O que está por trás da alta nos homicídios e na queda dos feminicídios em maio no RS - Polícia

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Indicadores de criminalidade11/06/2020 | 09h24

O que está por trás da alta nos homicídios e na queda dos feminicídios em maio no RS

Autoridades da segurança pública apontam mercado mais enxuto para o tráfico de drogas como um dos motivos para aumento nos assassinatos 

O que está por trás da alta nos homicídios e na queda dos feminicídios em maio no RS Lauro Alves/Agencia RBS
Casa onde corpo de Rafael Mateus Winques, uma das vítimas de homicídios em maio, foi encontrado. Mãe está presa Foto: Lauro Alves / Agencia RBS
Leticia Mendes

Divulgados nesta quarta-feira (10), os indicadores da criminalidade no RS em maio — segundo mês desde o início das restrições para conter o coronavírus — evidenciam a equação que policiais buscam decifrar diariamente. Se por um lado há menos pessoas nas ruas, o que possibilita que roubos, furtos e latrocínios sejam combatidos com maior veemência como demonstram os dados em queda, por outro, os homicídios não são freados por esse fator. O acirramento entre criminosos que disputam o tráfico de drogas, num mercado mais enxuto, é um dos cenários que, na ótica da segurança pública, impulsiona os assassinatos. Em contrapartida, o quinto mês do ano traz, ao contrário dos anteriores, redução em outro crime que alarma autoridades especialmente durante o distanciamento social: os feminicídios.

Mesmo antes do início das medidas restritivas, as organizações envolvidas no combate à violência doméstica já alertavam para o risco de esse tipo de delito crescer durante a pandemia. Isso porque a vítima pode ter mais receio de denunciar o crime, por ficar isolada com o agressor. No Estado, os assassinatos de mulheres em contexto de gênero já vinham em elevação desde o começo do ano. Em abril, quando o aumento foi de 66%, em média uma mulher foi assassinada a cada três dias no RS. 

Para maio, ações foram reforçadas como maior divulgação de locais onde pedir ajuda, registro online dos crimes, incentivo de denúncias por parte de vizinhos ou amigos das vítimas por WhatsApp — já que nem sempre a mulher consegue pedir socorro ou compreender a violência na qual está inserida — e incremento de campanhas, tanto do governo como de organizações independentes. O assunto passou a ser mais debatido. 

É impossível mensurar estatisticamente crimes evitados, mas os dados de maio divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado indicam que as ações surtiram efeito. Foram registrados seis feminicídios, número 45% menor do que os 11 do mesmo período do ano passado. Por outro lado, no acumulado do ano o número ainda é superior a 2019 — foram 43 feminicídios em 2020 em comparação com 32 de maio do ano passado. As tentativas de assassinar mulheres aumentaram de 31 para 37.

Nessa quarta-feira (10), um jovem de 19 anos foi preso em Rio Grande, por suspeita de ter assassinado a golpes de pá a mãe e a sobrinha de 10 meses. As estatísticas e a realidade cruel indicam, conforme reconhece a chefe da Polícia Civil, Nadine Anflor, que não se deve baixar a guarda. 

— As pessoas estão se engajando mais. Vizinhos, parentes, estão denunciando casos de violência doméstica. Mas essa redução não nos faz relaxar. Não estamos satisfeitos. O dia a dia nos mostra isso. O combate aos feminicídios tem de ser prioridade. Especialmente nesse momento que estamos vivendo, onde as pessoas convivem mais, há muitas incertezas e os ânimos estão mais acirrados — afirma. 

Os crimes envolvendo relações familiares são apontados pela delegada como um dos desafios nesse cenário de distanciamento. Foi no mês de maio que um homicídio estarreceu o RS. O menino Rafael Mateus Winques, 11 anos, foi assassinado em Planalto, no norte do RS. Dez dias após comunicar o sumiço do filho à polícia, a mãe Alexandra Dougokenski, 32 anos, confessou ter matado a criança e apontou o local onde estava o corpo — na garagem da residência ao lado da casa da família.  A mulher alega ter exagerado na dose de uma medicação, mas o caso ainda é investigado. Ela está presa e a polícia apura se há envolvimento de mais pessoas no crime. 

Tráfico de drogas

Mas o pano de fundo da maioria dos assassinatos ocorridos no Estado, segundo a polícia, é bem distinto dessa trama. O tráfico de drogas é considerado principal motivador para os homicídios. E também é impactado, de certa forma, pelas medidas restritivas. Na análise das polícias, a menor circulação de pessoas reduz o consumo de entorpecentes. Num mundo onde impera a violência, o mercado é disputado a bala e as dívidas não são perdoadas. 

— Os assaltos caíram, e muito do que do que é roubado acaba servindo de moeda de troca para a droga. Sem roubar, muitos não conseguem quitar as dívidas. E para isso o tráfico tem uma lei que é a pena de morte. Temos monitorado e feito operações nessas áreas onde há registro de homicídios. E também as apreensões de carregamentos de drogas pelas polícias em geral. Isso acaba gerando atrito dentro das organizações criminosas — avalia o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Rodrigo Mohr Picon.

Aliado a isso, a soltura de presos, segundo recomendações do Conselho Nacional de Justiça — devido ao risco de contaminação por coronavírus — é apontada como fator que incrementa as estatísticas.  Fora das prisões, segundo levantamento da SSP, de março até o final de maio, 40 detentos que ganharam liberdade foram mortos. O número representa alta de 90% sobre os 21 detentos que foram soltos e assassinados no mesmo período de 2019. Das 154 vítimas de homicídio no RS em maio, 13 foram pessoas que ganharam liberdade —8% dos assassinatos no RS. Sem essas mortes, o número de homicídios seria inferior aos 145 do mesmo período do ano passado.  

Roubos

A tendência de redução dos crimes patrimoniais já vinha sendo percebida em abril, quando delitos como assaltos caíram pela metade, e se confirmou em maio. Os roubos tiveram 3 mil registros a menos do que no mesmo período de 2019 _ de 6.273 casos para 3.202 _ queda de 49%. Roubos e furtos de veículos, assim como ataques a bancos, também seguem com redução. 

— Claro que a menor circulação de pessoas nas ruas impacta nisso, mas também o trabalho das polícias. Se não houvesse ação policial, teríamos onda de saques e assalto em comércios que estão funcionando. Era algo que acreditávamos que poderia acontecer e nos preparamos para isso — pontua Nadine.  

 
 
 
 
 
 
 
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