Guerra do tráfico e aliciamento de jovens: Pelotas tem 40% de aumento nos homicídios - Polícia

Versão mobile

 

Violência15/05/2018 | 09h40Atualizada em 15/05/2018 | 09h40

Guerra do tráfico e aliciamento de jovens: Pelotas tem 40% de aumento nos homicídios

Terceira maior cidade do RS teve 49 assassinatos em quatro meses deste ano contra 35 no mesmo período de 2017

Guerra do tráfico e aliciamento de jovens: Pelotas tem 40% de aumento nos homicídios Jerônimo Gonzalez/Especial
Eva estava em casa, no bairro Areal, quando pai foi baleado. Após quatro dias, Raul da Silva morreu Foto: Jerônimo Gonzalez / Especial
Leticia Mendes

A disputa constante pelo tráfico de drogas e o aliciamento cada vez mais precoce para o crime estão entre os fatores que desafiam o combate aos homicídios em Pelotas. Nos primeiros quatro meses deste ano, 49 pessoas foram assassinadas no município que concentra a terceira maior população do Estado, com 345 mil habitantes. O índice representa 40% de aumento em relação a igual período de 2017 — foram 35 vítimas.

 Leia outras notícias do Diário Gaúcho  

— Nos bairros, os adolescentes acabam sendo aliciados muito jovens para participar do tráfico por conta dos benefícios da lei. A diferenciação tem de existir mesmo, mas o traficante acaba vendo nisso chance de atuar sem correr o risco de prisão. Ele pratica o tráfico sem colocar as mãos na droga — afirma o titular da Defrec de Pelotas, delegado Rafael Lopes.

O ingresso cada vez mais cedo de meninos e meninas no meio do tráfico é constatação dos órgãos que tentam combater a escalada dos assassinatos em Pelotas. Dos 49 mortos entre janeiro e abril deste ano, metade tinha até 25 anos, sendo que seis eram adolescentes. Entre as vítimas, um garoto de 12 anos, morto com um tiro na cabeça, no fim de abril.

— Quem está matando e morrendo, na maioria, são jovens. A gente não pode achar que isso é normal. Quando o jovem começa a criar admiração pela figura do criminoso temos de criar outras referências, que não sejam a arma na cintura. Precisamos romper esse ciclo — afirma o secretário da Segurança do município, Aldo Bruno Ferreira.

Responsável pela Delegacia de Homicídios de Pelotas, Félix Rafanhim afirma que a maioria das vítimas tinha alguma vinculação com o tráfico e que a polícia também vem constatando que autores dos crimes são jovens. O policial afirma que, para entender a elevação nos índices, é necessário mais tempo.

— Existe embate entre essas organizações criminosas, disputa de espaço por tráfico, mas para a gente ter visão completa, leva tempo — disse.

Pelo menos dois grupos criminosos atuam na área, conforme a polícia, sendo um deles vinculado a uma facção do Vale do Sinos. Sem hegemonia no controle das drogas, enfrentamentos são frequentes:

— No momento que prendemos o traficante ou alguém morre, surge lacuna.

O que vejo são disputas constantes e gente morrendo dos dois lados no mesmo bairro — afirma Lopes.

Em Porto Alegre, para conter esse tipo de revide entre grupos, a polícia passou a monitorar os homicídios envolvendo disputas pelo tráfico. Quando identifica que pode haver revanche, com novas mortes, intensifica o policiamento ostensivo na área a ser atacada.

Na maioria dos casos em Pelotas, as vítimas foram mortas a tiros. A polícia percebeu aumento de crimes com pistola 9 milímetros, de uso restrito, o que demonstra o poderio dos criminosos. Segundo o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Eduardo dos Santos Perachi, neste ano, 143 armas e 255 quilos de drogas foram apreendidos, além de realizadas 850 prisões — 144 relacionadas ao tráfico.

— O consumo e o tráfico de drogas fomentam disputas de espaço e ocorrem os crimes. No homicídio relacionado ao entorpecente, o alvo está escolhido, mas num erro, o tiro acerta outra pessoa. Quando se trabalha nessa informação a gente consegue evitar. Mas isso não entra na estatística — afirma.

Três vítimas atingidas por bala perdida

 Eva da Silva perdeu o pai em um assassinato
Raul da Silva, 79 anos, foi vítima de bala perdida no bairro Areal, em janeiroFoto: Jerônimo Gonzalez / Especial

Na tarde de 17 de janeiro, Raul da Silva, 79 anos, caminhava com o neto, de sete anos, pelo loteamento Dunas, no bairro Areal. O avô e a criança se viram em meio a uma sequência de disparos, enquanto um carro perseguia outro. Um dos tiros acertou o abdômen do idoso, que tombou no chão, a poucos metros de casa.

O aposentado, que trabalhou como guarda municipal, morava com a filha, o neto e o genro. Após dormir um pouco durante aquela tarde, como rotineiramente fazia, levantou e saiu com o menino para ir até a casa do vizinho. Estava intrigado com a diferença entre os medidores do consumo de energia elétrica. A filha explicou que os aparelhos eram diferentes porque o do vizinho era um modelo mais atual. Insatisfeito com a explicação, Silva pegou o neto pela mão e foi conferir. Não retornou mais para casa:

— Quando ele estava voltando, aconteceu o tiroteio — conta a filha Eva da Silva, 46 anos, que estava em casa e ouviu os disparos.

Com medo, a filha não saiu de dentro da residência para conferir o que era. Só quando foi alertada pelos vizinhos, Eva correu e viu o pai ferido. O idoso chegou a ser socorrido, passou por cirurgia, mas morreu quatro dias depois.

— Nunca imaginaria que isso aconteceria com o meu pai — diz.

Além do idoso, duas jovens, de 18 e 20 anos, morreram vítimas de bala perdida. Mariana Crizel da Silva estava dentro de um carro, com o sogro e o namorado, no Areal, quando começaram disparos. Agata Esteves, 20 anos, foi atingida na cabeça ao ficar em meio a um tiroteio no bairro Três Vendas ao lado de outros amigos quando saíam de uma festa de aniversário. Os três crimes são investigados pela Polícia Civil, mas ainda não há suspeitos presos.

Após assalto, homem foi ferido e não pode mais andar

O roubo de um celular acabou deixando sequela gravíssima para Patrick Pires Alves, 34 anos. Na noite de 2 de abril, o motorista atendia uma corrida pelo Uber, quando foi surpreendido por dois assaltantes no bairro Três Vendas. Um dos criminosos atirou no pescoço do condutor. A bala perfurou a coluna e fez com que ele perdesse os movimentos do corpo do peito para baixo. A família precisou se mudar do apartamento no quinto andar onde vivia para a casa da mãe dele. Toda vez que precisa sair da moradia, necessita de ambulância.

Pai de dois filhos, de nove e seis anos, Alves trabalhou como taxista por dois anos. Com poucas corridas no serviço, decidiu alugar um carro e passar para o aplicativo. Além de conseguir rendimento mais alto, o motorista estava conseguindo ter mais tempo com da mulher e os filhos. A família estava otimista. Naquela segunda-feira, quando chegaram em casa depois de buscar as crianças no colégio, Alves entregou uma carta com declarações para a mulher.

— Em 12 anos de casamento, ele nunca tinha me escrito uma carta. Parece que estava pressentindo. Ele disse que não tava bem, que achava que não ia trabalhar. Disse pra ele não ir. Para ficar com a gente. Aí ele mudou de ideia, precisava pagar o aluguel do carro. Sabe quando a vida está te dizendo que vai acontecer algo e a gente não percebe? — conta Juliana Alves, 35 anos.

Para reunir recursos, especialmente para os tratamentos e exames necessários, a família tem se mobilizado com a venda de camisetas e realização de rifas. Eles também têm recebido doações.

— Ele trabalhava desde os 17 anos, sempre foi batalhador. Agora está revoltado com tudo isso. Não pode caminhar. Essa violência atingiu todo mundo. Pediram no colégio para o pequeno desenhar uma profissão e ele me desenhou cuidando do pai, na cama. É muito difícil.

Dois suspeitos, entre eles um adolescente, de 15 anos, foram identificados e capturados pela polícia.

Resultados em médio e longo prazo

Em agosto passado, a prefeitura de Pelotas lançou o Pacto pela Paz, conjunto de estratégias voltadas à redução da criminalidade. Além das atividades de repressão, o programa aposta nas ações preventivas, com projetos focados em jovens e nas famílias situadas nas áreas de maior vulnerabilidade.

— Começamos a cruzar informações e percebemos que, na maioria dos casos, o núcleo familiar está comprometido. Imagina uma criança que assiste ao pai bater na mãe, assiste aos pais consumindo drogas e que nem se importam se vai ou não à escola. Ninguém nasce bandido — afirma o secretário da Segurança, Aldo Ferreira.

O grupo procura identificar os casos em que alunos e famílias necessitam de atenção e os encaminha para tratamento de saúde, oficinas educativas ou oportunidades de estágio. Neste ano, por meio do projeto, devem ser oferecidas 600 vagas para estágios.

Mas Ferreira acredita que as medidas só terão efeito nos índices a médio e longo prazos:

— Às vezes, o poder público fecha as portas para o jovem, mas as portas do crime estão 24 horas abertas.

 Leia outras notícias do Diário Gaúcho  


 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros