"Problema de comunicação" faz governo homenagear policiais investigados por propina - Polícia

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Publicado no Diário Oficial30/11/2018 | 20h19Atualizada em 30/11/2018 | 20h19

"Problema de comunicação" faz governo homenagear policiais investigados por propina

 Renato Almeida Bejoso e Adalberto Azambuja Flores respondem por participação em esquema de telentrega de drogas

"Problema de comunicação" faz governo homenagear policiais investigados por propina Diário Oficial do Estado / Reprodução/Reprodução
Nomes dos dois investigados consta no Diário Oficial do Estado desta sexta Foto: Diário Oficial do Estado / Reprodução / Reprodução

Dois policiais investigados por suspeita de receberem propina de traficantes aparecem em uma lista de homenageados pelo governo gaúcho. Os nomes dos comissários Renato Almeida Bejoso e Adalberto Azambuja Flores constam no Diário Oficial do Estado (DOE) desta sexta-feira (30). 

Os dois foram investigados pela Corregedoria da Polícia Civil (Cogepol) e acabaram presos em agosto deste ano. Azambuja obteve habeas corpus e responde em liberdade. Já o outro segue detido. 

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O corregedor Marcos Meirelles classificou a situação como um "problema de comunicação", sem especificar em que momento isso aconteceu. A definição dos nomes a receber a medalha de mérito de investigação criminal foi decidida em reunião no Conselho de Administração Superior da Polícia Civil, em data não revelada, com a participação dos diretores dos departamentos.

Meirelles, que participou do encontro, explica que foram escolhidas as investigações mais relevantes. Na época, segundo o corregedor, já havia sido definida a retirada dos nomes de Azambuja e Bejoso da lista dos que receberiam a medalha.

— Ninguém pretendeu premiar dois policiais que estão sendo processados — salienta Meirelles. 

Em entrevista a GaúchaZH, o subchefe da Polícia Civil, Leonel Carivalli, observou que a votação dos trabalhos ocorreu antes da prisão dos dois comissários, ocorridas em agosto deste ano. 

— Na época, eles não tinham situação criminal de hoje. 

O delegado observou que a corporação, ao identificar a homenagem equivocada na manhã desta sexta, pediu à Casa Civil que fosse feita a correção. 

— A Polícia Civil não quer e não vai homenagear os dois — salientou o subchefe.

No fim da tarde, o Diário Oficial do Estado foi republicado, sem os nomes de Bejoso e Flores entre os homenageados.

Telentrega de drogas

Os dois policiais são investigados por participação em um esquema de telentrega de drogas para frequentadores de "médio e alto poder aquisitivo" de bares da Cidade Baixa e Moinhos de Vento. O Ministério Público (MP) apresentou denúncia contra os dois, que acabaram virando réus no final de outubro. 

O sistema de telentrega de drogas tinha cadastrado 6,4 mil clientes. Os pedidos vinham por Whatsapp e as entregas eram feitas por motoboys. 

Segundo denúncia do MP, Bejoso teria recebido por mês entre R$ 3 mil a R$ 5 mil do tráfico de drogas, entre 2015 e março de 2018.  Como contrapartida, faria "vistas grossas" para o telentrega de drogas. 

"Em razão dos pagamentos, o denunciado repassava informações acerca das investigações, informava antecipadamente sobre diligências policiais que seriam realizadas, informava acerca de equipes responsáveis por determinadas investigações (inclusive sobre a viabilidade de com ela negociar a não evolução da investigação), barrava investigações, evitava prisões, e, ainda, repassava informações quanto a atuação de concorrentes ou de pessoas que lhe prejudicaram a associação de modo a que fossem investigados ou presos", detalha a denúncia. 

Além disso, foram encontradas drogas no carro de Bejoso e uma pistola escondida em um compartimento oculto. No mesmo dia, também foi localizada outra pistola em um  veículo discreto utilizado pelo policial.

Azambuja é apontado, junto com Bejoso, por exigir dinheiro de dois homens para evitar que fossem presos.  Deles foi exigido entre R$ 80 mil a R$ 100 mil para "morrer a investigação" e um pagamento mensal de R$ 5 mil. Segundo a denúncia, os valores acabaram não sendo pagos.

Contrapontos

Arima da Cunha Pires, advogada de Renato Almeida Bejoso, afirma que a homenagem prestada pelo governo gaúcho comprova que seu cliente sempre foi uma pessoa correta e dedicada ao serviço público, e que,  até que se prove o contrário, Bejoso é inocente. 

—  Ele não foi condenado, está respondendo aos processos. Desde o primeiro momento em que eu falei com a imprensa, expliquei que o meu cliente é uma pessoa que dedicou 25 anos ao serviço público. Esta homenagem reforça a minha colocação, e demonstra que, independentemente de ele estar sendo processado agora, era um dos melhores policiais que a Polícia Civil tinha — disse.

Marcilene Novo, advogada de Adalberto Azambuja Flores, afirma que a homenagem é justa, pois há mais de 30 anos seu cliente presta serviços à segurança pública (primeiramente como policial militar e depois como policial civil).


 
 
 
 
 
 
 
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