Entenda o golpe do empréstimo, que teria lesado servidores federais no RS - Polícia

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Estelionato22/10/2019 | 17h51

Entenda o golpe do empréstimo, que teria lesado servidores federais no RS

Uma das quatro empresas investigadas tem escritório em Porto Alegre

Entenda o golpe do empréstimo, que teria lesado servidores federais no RS Mateus Bruxel/Agencia RBS
Mulher fez empréstimo de R$ 85 mil Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Alvo de uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro em 10 de outubro, um grupo envolvido em crimes de estelionato e lavagem de dinheiro em quatro Estados — Rio de Janeiro, Maranhão, Brasília e São Paulo —, também teria feito vítimas no Rio Grande do Sul. Uma das quatro empresas investigadas, a Fenix Assistência Pessoal, tem escritório na Capital e teria, segundo a polícia gaúcha, lesado principalmente servidores federais do Estado. O colunista Tulio Milman adiantou na semana passada que pelo menos 30 moradores do RS teriam sido vítimas da fraude. 

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A investigação apurou que servidores seriam convencidos a fazer empréstimos consignados e entregar a maior parte do valor à empresa — as vítimas ficariam com 10% a 20% da quantia. Em troca, as instituições ofereciam a quitação das parcelas. Argumentavam que investiriam em agronegócio. 

No Rio, a investigação foi feita pelo Departamento Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil do RJ e culminou na Operação Queóps, deflagrada no dia 10. A ação cumpriu seis mandados de prisão temporária e 36 de busca e apreensão nos quatro estados. 

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Operação da Polícia Civil do Rio ocorreu no dia 10 de outubroFoto: Divulgação / Polícia Civil do Rio de Janeiro

Depois da ofensiva, que teve repercussão nacional, moradores do Estado passaram a procurar a Polícia Civil do RS. Até aquele momento, as autoridades de segurança gaúchas não tinham conhecimento que o esquema estaria ocorrendo também em Porto Alegre. Na semana passada, com o acúmulo de ocorrências policiais, um inquérito foi aberto pela Delegacia de Polícia de Proteção ao Consumidor (Decon).

Em dois anos, o grupo teria movimentado R$ 50 milhões, conforme dados do Conselho de Controle de Atividade Financeira (Coaf). Não há informações específicas de quanto o golpe teria movimentado no Rio Grande do Sul. São investigadas as empresas Gold Assistência Pessoal, RC Assistência Pessoal, Reali Promotora Assistência Pessoal e Fenix — esta última teria feito vítimas no RS, conforme o titular da Decon, o delegado Joel Wagner . Os servidores públicos seriam atraídos por telefone, redes sociais ou visitas ao seu local de trabalho. 

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Sede da Fenix no Rio de JaneiroFoto: Divulgação / Polícia Civil do Rio de Janeiro

Segundo o delegado que comandou a investigação no Rio, Aloysio Falcão, os alvos preferenciais do grupo eram servidores públicos, militares e pensionistas.

— Argumentavam que iam quitar todas as parcelas da dívida e que administrariam o crédito daquela pessoa. Trabalhavam chamando vítimas para transferir valores de empréstimos para eles. E as próprias vítimas chamavam outras vítimas — explica Falcão.

O delegado da Polícia Civil do RJ explica que as empresas diriam para as vítimas que tinham diversos investimento no mercado e utilizariam seu crédito principalmente na área do agronegócio. A investigação mostrou, porém, que o grupo utilizaria os valores para manter vida de luxo. A operação investiga crimes de estelionato, lavagem de dinheiro, crime organizado e o crime contra a economia popular.

Gabriel Almeida Piquet de Oliveira e Roniel Cardoso dos Santos, os dois principais alvos da operação no Rio, chegaram a ser presos temporariamente, mas já estão em liberdade. Santos seria proprietário da Gold Assistência Pessoal e Oliveira, da Fenix Assistência Pessoal. Bens, imóveis e valores foram bloqueados pela Justiça.

O delegado gaúcho explica que vítimas lesadas pelo grupo devem procurar a Polícia Civil. Não é preciso ir até a Delegacia do Consumidor (Avenida das Indústrias, 915, em Porto Alegre), já que o registro da ocorrência pode ser feito na delegacia mais próxima. Wagner orienta que as pessoas informem a existência de um inquérito já aberto na Decon.

Contraponto

Em depoimento à Polícia Civil do RJ, ao qual GaúchaZH teve acesso, Oliveira confirmou ser sócio da Fenix, mas disse que não participava das negociações com os clientes, sendo responsável pela parte administrativa da empresa. Disse que Santos era seu sócio, ainda que não conste na documentação, e que ele era o responsável pela captação de clientes. Por fim, afirmou que Santos abriu a Gold — também investigada — meses depois. A reportagem não conseguiu contato com Santos.

 "Estou decepcionada ",  desabafa vítima

Em junho deste ano, uma funcionária pública de Porto Alegre passou a receber ligações de agentes financeiros da Fenix. Segundo ela, diziam saber que ela tinha dois empréstimos em bancos diferentes, afirmavam saber o valor da parcela e quanto tempo restava para que ela quitasse a dívida.

— Inicialmente, ofereceram portabilidade para diminuição dos juros aplicados nesses dois empréstimos. Não me interessei porque são dois empréstimos de valores baixos — conta a mulher, que pediu para não ser identificada.

As tentativas persistiram e, de acordo com a servidora, a Fenix passou a argumentar que  poderia acelerar a quitação das duas dívidas. Na quinta ligação, a funcionária pública decidiu ir até a sede da Fenix, no bairro Moinhos de Vento.

— Cheguei lá e era um escritório grande, moderno. As pessoas estavam todas uniformizadas, tudo era bem equipado. Não levantava suspeita. Foi então que disseram que trabalhavam com diversos investimentos financeiros e me apresentaram a parceria rentável — conta a mulher.

Por envolver funcionária pública com boa margem de crédito, a proposta consistia em aplicar valores em investimentos como o agronegócio. Seduzida pela ideia, retirou R$ 85 mil em empréstimo e ficou com 10% do valor. A dívida foi parcelada em 96 vezes de R$ 2.140 — totalizando mais de R$ 205 mil. O valor da parcela compromete 35% da sua renda mensal.

— Eles já vêm com a proposta pronta. Me disseram que pagariam todas as parcelas e no 12º mês quitariam a dívida junto ao banco. Mas eu não tinha o direito de saber onde o valor foi investido e nem o retorno que esta aplicação trouxe — conta.

A servidora pesquisou a respeito da idoneidade da empresa e, como não encontrou indícios que levantassem suspeitas, o empréstimo foi efetivado em julho. Nos dois primeiros meses, as parcelas foram depositadas sem atraso. A partir do final de setembro, quando deveria ser paga a terceira parte, o dinheiro não chegou. No começo de outubro, já não conseguia mais contato com os canais de comunicação da Fenix e, segundo ela, a sede da empresa na Capital estava fechada.

Quando viu a notícia da operação no Rio de Janeiro, procurou a Polícia Civil em Porto Alegre. Também entrou com ação na Justiça Estadual pedindo a suspensão do desconto das parcelas do empréstimo.

— Fiz a pior escolha que poderia ter feito. Me senti um fracasso. Sou desconfiada de tudo e caí nesse negócio. Foi a pior sensação que já tive na vida quando me dei conta que tinha caído em um golpe. Estou decepcionada comigo mesma por ter me deixado enganar desse jeito — lamenta.

Veja aqui os relatos de outras vítimas do golpe

Como funcionaria o esquema, segundo a Polícia Civil

— O servidor público seria cooptado por agentes financeiros da empresa Fenix que o convenceriam a contrair um empréstimo em um banco de sua escolha.

— A proposta era a seguinte: o servidor faria o empréstimo na instituição financeira e entregaria o valor à Fenix, podendo ficar com 10% da quantia total, normalmente, entregue no ato. Se fosse retirado R$ 30 mil de crédito, por exemplo, o servidor teria R$ 3 mil.

— A alegação aos servidores era de que, segundo a polícia, a empresa investia no agronegócio e obtinha lucro alto. Com isso, os valores contratados junto aos bancos, que seriam parcelados em 96 vezes com desconto em folha, seriam pagos, conforme a Fenix, em até 12 vezes.

— Segundo o relato das vítimas gaúchas, a Fenix quitou entre uma e duas parcelas e depois deixou de depositar o valor.

— Os servidores, então, procuraram a polícia no Rio de Janeiro, Maranhão, Brasília, São Paulo; e Rio Grande do Sul.

 
 
 
 
 
 
 
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