparecida seriam os principais pontos de atuação da facção na cidade, mas a polícia investiga a presença dos Bala em quase todas as regiões da cidade.

Cachoeirinha - O bairro Navegantes foi a primeira área tomada por uma gangue ligada aos Bala na Cara. Desde o ano passado, porém, a polícia investiga a tomada de pontos na Vila Anair e no Bairro Vista Alegre, em uma parceria com traficantes presos recentemente.

Canoas - Desde a morte de Nego Jaime, a liderança dos Bala na Cara no Bairro Mathias Velho estaria vaga, mas eles continuariam atuando na região, assim como no Bairro Guajuviras. Há suspeita de ligações da Gangue dos Bicudos, do Bairro Rio Branco, com os Bala na Cara.

Eldorado do Sul - No mês passado, a polícia desmascarou a investida da facção sobre o Delta do Jacuí, por ordem do traficante conhecido como Pequeno, a partir da Pej.

Esteio - Traficantes da Vila Pedreira teriam retomado o poder nas bocas locais com o suporte dos Bala.

Gravataí - Há pelo menos cinco anos a polícia investiga a presença dos Bala na Cara no tráfico da Vila Rica. Mais recentemente, o bando estaria por trás da guerra do tráfico no Bairro Rincão da Madalena.

Viamão - Foi uma das primeiras áreas de expansão da quadrilha, pela influência do Alemão Lico na região da Hidráulica. Regiões dos bairros Santa Cecília e Santa Isabel também teriam atuação de traficantes ligados à facção. A região seria um dos núcleos da receptação de veículos roubados da quadrilha.

Os cabeças:

Presídio Central

Deividi Vilanova dos Santos, o Zóio. Foi preso ano passado pela 2ª DHPP, apontado como mandante de homicídios na região do Bairro São Geraldo. É apontado pela polícia como gerente dos Bala na Cara entre os bairros São Geraldo e Navegantes.

André Vilmar de Souza, o Nego André. Foi indiciado pela 4ª DHPP como mandante de homicídios na Vila Cruzeiro. É considerado um dos líderes dos V7. Está preso na galeria dominada pela Vila Maria da Conceição e pode indicar a aproximação entre os dois grupos.

Penitenciária Estadual do Jacuí (Pej)

Wagner Nunes Rodrigues, o Minhoquinha. Seria o líder dos Bala na Cara na região do Bairro Mario Quintana. Foi preso em 2011 depois de ser indiciado por pelo menos três homicídios. Na última semana, foi indiciado com mandante de dois homicídios em Eldorado do Sul. De acordo com a polícia, Minhoquinha faria o meio de campo nas parcerias com traficantes da Região Metropolitana.

Jéferson dos Santos Lopes, o Pequeno. Tem mais de 50 anos de pena a cumprir na cadeia, com antecedentes por homicídios. Considerado pela polícia o elo dos Bala na Cara em Eldorado do Sul, mas é originalmente da Zona Norte de Porto Alegre. Ocuparia um cargo de confiança na galeria da facção na Pej.

Jaime Evangelista Pires, o Nego Jaime. Foi encontrado morto em uma cela em julho. Teria cometido suicídio. Ele era o elo dos Bala na Cara no Bairro Mathias Velho, em Canoas, mas viu seu poder ruir ao ficar com dívidas com a facção.

Paulo Cezar Tonatto, o Barba. É considerado um dos membros originais do bando. Indiciado por diversos homicídios cometidos no Bairro Bom Jesus. Haveria uma divergência de comando dentro da penitenciária entre as lideranças do Bom Jesus e da Zona Norte.

Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc)

Fábio Fogassa, o Alemão Lico. É apontado pela polícia como o líder mais violento do bando. É investigado pelas delegacias de homicídio de Porto Alegre e de Viamão por ordenar crimes de dentro da prisão. Seria o principal líder da facção na Zona Sul da Capital, a partir da Vila dos Sargentos. Tem antecedentes por roubos, tráfico de drogas e formação de quadrilha. Responde na Justiça por pelo menos quatro homicídios.

Luis Fernando da Silva Soares Júnior, o Júnior Perneta. É considerado o principal líder dos Bala na Cara. Natural da Bom Jesus, teria conhecido seus principais comparsas no longo período em que passou por diversas casas prisionais. Agora, está preso desde o começo do mês passado ao ser flagrado pela Polícia Federal com 20,5kg de cocaína em uma garagem do Bairro Menino Deus. Ele também já havia sido preso com drogas em Viamão, em 2010. Tem antecedentes por roubos, formação de quadrilha, tráfico e associação ao tráfico. Responde na Justiça também por pelo menos um homicídio e uma tentativa de homicídio.

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