"Não me sinto responsável porque não atentei contra a vida de ninguém", diz motorista alvo da polícia em abordagem na qual morreu costureira  - Polícia

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Entrevista19/10/2020 | 08h00

"Não me sinto responsável porque não atentei contra a vida de ninguém", diz motorista alvo da polícia em abordagem na qual morreu costureira 

Luiz Carlos Pail Júnior tinha contra si mandado de prisão e fugiu após abordagem policial que terminou com a morte de uma mulher e um homem preso injustamente e ferido a tiro

"Não me sinto responsável porque não atentei contra a vida de ninguém", diz motorista alvo da polícia em abordagem na qual morreu costureira  Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Luiz Carlos Pail Júnior, 31 anos, dirigia o carro em que estavam o angolano Gilberto Andrade da Casta Almeida e a costureira Dorildes Laurindo, na noite de 17 de maio. Os dois retornavam de um passeio a Nova Tramandaí.

Ele tinha contra si um mandado de prisão por suspeita de tentativa de feminicídio. Ele estava foragido e usava nome falso no cadastro do aplicativo de transporte pelo qual o contato foi realizado. Quando viu que policiais militares perseguiam o carro, em Cachoeirinha, decidiu fugir. Luiz Carlos havia cumprido pena por tráfico de drogas entre 2009 e 2013. Diz que decidiu fugir naquela noite porque não queria ser preso novamente.

A perseguição acabou em Gravataí. Enquanto ele escapava a pé, Gilberto e Dorildes eram baleados por PMs. A investigação apontou que os policiais atiraram 34 vezes em direção aos dois. Gilberto, ferido, ficou preso por 12 dias. Dorildes morreu depois de 16 dias de internação. Luiz Carlos foi preso e agora responde em liberdade.

Em setembro, a 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Gravataí denunciou ele por três tentativas de homicídio contra os policiais, porte ilegal de arma de fogo, desobediência e falsa identidade. Para o Ministério Público (MP), Luiz Carlos atirou contra os PMs e isso teria motivado a reação dos policiais. Luiz Carlos nega ter atirado, diz lamentar o que aconteceu e afirma não se sentir responsável. A apuração sobre eventuais transgressões cometidas pelos policiais ficarão a cargo promotoria militar.

Confira trechos da entrevista que ele concedeu a GZH por telefone junto a seu advogado, Alencar Coletto Sortica:

Por que o senhor usava nome falso no dia dos fatos?
Eu não usava identidade falsa. O Blablacar (aplicativo para caronas) não solicita documentação para criar conta no aplicativo. Eu criei uma conta com outro nome.

Por quê?
Porque minha conta foi suspensa por eles acharem que eu estava obtendo lucro com as corridas, porque o aplicativo é para oferecer carona. A conta com meu nome foi suspensa.

Há quanto tempo o senhor usava a conta com outro nome?
Fazia cerca de uma semana.

Sobre a identidade falsa, o senhor tinha documento com foto sua e dados falsos?
Isso pode ter ocorrido para criação de conta em aplicativo, mas não para uso.

O senhor tinha ou não documento falso?
Estava com todos meus documentos originais quando fui preso. Foram extraviados.

Por que o aplicativo desconfiou que o senhor estava lucrando com as corridas?
Pelo número elevado de corridas. No dia em que fui preso, já era a quinta ou sexta corrida que estava fazendo. Eu ficava o dia todo na estrada entre ida e vinda, Porto Alegre-Tramandaí.

Como foi o contato com o Gilberto e a Dorildes?
Eles solicitaram pelo aplicativo, um sábado à noite, uma corrida de Cachoeirinha para Tramandaí (Nova Tramandaí).

O senhor saiu de Tramandaí para buscá-los?
Não. Eu fazia a rota Tramandaí-Porto Alegre, então eu fazia corrida constante de um lado para outro, encaixava.

Quem fez o pedido pelo aplicativo?
Foi o Gilberto. Eu estava em Gravataí e busquei eles em Cachoeirinha.

Eles combinaram de voltar com o senhor?
Pegaram meu contato e se quisessem voltar comigo iam me solicitar por WhatsApp. Não tinha nada acertado. No outro dia, agendaram a corrida para 18h. Depois, passaram para 21h.

As corridas custaram quanto?
Foi R$ 100 cada uma.

Em que momento o senhor viu a viatura da Brigada Militar?
Foi na parada 59 de Cachoeirinha, quando eu estava fazendo um retorno para ir para a residência da Dorildes. Porque tinha um outro passageiro antes.

Outro passageiro?
Sim, outro passageiro que não me recordo o nome. Esse passageiro eu peguei na rodoviária de Tramandaí e larguei na rodoviária de Porto Alegre. E depois fui em direção a Cachoeirinha. Como eu ia dormir na casa da minha namorada em Gravataí, preferi largar ele primeiro (em Porto Alegre).

Ele tinha alguma ligação com Gilberto e Dorildes, se conheciam?
Não. Nenhuma ligação. Como é um aplicativo de carona, cada um solicita a sua corrida.

Eles não se importaram de levar outra pessoa?
Não. Eles solicitaram a corrida de aplicativo sabendo que viajam pessoas estranhas junto.

Quando a perseguição começou, o senhor estava voltando de Porto Alegre?
Sim. Quando fiz o retorno na parada 59, vi a viatura me perseguindo.

O senhor sabe por que começou a perseguição, o senhor fez alguma manobra errada, avançou sinal?
Não foi feita nenhuma manobra errada. Acredito que por eu estar foragido o meu carro foi captado por cercamento eletrônico.

O carro estava no seu nome?
Não, era alugado. Eu alugava para trabalhar no aplicativo.

Se o carro não estava em seu nome, que constava como foragido, como teria sido pego no cercamento eletrônico?
O carro não tinha problema, mas, de repente, pode ter tido dados em outra ocorrência, a placa do veículo.

Tinha uma ocorrência envolvendo o carro?
Envolvendo a minha pessoa sim. Como eu estava com aquele carro há um bom tempo...

Os PMs teriam que saber que era o senhor que usava aquele carro. Teriam como saber?
Sim. Eu tive uma ocorrência com a mãe do meu filho uns 20 dias antes, ela sabia a placa do meu carro. Ela pode ter dado a placa do meu carro.

Essa é a ocorrência de tentativa de feminicídio (ele é suspeito de ter feito um disparo contra o apartamento da ex-mulher) que motivou o decreto da sua prisão. Por isso, o senhor constava como foragido?
Sim. Foi uma briga de família. Essa situação está sendo resolvida, prefiro até não falar sobre isso.

Por que o senhor decidiu fugir e não parar?
Foi uma defesa momentânea. A gente tem uma fração de segundos para decidir o que vai fazer. Quando vi a viatura vindo atrás, empreendi fuga. Foi o que pensei no momento em fazer. Eu não queria ser preso.

O senhor falou para o Gilberto e a Dorildes o que estava acontecendo, o motivo de estar fugindo?Falei. Quando comecei a fugir, a Dorildes perguntou: "O que está acontecendo, meu filho". Eu falei: "Dona Dorildes, eu sou foragido e a polícia está atrás de mim e eu tenho medo que me façam alguma coisa". Em nenhum momento quando estava fugindo eu imaginei que teria esse desfecho. Imaginei que poderia ter uma abordagem posteriormente, mas não um desfecho como esse.

O Gilberto tentou interferir?
Ele não falava muito, estava bem assustado. Até por perceber o estado do Gilberto que decidi parar o carro e fugir correndo.

Sua ideia era fugir até onde?
Só despistar aquela viatura e largar meus passageiros.

O que fez o senhor decidir parar?
Quando a Dorildes pediu para mim.

O que ela falou para o senhor?
Pediu para parar porque tinha o perigo de o Gilberto pular do carro. Ele estava muito nervoso.

E o que aconteceu neste momento?
Abri a porta do motorista, tinha um trailer na minha frente, eu corri para trás do trailer e tentei pular um pátio. Foi onde escutei o primeiro disparo, segundo, terceiro, começou uma saraivada de tiros e eu correndo na direção contrária. Quando eu saí pelo lado do motorista, a Dorildes e o Gilberto saíram  pelo lado do carona no banco de trás. Não vi mais nada do que aconteceu, só pensei em fugir, o meu pavor era porque achei que eles iam me matar.

Quando o senhor parou, a viatura parou junto, estava imediatamente atrás?
Quando parei, ainda consegui correr para trás do trailer sem eles me verem. Daí eles chegaram. Eu estava atrás do trailer tentando pular o pátio, eles não tinham a visão da minha pessoa. Foi onde eu continuei fugindo. Graças a Deus eu fui preso por outra guarnição.

O senhor tinha uma arma no seu carro?
Não, não. Em momento nenhum.

Não tinha arma e não fez disparos?
Nenhum.

Quando o senhor foi capturado, foi trazido de volta ao local em que estavam Gilberto e Dorildes?
Quando fui preso, apanhei muito (conforme o advogado de Luiz Carlos, ele não referiu supostas agressões em depoimentos que prestou), desmaiei, já não lembro mais nada. Lembro quando estava chegando na DPPA (Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento). Nunca mais vi os dois.

Em que momento o senhor viu a arma que dizem ser sua?
Quando fui prestar depoimento na delegacia de homicídios de Gravataí. A delegada colocou dentro de um saco e perguntou se eu conhecia aquela arma. Eu nunca tinha visto aquela arma.

Não é sua?
Não é minha. Tanto que nós fomos os primeiros a solicitar perícia residuográfica nas minhas mãos, para comprovar que não tinha dado tiro, e na arma para impressões digitais.

O senhor lavou as mãos, tomou banho antes de fazer o exame?
Não tem como lavar as mãos na delegacia. Tu fica numa cela, um cubículo que só tem um buraco para fazer as necessidades. Eu estava todo sujo. Eu fui para a perícia todo sujo.

O senhor nunca teve arma?
Não.

Fotos do senhor com uma arma teriam sido achadas no seu celular.
Não, fotos minhas não tinha. Isso são fotos de grupos de WhatsApp que as pessoas mandam e ficam salvas na conta Google.

O resultado da perícia foi inconclusivo, mas o senhor tinha resquícios de chumbo, bário e antimônio na mão. Qual explicação?
Acredito que possa ter sido até da sujeira, da fuga, do barro, dos PMs me algemando, das mãos deles.

O que o senhor tem a dizer sobre o desfecho que resultou na morte da Dorildes e nos ferimentos e prisão do Gilberto?
É uma questão de profundo arrependimento. Se eu imaginasse que o desfecho seria esse, teria parado na primeira abordagem. Infelizmente, eu tive essa decisão. Não imaginava que a Brigada Militar ia abordar daquela maneira. Achei que eles iam chegar, abordar, ver que eram duas pessoas de bem e continuar a perseguição contra a minha pessoa.

O senhor acha que eles atiraram por qual motivo? Eles dizem que foi para revidar porque o senhor atirou.
Não teve revide. Eles atiraram por decisão de atirar. Tanto que a perícia diz que não teve disparo de dentro do meu carro, não teve disparo na viatura. Quero que respondam em qual momento eu atirei. Quando eu estava dentro do carro,  estava com os vidros fechados. E quando eu saí correndo eles não me viram mais e eu corri.

O senhor se sente responsável pela morte da Dorildes? De maneira alguma. Não me sinto responsável porque não atentei contra a vida de ninguém. Quem tem que ser responsável pela morte da Dorildes é quem efetuou os disparos.

Contrapontos

O que diz a Brigada Militar sobre supostas agressões que Luiz Carlos diz ter sofrido no momento da prisão
"A Corregedoria-Geral da Brigada Militar em nota esclarece que os fatos foram apurados em Inquérito Policial Militar, encaminhado a Justiça Militar do Estado, a qual declinou competência para a Justiça Comum, onde todas as provas e relatos foram judicializados, não havendo denuncia do Ministério Público. O processo pode retornar a JME para verificação de algum crime residual".

O que diz a BlaBlaCar
"A viagem realizada pela Dorildes Laurindo e Gilberto Andrade com a ocorrência de confronto com a polícia e o incidente com tiroteio não ocorreu por meio da utilização da plataforma BlaBlaCar. O condutor ofereceu a carona pela BlaBlaCar apenas no trecho de ida. Sobre suspensão da conta, a BlablaCar confirma que existe essa possibilidade, mas, no caso de Luiz Carlos, terá que verificar se havia ocorrido".



 
 
 
 
 
 
 
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