"Não temos nem água para lavar as mãos", diz diretora de escola depredada na Capital - Polícia

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Nota zero18/07/2016 | 18h54Atualizada em 18/07/2016 | 22h59

"Não temos nem água para lavar as mãos", diz diretora de escola depredada na Capital

Vice-diretora notou, na manhã desta segunda-feira, sinais de vandalismo na escola

"Não temos nem água para lavar as mãos", diz diretora de escola depredada na Capital Omar Freitas/Agencia RBS
Vice-diretora comparou cenas encontradas na escola a resultado de guerra Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

A equipe pedagógica da Escola Estadual Erico Verissimo, no Bairro Jardim Carvalho, na Zona Leste de Porto Alegre, acreditava estar vivendo uma nova era após enfrentar o terror que pairava à porta da escola. Pelo menos quatro tiroteios entre o fim do ano passado e abril deste ano puseram alunos no chão como garantia de que não seriam atingidos por bala perdida ou fecharam os portões da unidade. Era possível ouvir a violência de perto, muito perto.

Quando a calmaria chegou e o medo foi embora, os professores passaram a trabalhar o tema em sala de aula. Violência contra a mulher, bullying e o direito das criança e do adolescente foram alguns dos assuntos incluídos no cotidiano. Na última sexta-feira, as portas foram abertas à comunidade e à Brigada Militar para apresentar o projeto Aluno Cidadão. "Diga não à violência" e "Mais amor, por favor" eram alguns dos títulos dos trabalhos que emolduravam as paredes da escola. Os profissionais saíram de lá com a sensação de que a luz finalmente voltava a brilhar.

Pó químico dos extintores de incêndio foi espalhado em mais de trinta salas Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

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Mas, o sonho transformou-se em pesadelo três dias depois. A vice-diretora foi a primeira a entrar na escola na manhã desta segunda-feira. Notou que a grade da sala da diretora estava arrombada. Ao se aproximar, percebeu que havia sinais de vandalismo e um pó amarelado marcando o corredor. As pernas amoleceram. Avisou a diretora e chamou a polícia. 

A violência, que até então era perceptível apenas aos ouvidos, alcançou os olhos. Ela tomou conta do lugar que há três meses foi considerado pela BM o mais seguro da comunidade em meio à hostilidade provocada pelo tráfico de drogas. As cenas que a vice-diretora encontrou a partir dali foram comparadas por ela mesma ao resultado de uma guerra.

Vandalismo foi percebido na manhã desta segunda-feira Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

— O que esperar de uma coisa dessas? Estamos aqui há 13 anos construindo esse patrimônio. Cada computador, cada coisinha aqui fomos nós que conseguimos adquirir economizando nos repasses de verba. Era uma escola totalmente equipada. Agora, só me resta chorar — lamentou a vice-diretora diante do cenário de horror.

Três dias de destruição

Vizinhos ouviram barulhos dentro da escola na sexta-feira e no sábado à noite. A BM fez rondas, mas não percebeu nenhuma movimentação. Outro morador viu uma nuvem branca no telhado na tarde de domingo, mas pensou que fosse o vapor de um lava-jato.

Nem alimentos foram poupados em vandalismo na escola Erico Verissimo, na Zona Leste da Capital Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Na verdade eram vândalos trabalhando na destruição da escola. Não sobrou um caderno, uma caneta ou um alimento intactos. Não havia uma única cadeira limpa. O pó-químico dos extintores de incêndio foi espalhado em mais de 30 salas de aula. Computadores, instrumentos musicais, livros, cadernos e trabalhos escolares foram minuciosamente destruídos. A bandeira de Porto Alegre foi hasteada na parede mais alta da escola rabiscada com um símbolo já desenhado anteriormente por alunos nas mesas de aula. "É tudo nosso" diz o recado deixado na lousa da diretora.

— Não temos nem água para lavar as mãos. Destruíram tudo, furaram os monitores. Provavelmente não tenho mais o registro dos alunos — disse a diretora em meio a um suspiro desolador.

Território conflagrado
 A Escola Estadual de Ensino Fundamental Erico Verissimo ocupa uma quadra inteira da Rua Comendador Eduardo Secco, quase no topo do morro. O prédio está inserido na Vila Ipê 1, dentro do bairro Jardim Carvalho, próximo aos bairros Bom Jesus – reduto da facção Bala na Cara – e Vila Jardim – base do grupo que se denomina Antibala. Desde dezembro do ano passado, os dois bandos protagonizam conflito sangrento. O duelo que se espalha por diferentes pontos de Porto Alegre, também se reproduz na região da escola. 

Moradores e estudantes da Vila Colina, também dentro do bairro Jardim Carvalho, estão impedidos de passar a "fronteira" até a Erico Verissimo que, na lógica do crime, está dentro de território controlado pelos Antibala. A Colina, por outro lado, é dominada pelos Bala na Cara. 

Os símbolos deixados pelos vândalos indicam que o ataque é mais um "recado" de escracho de criminosos da Vila Colina no território inimigo. Neste ano, já somam 41 as mortes ligadas ao tráfico de drogas nas três áreas:

Vila Jardim: 21
Jardim Carvalho: 13
Bom Jesus: 7

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