Família vive calvário após descobrir abuso sexual dentro de casa - Polícia

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Infância agredida03/06/2016 | 22h34Atualizada em 06/06/2016 | 10h24

Família vive calvário após descobrir abuso sexual dentro de casa

Reportagem acompanhou o drama de uma família desde a descoberta até a procura pela rede de atendimento. Orientações de especialistas ajudam a aprender a lidar com o problema

Família vive calvário após descobrir abuso sexual dentro de casa Adriana Franciosi/Agencia RBS
Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Em fevereiro deste ano, a filha mais velha, que já é maior de idade, voltou a morar em casa com os pais e outros três irmãos. Grávida, a jovem trouxe o companheiro com ela. Os pais não gostaram da ideia, mas acabaram concordando em acolhê-lo. Pensavam na filha que logo será mãe. A casa é espaçosa e aconchegante, capaz de comportar toda a família.

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 Após algum tempo, a mãe começou a observar alterações no comportamento de uma das filhas pequenas, de 11 anos. Ela andava agitada e agressiva. A mãe conversava, observava, mas não entendia o que se passava com a garotinha.A harmonia do lar havia sido quebrada três dias após a chegada do casal. Algo acontecia, mas ninguém via.

Até que, no dia 7 de abril, chegou um bilhete da escola da filha de 11 anos solicitando a presença da mãe para uma conversa em particular.

— Pensei que o problema estivesse na escola porque ela não é de brincar na rua e eu pensava que estava tudo bem em casa.

Descoberta

Ao chegar na escola, a mãe foi questionada pela orientadora pedagógica se havia algo errado no convívio do lar. Ela respondeu que não, pois aparentemente não havia motivo. Sem revelar o que estava acontecendo, a orientadora chamou a menina e a instigou a contar o segredo à mãe.

— A orientadora olhou pra ela e disse: "Pode contar pra tua mãe, porque que eu já falei pra ela". A minha filha respondeu: "Como assim professora?". Respirou fundo e continuou: "Ai mãe, nem sei como te falar o que o namorado da mana fez comigo".

A garotinha criou coragem e contou os detalhes do abuso sexual que vinha sofrendo dentro de casa. Um dos meios utilizados pelo agressor era simular brincadeiras de esconder no escuro. O rapaz também teria invadido o banheiro enquanto ela tomava banho. A menina revelou que a violência ocorreu repetidas vezes não só com ela, mas com a irmã caçula de sete anos.

— Quando ela disse isso, eu só assinei a ata da escola e fui embora. A caçula estava em casa com eles (a filha mais velha e o namorado). Se aconteceu com todo mundo em casa, imagina o que poderia acontecer enquanto eu estava fora?

O percurso de volta para casa, de apenas 15 minutos de ônibus, durou uma eternidade. Apesar do choque ao descobrir que as filhas sofreram caladas, a mulher encontrou forças para manter a calma e pôr fim ao crime cometido pelo genro. Chegou em casa e reuniu a família. O rapaz negou ter cometido as agressões. Ao ouvir a discussão, a caçula prontamente se pronunciou. "É verdade mãe, ele fiz isso comigo também".

— Achei que o meu marido saltaria em cima dele, mas a única coisa que conseguiu fazer foi chorar. E eu ali, firme e forte.

A discussão foi seguida de horas de tensão, angústia, choro e raiva que transbordavam as vísceras. A filha mais velha e companheira do agressor arrumou as malas com a intenção de ir embora com ele.

— Quando vi a minha filha mais velha, grávida de uma menina, subindo esse corredor de mãos dadas com ele, decidi impedi-lo de sair e chamei a polícia.

Delegacia

Duas horas depois, por volta de 19h30, a viatura chegou e levou o rapaz algemado. As duas crianças foram conduzidas até a delegacia no carro da família. O primeiro destino foi a Delegacia de Polícia para Crianças e Adolescentes (Deca), onde os brigadianos receberam a informação de que a ocorrência deveria ser encaminhada à delegacia dos adultos, já que o agressor era maior de idade.

Lá foram as crianças e o suspeito para a 2ª DPPA, no Palácio da Polícia. De acordo com a mãe, elas ficaram num espaço improvisado para mulheres, só que de onde estavam podiam visualizar os presos que chegavam algemados, alguns até machucados.

As crianças prestaram depoimento e fizeram o exame de corpo de delito no DML. Quando a escrivã solicitou que a mãe assinasse o depoimento da caçula, a pequena imediatamente a interrompeu e disse que fazia questão de assinar. Com letrinhas tremidas e desconsoantes, de quem ainda está aprendendo a escrever, registrou a assinatura. "Mãe, agora estou aliviada", teria dito.

— Não imaginas a dor de ver a tua filha fazer a primeira assinatura da vida dela dentro de uma delegacia. Aquilo me derrubou.

Dez dias depois, a mãe recebeu um telegrama do Deca informando que ela precisava levar alguns documentos na delegacia. Lá, ela foi orientada a levar as meninas no Centro de Referência no Atendimento Infanto-Juvenil (Crai), no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas.

No Crai, onde a proposta de atendimento é mais humanizada, as crianças foram entrevistadas por psicólogas que emitiram um laudo psíquico. Desde então, mãe e filhas não foram mais contatadas pelos serviços da rede de proteção à criança e adolescente vítima de violência. A mãe afirma que não recebeu nenhum encaminhamento para tratamento de saúde ou social.

— Estou aprendendo a lidar com a situação sozinha. Vivo presa, sufocada e sem paz. Pior é sair de casa e trancar tudo porque tenho medo que ele apareça aqui. Sabe o que é ver uma criança de 11 anos perder a inocência? Uma criança que nunca foi criada na rua, que sempre esteve com a família. A dor maior é saber que essa cicatriz vai ficar para o resto da vida delas. Eu sofro junto, tenho sentimento de culpa. É horrível. 

Denúncia

Pouco mais de um mês depois, a família tenta tocar a vida. Segundo a mãe, a maior (de 11 anos) continua com alteração de comportamento e imagina ter visto o agressor no portão da escola.

A caçula voltou a pedir mamadeira, é atormentada por pesadelos e não quer mais dormir sozinha. Desde então, a família não teve mais contato com a filha mais velha e não soube o que aconteceu com o genro.

Desdobramento

O inquérito foi finalizado e entregue ao Ministério Público, que denunciou o rapaz por estupro de vulnerável e pediu a prisão preventiva dele. Se condenado, a pena pode chegar a 15 anos de prisão.

A 6ª Vara Criminal de Porto Alegre expediu o mandado de prisão no dia 6 de maio. Desde então, o acusado está preso. A primeira audiência do caso está prevista para ocorrer na primeira quinzena deste mês. As vítimas devem ser ouvidas mais uma vez em juízo.

O procedimento deve ocorrer pelo sistema de depoimento especial, quando a vítima fica em uma sala especial acompanhada de um psicólogo ou assistente social. A comunicação nestes casos ocorre por videoconferência. 

Dados comprovam que Porto Alegre registra uma média de um caso de violência sexual por dia contra criança e adolescente. Clique aqui e confira.



 
 
 
 
 
 
 
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