A história de Gabriela, 18 anos, vítima de feminicídio na zona sul de Porto Alegre - Polícia

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Violência05/10/2018 | 19h12Atualizada em 05/10/2018 | 19h12

 A história de Gabriela, 18 anos, vítima de feminicídio na zona sul de Porto Alegre

O caso de jovem encontrada morta na quarta-feira (3) em motel no bairro Ipanema revela drama familiar

 A história de Gabriela, 18 anos, vítima de feminicídio na zona sul de Porto Alegre Hygino Vasconcellos/Agência RBS
Gerci mostra fotos da filha na casa em que viviam no bairro Restinga, no extremo sul de Porto Alegre Foto: Hygino Vasconcellos / Agência RBS

Já era noite quando Gabriela da Rosa Silva, 18 anos, saiu de casa na última terça-feira. Vestia legging preta, casaco de moletom e tênis branco “de marca”, recém comprado. Ainda brincou com o filho Davi, de seis meses, antes de deixar a casa simples da família no bairro Restinga, zona sul de Porto Alegre, acompanhada de uma amiga.

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Dois dias se passariam até a mãe dela receber uma ligação da polícia. Primeiro, questionaram se ela sabia quem seria o dono de um Santana vermelho – o carro foi usado pelo homem que matou sua filha. Depois, veio a notícia de que Gabriela foi encontrada sem vida dentro de um motel no dia anterior. A identificação da jovem havia sido confirmada pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP) após análise das digitais.

— Não acreditei — conta em lágrimas a mãe da jovem Gerci da Rosa, 52 anos.

Em seguida, correu para o Departamento Médico Legal (DML), onde confirmou o desfecho trágico.

— Foi muito triste vê-la naquela situação, toda machucada — lamentou a mãe,  na sexta-feira, ainda trêmula, após o enterro no Campo Santo da Santa Casa.

Ainda sem saber o que motivou o crime, a mãe relata que Gabriela era usuária de drogas desde os 11 anos. O pouco dinheiro que Gerci conseguia juntar com o trabalho de serviços gerais era gasto para pagar as nove internações da filha. Em seis oportunidades, ficou de 20 dias a um mês reclusa. Na última ocasião, passou três meses sob cuidados médicos.

Devido ao consumo de drogas, segundo a mãe, a jovem apresentava comportamento agressivo. Chegou inclusive a bater no ex-companheiro em um ataque de fúria, e decidiu terminar o relacionamento em maio deste ano. A jovem deixou o colégio e, conforme Gerci, parou na 5ª série.

“Minha pequeninha. Sei que não voltar”

Quando soube que a filha estava grávida, a mãe imaginou que Gabriela tomaria novo rumo. Mas, logo que a criança completou um mês, o laço materno com o menino ficou estremecido. Ela reclamava que seria trabalhoso cuidar do pequeno. A avó, preocupada, assumiu a responsabilidade. Com o dinheiro da pensão do pai, cerca de R$ 300, colocou o menino em um creche no período que trabalhava.

— Se falasse alguma coisa, ela gritava e dizia que já tinha 18 anos – lembra.

Segundo a polícia, a jovem tinha antecedentes por roubo e agressão. A família acrescenta que Gabriela chegou a ficar internada na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) pelos delitos.

Ainda desolada com a perda, a mãe da jovem não esconde a raiva com o autor do crime. Ao mexer em fotos de Gabriela quando criança, soluça:

– Minha pequeninha. Sei que não vai trazê-la de volta, mas queremos justiça. Quero ele atrás das grades.

Gabriela ainda deixa dois irmãos e o pai, que é separado da mãe.

Na Polícia Civil, análise de câmeras e depoimentos


A polícia apura a morte de Gabriela da Rosa Silva, 18 anos, como feminicídio – quando o assassinato de uma mulher é motivado por questões de gênero. O corpo da jovem foi encontrado na manhã de quarta-feira dentro de um quarto de motel na zona sul de Porto Alegre.

Conforme a delegada Tatiana Bastos, há duas circunstâncias que fortalecem a tese de feminicídio – basicamente relacionadas à dinâmica do crime. A primeira delas é violência sexual e física sofrida pela vítima – com lacerações e lesões pelo corpo. Tatiana observa que esses indícios eliminam a tese de uma possível ligação com o tráfico de entorpecentes – já que a mulher era usuária de drogas.

— Não é comum ter crime sexual em ocorrências ligadas ao tráfico de drogas. Neste caso, ela foi tratada de maneira vil (com desprezo) pela questão de gênero — salienta a delegada.

Além disso, a escolha do motel como local do crime reforça a hipótese de feminicídio. Segundo a delegada, o suspeito do assassinato pagou antecipado o pernoite, o que demonstra a disposição de permanecer no estabelecimento e revela que os dois se conheciam há tempos. A jovem morava com a mãe no bairro Restinga, na Zona Sul, e deixa um filho de seis meses com um ex-namorado. A família não tinha certeza se a jovem fazia programas.

— Não era uma coisa declarada, mas a família desconfiava. Não tinham muito controle — conta Tatiana.

A delegada obteve imagens de câmeras e está analisando o material. A intenção é descobrir a placa do veículo utilizado pelo assassino. Familiares, amigos e outras pessoas foram ouvidos pelos investigadores, mas é desconhecida a motivação do crime.

— Eles se conheciam e tinham algum tipo de relacionamento. Alguma coisa aconteceu para ela ser agredida dentro do motel, que ainda não sabemos.

 
 
 
 
 
 
 
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