Auxiliar morto ao acudir menina atropelada era apaixonado por futebol, treinou crianças em bairros carentes e seria pai do quarto filho   - Polícia

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Brutalidade em Rio Grande27/07/2020 | 15h43Atualizada em 27/07/2020 | 15h43

Auxiliar morto ao acudir menina atropelada era apaixonado por futebol, treinou crianças em bairros carentes e seria pai do quarto filho  

Marcio André da Conceição Loureiro, 41 anos, estava na carona de caminhão que atingiu a garota, desceu para prestar socorro, foi espancado e executado a tiros

Auxiliar morto ao acudir menina atropelada era apaixonado por futebol, treinou crianças em bairros carentes e seria pai do quarto filho   Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Marcio André da Conceição Loureiro, 41 anos Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Leticia Mendes

Marcio André da Conceição Loureiro, 41 anos, cresceu em uma casa simples no bairro Recreio, em Rio Grande, no sul do Estado. Inquieto com o futuro de crianças nascidas em comunidades carentes, passou a dar aulas para os interessados em aprender futebol, esporte pelo qual era apaixonado. Acreditava que seria a forma de protegê-las do cerco da criminalidade.

Na tarde da última quarta-feira (22), enquanto trabalhava como auxiliar em um caminhão de gás, foi sentenciado à morte pela violência que tentava evitar para os outros. O veículo onde estava na carona atropelou uma menina. Ao descer para prestar socorro, foi cercado, espancado e morto a tiros. O irmão da criança foi preso e confessou os disparos.

Loureiro trabalhava esporadicamente para a empresa que comercializa gás. Naquele dia, foi chamado para auxiliar a levar o carregamento para um depósito no bairro Getúlio Vargas. Deixou em casa, no bairro Recreio, a esposa grávida de sete meses e a filha de dois anos — ele era pai de mais dois jovens frutos do casamento anterior. Ansioso para a chegada da segunda menina, conversava com a criança e beijava a barriga da companheira.

— Quando começou na vida de futebol, o sonho era ser jogador. Queria ir para o Inter. Só que nem todos os sonhos de guri se realizam. Agora ele queria tudo para a família. Amava a esposa e os filhos. Fazia planos para a família. Não fazia nada sem ela, nem ela sem ele. Eram unidos demais. Ele estava feliz — descreve a irmã Mara Regina da Conceição Rodrigues, 48 anos.

Naquela tarde, Mara enviou uma mensagem ao irmão, perguntando se ele estava trabalhando, mas não houve tempo para ele responder. Loureiro seguia na carona do caminhão quando ingressaram na Rua Dom Pedro II. De bicicleta, uma menina de sete anos surgiu em frente ao veículo e foi atingida. O auxiliar desembarcou para acudir a garota, enquanto o condutor foi até um comércio próximo pedir ajuda. Quando estava ao lado da criança, Loureiro foi cercado pela comunidade enfurecida. Pedras passaram a ser arremessadas contra o caminhão, que teve os vidros estilhaçados. Na sequência, o auxiliar começou a ser espancado e correu pela rua, apavorado. No trajeto, tombou alvejado por três disparos de arma de fogo.

— Ninguém teria que morrer por uma situação dessas. E se alguém não tinha nada a ver mesmo era o auxiliar, que estava na carona. Ele e o motorista fizeram a coisa certa, pararam para prestar socorro. Mas terminou nessa tragédia. É toda uma situação muito triste, desproporcional — descreve o delegado Maiquel Fonseca, que apura o caso.

Trajetória

Assim como o pai, Loureiro trabalhou por anos como auxiliar de serviços urbanos no caminhão de recolhimento de lixo e na limpeza de ruas de Rio Grande. Quando deixou a função, passou a se empregar em empregos informais. Foi nesse período que se dedicou mais aos treinos em times amadores de futebol e também a trabalhar com projetos envolvendo crianças no município.

— A vida dele era o futebol. E tinha medo que as crianças se envolvessem com drogas e com o crime. Era algo com o qual ele se preocupava. Por isso, ia atrás, convidava para jogar — recorda Mara.

Marcio André da Conceição Loureiro, 41 anos, foi morto a tirosa em Rio Grande após acidente de trânsito. Na foto, com o time que treinava. <!-- NICAID(14552792) -->
Loureiro durante os jogosFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

O primo Edemilson Loureiro Madruga, 40 anos, recorda que os dois jogaram juntos muitas vezes em times de futebol amador. A convite dele, Loureiro passou a integrar o Sabotage, equipe dos bairros Recreio e São João, onde atuava como meio-campo. Em 2015, passou a treinar a equipe, com a qual conquistou série de troféus em campeonatos pela cidade. Por conta da pandemia, o time não tem se reunido mais nos últimos meses, mas a relação entre os integrantes seguia.

— Tínhamos um laço muito forte de amizade, dentro e fora do campo. Ele era muito ligado no futebol. Tanto que começou a treinar a criançada. Tirava os meninos da rua para ensinar a jogar. Não é só o time, todo mundo, nossa vizinhança, família, ninguém acredita. É muito difícil da gente entender. Ele era uma pessoa que não fazia mal a ninguém. Acontecer uma barbárie, uma selvageria dessas. É muito triste — desabafa.  

— Mesmo que não estivesse envolvido, do jeito que ele era, teria parado para ajudar. Ele queria ajudar e ficou do lado da menina. Ele queria ajudar de alguma forma. Sempre fez isso com todo mundo. Era um guri muito bom, família, carinhoso, emotivo. Amigo de todo mundo. Tenho certeza que nem pensou em alguma consequência. Foi espancado, apedrejado. Uma brutalidade. Uma tragédia que deixa todo mundo chocado, com raiva. Nada justifica toda essa violência — completa Mara.

O crime

O irmão da criança, um rapaz de 18 anos, foi preso em flagrante no local do crime _ a prisão dele foi convertida em preventiva nesta quinta-feira (23). Em depoimento à polícia, ele confessou ter atirado contra Loureiro e alegou que se descontrolou ao pensar que a irmã estava morta porque ela estava imóvel. A menina foi socorrida, segue internada, em estado estável. 

— Não teve tempo de reação. Ele (Loureiro) foi cercado, espancado e atingido por esses disparos. Estava ali perto, olhando a menina, que graças a Deus está bem. O irmão da menina já estaria armado, segundo informações que obtivemos. O motorista viu o tumulto e foi até a casa de um amigo pedir ajuda. Quando ouviu os disparos, saiu correndo — descreve o delegado Maiquel Fonseca.

Sobre a arma usada no crime, que seria um revólver de calibre ainda não identificado, o preso afirmou que se desfez. A origem é apurada, assim como o local do descarte. Com histórico de envolvimento com tráfico de drogas e homicídio, o autor confesso chegou a ser internado para cumprir medida socioeducativa quando adolescente, mas atualmente estava em liberdade. O nome do preso não foi divulgado pela polícia em razão da Lei de Abuso de Autoridade.

A polícia apura a participação de outras pessoas no crime, especialmente nas agressões contra a vítima, mas enfrenta a dificuldade de obter depoimento em uma comunidade conflagrada pelo tráfico de drogas. Também é averiguado o saque ao caminhão. Após o assassinato, a carga que estava no veículo foi levada por moradores e a cena de pessoas carregando os botijões foi gravada em imagens que circulam nas redes sociais e são analisadas pela polícia. No dia do crime, os policiais estiveram no local e tentaram localizar câmeras de segurança, mas nenhuma foi encontrada.

O condutor do caminhão se apresentou na polícia e relatou que foi ele quem atropelou a criança. O inquérito pela lesão corporal também está em andamento.

 
 
 
 
 
 
 
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