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Vale do Rio Pardo27/10/2017 | 17h13Atualizada em 27/10/2017 | 17h13

Participação no jogo do bicho, acordo de paz e segurança particular: como age a facção em Santa Cruz do Sul

Organização criminosa sediada no Vale do Sinos atua na cidade pelo menos desde 2013

Participação no jogo do bicho, acordo de paz e segurança particular: como age a facção em Santa Cruz do Sul Polícia Civil/Divulgação
Foto: Polícia Civil / Divulgação

Consolidada na região de Santa Cruz do Sul desde 2013, a facção que domina o tráfico de drogas na cidade e arredores decidiu expandir os negócios na metade deste ano, quando propôs aos bicheiros e donos de máquinas caça-níquel um acordo para manutenção da paz. A facção queria receber R$ 650 mil em parcela única e mais 10% dos lucros mensais. Em contrapartida, ofereceria segurança. Os operadores de jogos ilegais que resistiram à oferta tiveram as casas atacadas por tiros de fuzil entre o fim de setembro e início deste mês. Foram três ataques, que não deixaram feridos.

— Agora, todos os bicheiros e donos de máquinas caça-níquel têm de pagar para eles — disse o delegado Luciano Menezes, comentando que o grupo movimenta R$ 200 mil por semana com o tráfico. 

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Era deste grupo os 15 fuzis e as 21 pistolas apreendidos nesta sexta-feira (27), em Santa Cruz do Sul. A estratégia adotada pela organização para despistar a polícia foi deixar as drogas nas periferias e o armamento na área central de Santa Cruz do Sul, com uma pessoa que não despertasse suspeita alguma. Jerônimo Lopes, 26 anos, estudante de Engenharia, tinha todas as características. O delegado Menezes não sabe como nem quando o universitário entrou para o crime, mas sugere que tenha conhecido os traficantes em uma festa da alta sociedade santa-cruzense, que costumava frequentar. Preso em flagrante, se manteve em silêncio.

Quinze fuzis de fabricação russa e americana e 21 pistolas da marca Glock foram encontradas dentro do apartamento de um estudante de Engenharia morador do bairro Universitário, em Santa Cruz do Sul, na manhã desta sexta-feira (27). Conforme o chefe de Polícia, Emerson Wendt, esta é a maior apreensão dos armamentos na história, avaliada em pelo menos R$ 3 milhões. Para esconder o arsenal, Jerônimo Jardim Lopes, 26 anos, segundo investigação da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec), recebia moradia paga e R$ 10 mil por mês de uma das maiores facções do tráfico de drogas do Rio Grande do Sul.
Jerônimo Lopes, 26 anos, estudante de EngenhariaFoto: Reprodução / Facebook

Em seu perfil no Facebook, Lopes exibe como foto de capa uma imagem de Don Vito Corleone e Michael Corleone, personagens interpretados pelos atores Marlon Brando e Al Pacino no filme O Poderoso Chefão. No cinema, a película conta a história de uma família mafiosa que luta para estabelecer sua supremacia depois da Segunda Guerra. Na vida real, Japa, como é conhecido, natural de Cachoeira do Sul, é membro de uma família de classe média. Para os amigos de infância, era um funcionário bem-sucedido de uma empresa de engenharia civil

— Ele vivia bem, frequentava festas na high-society santa-cruzense. Muita badalação, muito glamour, tudo a custas do dinheiro pago pela facção para que ele, um rapaz de família de classe média, insuspeito, fosse o responsável pelo armazenamento. Ninguém desconfiava de nada. Nem a família — afirma o delegado.

O braço em Santa Cruz da facção com sede no Vale do Sinos seria comandado por Antônio Marco Braga Campos, o Chapolin, 34 anos. Detido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, tem 98 anos de pena a cumprir até 2.103 por crimes como roubo, extorsão, tráfico de drogas e furto. Entre os fuzis apreendidos na casa do universitário estava o preferido de Chapolin. O calibre 762 frequentemente era citado pelo traficante em conversas interceptadas pela polícia. Com partes cromadas, era o armamento que o próprio assaltante usava quando estava solto, diz o delegado.

Chapolin seria o negociador com um dos maiores traficantes da América do Sul: Jarvis Chimenes Pavão, o Pavão, atualmente preso no Paraguai. Conforme investigação feita pela Polícia Federal em 2014, mesmo encarcerado, ele gerenciava o fornecimento de drogas vindas da Bolívia com destino a Santa Cruz do Sul e outras cidades gaúchas. No decorrer da investigação, que se iniciou em 2013, a Polícia Federal prendeu 33 pessoas, apreendeu 1,2 tonelada de drogas, R$ 165 mil em dinheiro, 24 veículos, entre eles um motor-home, diversas armas de calibre restrito, incluindo um fuzil AR-15, sete pistolas 9mm e uma submetralhadora.

Após várias interceptações de carregamentos de drogas, a organização chegou a planejar a utilização de uma aeronave para o transporte de 200 quilos de cocaína que seriam arremessados em uma propriedade em Mostardas, e depois distribuída para o Estado, inclusive Santa Cruz do Sul. A ação acabou não se concretizando. 

 

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