"Diziam que eu iria sangrar até morrer", relembra angolano baleado em abordagem policial em Gravataí - Polícia

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Região Metropolitana02/06/2020 | 10h18

"Diziam que eu iria sangrar até morrer", relembra angolano baleado em abordagem policial em Gravataí

Imigrante de 26 anos passava férias no Estado quando ele e moradora de Cachoeirinha foram feridos a tiros após perseguição da BM. Ele ficou preso por 12 dias

"Diziam que eu iria sangrar até morrer", relembra angolano baleado em abordagem policial em Gravataí Januário Gonçalves/Arquivo pessoal
No primeiro final de semana após a liberdade, Gilberto comeu churrasco e funge, prato típico de Angola Foto: Januário Gonçalves / Arquivo pessoal

Técnico em radiologia, trabalhador radicado na cidade de Anápolis, em Goiás, e aprovado para cursar mestrado em Portugal, o angolano Gilberto Andrade de Casta Almeida, 26 anos, estava curtindo férias no Rio Grande do Sul com a amiga Dorildes Laurindo, 56, que reside em Cachoeirinha. 

Eles voltavam de uma viagem ao litoral gaúcho, onde foram ver o mar, quando o motorista de aplicativo que os transportava - Luiz Carlos Pail Junior, foragido da Justiça por tentativa de feminicídio - furou um semáforo vermelho e passou a ser perseguido por viatura do 17º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Quando o motorista abandonou o carro, tentou fugir a pé, mas foi capturado. 

Gilberto e Dorildes permaneceram no veículo, mas, antes que pudessem explicar que eram passageiros, foram baleados. A mulher está internada na UTI, enquanto o angolano passou 12 dias na Penitenciária Estadual de Canoas. O delegado Eduardo Limberger do Amaral concluiu que Gilberto não estava armado - um revólver foi encontrado no veículo - e que ele não revidou à abordagem. Confira abaixo o relato do drama do imigrante, que se recupera em Porto Alegre, na residência de um compatriota.

Como foi o primeiro final de semana de liberdade após a prisão?

Está sendo um momento de muita felicidade. Liberdade não tem preço, ainda mais quando se é inocente. Na sexta-feira (29), quando a advogada foi falar comigo no parlatório, ela disse que tinha ido me buscar e que estavam me esperando do lado de fora o presidente da Associação dos Angolanos, a família da Dora (Dorildes Laurindo, amiga) e a imprensa. Aí eu me senti mais acolhido. Neste momento, estou recebendo assistência da Associação dos Angolanos no Rio Grande do Sul. Foi um final de semana muito bom. Pude sorrir de novo e até fizemos churrasco. Comi também uma comida da minha terra, chamada funge, é tipo uma polenta.

Foram 12 dias na prisão em Canoas. Como passaram teu coração e tua cabeça naqueles momentos?

Foi um sentimento de muita tristeza. Como todo mundo já sabe, eu era inocente. E um sentimento de revolta também, de dor. Muita pressão psicológica. Coisas terríveis, muito ruins.

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Veículo em que estavam as vítimas e o foragido da JustiçaFoto: Polícia Civil / Divulgação

Na prisão, você ficou isolado ou junto de outros detentos?

Quando saí do hospital, primeiro fui para a Delegacia de Polícia de Gravataí. Aí eu fiquei sozinho em uma cela. Era uma cela muita imunda. Se fazia tudo ali, as necessidades fisiológicas, comer e dormir. Era chão de concreto. Foi muito doloroso. Depois entrou mais um preso nessa cela da DP. Na segunda-feira (18) pela manhã, me transferiram para o presídio de Canoas. Lá eu estava com um outro preso, mas já tinha cama pelo menos.

Te fizeram alguma agressão física ou psicológica na prisão?

A humilhação que eu tive foi quando eu disse que era inocente. Todo mundo ficou debochando. "Na cadeia, todo mundo é inocente. É sempre assim." Foi a parte mais humilhante. Todo mundo rindo, dando gargalhada. Isso foi quando eu entrei em Canoas (no presídio).

Quem debochou foram outros presos ou agentes penitenciários?

Foram agentes.

Como está a sua condição de saúde?

Ainda estou com uma bala alojada no joelho, os médicos disseram que não se pode tirar porque está perto da medula. E tem outra bala alojada na bacia, que também não se pode tirar. As outras duas balas entraram e saíram, a da coxa e a da mão. Foram quatro tiros.

Em que momento você foi ao hospital?

Eu fui no hospital depois dos disparos. Quando eu gritei que era inocente, eles chamaram a ambulância. Me levaram ao hospital na mesma noite. A minha saúde agora está estável, estou em processo de recuperação. Fiz uma cirurgia no joelho e, depois que o médico deu alta, fui levado para a Delegacia de Polícia.

Você voltava do litoral gaúcho com a sua amiga, a Dorildes, com um motorista de aplicativo, certo?

Estávamos fazendo turismo, fomos em Tramandaí, na casa do irmão dela. A gente foi para eu conhecer a praia. Na volta, infelizmente, houve tudo isso.

O que aconteceu? A polícia abordou o carro? O motorista passou algum semáforo fechado?

Eu estava no banco de trás e só vi que, de repente, ele mudou a velocidade, começou a acelerar muito mesmo. Chegou a 160 km/h, 180 km/h. Eu achei, no primeiro momento, que era um sequestro. Eu não ouvia nenhum barulho de perseguição policial. Fiquei apavorado, gritava que era inocente, que não tinha feito nada. Eu disse: "Eu vim de férias, não tenho nada, só tenho esse dinheiro para te pagar". Aí ele (motorista) falava: "Fica calmo. Fica calmo. Eles estão vindo aí". Ele só dizia isso. Passamos de Cachoeirinha e, já em Gravataí, ele começou a andar pelos bairros. Em uma curva, parou o carro e se colocou em fuga (a pé). Quando descemos do carro, assim que botamos o pé fora, começaram muitos disparos. Foram vários disparos. Foi terrível.

Houve tempo para que vocês falassem algo aos policiais?

Eles atiraram. Quando eu vi que estava ferido, já caído, eu comecei a gritar que era inocente, estrangeiro, que não havia feito nada de errado. E eles diziam: "Tu vai sangrar até morrer. Capeta. Exu do caralho.'

Depois de baleado eles te gritaram essas coisas?  

Sim, depois de ferido. Me algemaram, deram chute na cara. E diziam que eu iria sangrar até morrer.

Em algum momento te perguntaram o motivo de estar ali e o que havia acontecido?

Não, em nenhum momento. Eles chegaram atirando. A Dorildes, depois que levou o tiro, a única coisa que eu lembro é de ela ter dito que haviam matado uma inocente. Ela caiu e não reagiu mais. Mesmo comigo ferido, começaram os chutes.

Na Delegacia de Polícia, te questionaram sobre os fatos?

Eu só fui saber que estava preso através da advogada. Ela disse que eu estava preso. Foi aí que eu comecei a chorar. Tinha uma delegada da Polícia Civil, ela perguntou a minha versão. Eu contei, mas minha advogada informou que eu estava preso.

Você acha que os fatos podem ter sido motivados por racismo e xenofobia?

Não acredito. A mulher que estava comigo não é negra, é branca. Ela precisa de orações neste momento porque está na UTI. Não acho que tenha sido racismo.

Já havia sofrido outros episódios de violência no Brasil?

Desse jeito, foi a primeira vez.

Quais teus planos agora? Seguirá no Brasil, em Goiânia, ou pretende ir embora?

Eu estava aqui de férias. Vou voltar para Goiás e seguir a vida. Eu passei para um mestrado em Portugal e as aulas começam em setembro. Vamos ver se até lá eu consigo me recuperar do joelho para ir estudar em Portugal. Isso já estava previsto antes.

Você quer dizer mais alguma coisa?

Quero agradecer a Deus, agradecer o trabalho da minha advogada e da Associação dos Angolanos. Quero agradecer a imprensa também. Estou recebendo solidariedade do povo gaúcho. Estou muito grato.

CONTRAPONTO

O comandante do 17º Batalhão da Polícia Militar, major Luís Felipe Neves Moreira, afirmou, em entrevista à Rádio Gaúcha, que até a conclusão do inquérito policial militar prefere não se manifestar para ser o "mais correto e mais imparcial possível". "Se houve erro, vai ser apurado. Se não houve, também", afirmou o major. Ainda segundo ele, foram disparados 35 tiros pelos três policiais militares que atuaram na ação.

 
 
 
 
 
 
 
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