Delegados explicam como funcionava esquema de policiais que cobravam para não prender suspeitos - Polícia

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Região Metropolitana01/11/2018 | 22h25

Delegados explicam como funcionava esquema de policiais que cobravam para não prender suspeitos

Investigação na delegacia de Canoas começou em 2016 após denúncias anônimas

Delegados explicam como funcionava esquema de policiais que cobravam para não prender suspeitos Emílio Pedroso/Agencia RBS
Casos ocorreram na Delegacia de Pronto Atendimento de Canoas Foto: Emílio Pedroso / Agencia RBS

Três servidores da Polícia Civil são investigados por cobrar de R$ 500 a R$ 5 mil para liberar suspeitos de crimes de serem presos em flagrante. Foram ao menos 10 casos que vieram à tona após denúncias anônimas e de vítimas, explica o titular da Corregedoria-Geral da Polícia (Cogepol), Marcos Meirelles.

Na quarta-feira (31), um comissário de polícia foi preso e um escrivão e um delegado foram afastados. Os nomes dos suspeitos não foram informados pela Cogepol. Também foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão.

Segundo as investigações, a exigência de valores teria ocorrido na Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) de Canoas, na Região Metropolitana, normalmente no momento que o suspeito estava na carceragem da unidade. As vítimas chegaram à delegacia por suspeita de envolvimento em crimes como receptação, roubo, tráfico de drogas e até a fatos atípicos.

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— Houve uma cobrança de valores de forma indevida de vítimas, de pessoas que foram apresentadas na delegacia, e que o caso foi resolvido sem que o flagrante fosse feito, quando deveria ter sido, ou quando o flagrante nem seria feito, mas ficou aquela ameaça de que a pessoa seria presa ou conduzida ao presídio — salienta Meirelles.

Para despistar, os três não atuariam em conjunto na hora de exigir dinheiro. Em um dos casos, uma das vítimas responderia por dois crimes e, com isso, sairia da delegacia presa. Caso fosse paga a propina, o suspeito responderia por apenas um crime e seria liberado com o pagamento de uma fiança superfaturada. Parte do dinheiro entrou nos cofres do Estado e o restante foi embolsado pelo grupo, conforme a corregedoria.

— Uma parte é paga para a fiança e a outra para a vantagem indevida — salienta o titular da Delegacia de Feitos Especiais, Antonio Lapis, que também atuou nas investigações.

Segundo Meirelles, "requisitos legais" não foram cumpridos nesses casos. As primeiras situações começaram a chegar aos ouvidos dos investigadores em 2016 e passaram a ser apuradas. Após as denúncias, uma equipe da Cogepol foi até a delegacia e analisou as ocorrências nas quais os três teriam registrado.

— Dessas ocorrências analisadas, destacamos casos que nos pareceram incorretos, fora do padrão. E aí fomos ouvir essas pessoas envolvidas e, em alguns casos, elas confirmaram que houve uma condução errônea, ilegal, incorreta dos fatos — explicou o delegado.

Questionado sobre a demora para os afastamentos e a prisão, Meirelles observou que não havia elementos suficientes para os pedidos e que houve um incidente novo neste ano, o que provocou as medidas.

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Sem dar detalhes, Lapis explicou que foi solicitada a prisão apenas do comissário por haver provas "robustas" e pela existência de uma situação mais recente.

— Toda investigação é sempre muito complexa e essa são uma dezena de fatos. Então, nós, como operadores dessa sistemática jurídica, essa parte de investigação, temos de ter uma análise subjetiva em relação a todo esse contexto.

Os três investigados ainda não foram ouvidos pela polícia, o que deve ocorrer nos próximos dias. Com a prisão preventiva do comissário, a Cogepol tem 10 dias para concluir a investigação. Denúncias podem ser feitas pelo telefone 0800-510-4669 ou pelo Whatsapp/Telegram (51) 98418-7814.

GaúchaZH conseguiu confirmar que o delegado investigado atua na corporação há 44 anos. Ele estava na DPPA havia pelo menos cinco anos. Os outros dois investigados estavam na unidade há pelo menos quatro anos.

 
 
 
 
 
 
 
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