Órfão na infância, formador de soldados e dedicado ao quartel: quem era o tenente dos bombeiros morto em Sapiranga - Polícia

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Vale do Sinos29/10/2020 | 09h22Atualizada em 29/10/2020 | 09h22

Órfão na infância, formador de soldados e dedicado ao quartel: quem era o tenente dos bombeiros morto em Sapiranga

Enteado do militar, jovem de 25 anos, confessou à polícia a autoria do crime por entender que a mãe sairia prejudicada na partilha de bens

Órfão na infância, formador de soldados e dedicado ao quartel: quem era o tenente dos bombeiros morto em Sapiranga Divulgação / Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Foto: Divulgação / Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

O tenente Glaiton Silva Contreira, 52 anos, poderia ter entrado para a reserva em 2019. Com 30 anos de serviço no Corpo de Bombeiros, tinha tempo suficiente para aposentadoria mas não quis abandonar a farda. Pretendia trabalhar mais cinco anos à frente dos pelotões de Montenegro e Taquari, os dois municípios mais distantes da sede do 2º Batalhão de Bombeiro Militar (BBM) em São Leopoldo. 

Porém, os planos do militar de seguir contribuindo com a corporação acabaram interrompidos de forma trágica. Na noite da ultima segunda-feira (26), o corpo do tenente Contreira foi encontrado com sinais de golpe de estilete no pescoço em um local afastado da área central de Sapiranga, no Vale do Sinos. O enteado do militar, um jovem de 25 anos, confessou ser o autor do crime em depoimento à polícia. Por ser integrante do Exército, o suspeito, investigado por homicídio qualificado, está preso na carceragem da Policia do Exército de Porto Alegre.

Com 31 anos de carreira militar, Contreira atuou em toda região do Vale do Sinos. Morava em Sapiranga, era casado há 12 anos e tinha um filho de nove. À frente do caso, o delegado Fernando Branco afirma que Contreira e a esposa estavam se separando e a divisão da casa desagradou o enteado, que residia em outro imóvel:

— Ele entendia que a mãe seria prejudicada e decidiu matar o padrasto. Nos próximos dias vamos apurar se há envolvimento de outras pessoas.

Segundo a polícia, não há informações de desentendimentos anteriores ao da morte entre o padrasto e o enteado. A esposa do tenente já foi ouvida pela polícia.  Contreira foi velado na manhã desta quarta-feira (28) na sede do 3ºBBM, em Rio Grande, com a presença de familiares, amigos e militares. O corpo foi sepultado no cemitério da Santa Casa de Rio Grande.

Comandante do 2º BBM, tenente-coronel Maurício Ferro afirma que Contreira mudou a realidade dos quartéis de Montenegro e Taquari, qualificando treinamento de efetivo e melhorando os prazos de emissão de alvarás. Na visão do superior, era um profissional que trazia boas notícias e que "dificilmente vinha com problemas sem a solução".

— Era fácil trabalhar com ele, conseguia explorar o potencial das situações e melhorar as condições do local onde estava. Era uma pessoa tenaz, determinada e um profissional extremamente dedicado como poucos que existe no serviço público. Ele já tinha tempo para ir para reserva e aceitou o desafio de assumir a região mais distante de São Leopoldo. Deixou um legado, foi responsável pela formação de dezenas de turmas. Estamos perplexos e tristes com a forma como a morte dele aconteceu.

velório
Tenente foi enterrado no cemitério da Santa Casa de Rio GrandeFoto: Joellen Soares / RBS TV

Contreira trilhou uma trajetória de superação. Nasceu em Rio Grande, no sul do Estado. Aos nove anos perdeu a mãe, vítima de doença pulmonar. Dois anos depois, aos 11, o pai morreu após um infarto fulminante. Junto com o irmão caçula, Gladiomar Silva Contreira, 50 anos, foi morar com o tio até completar 18 anos quando fez o alistamento no Exército e decidiu seguir carreira militar. Entrou no Corpo de Bombeiros em 1989.

— Meu irmão é um exemplo de pessoa. Nossa vida era simples mas nossa criação foi responsável. Me visitava duas vezes por ano, nunca perdemos o contato. Hoje ele foi enterrado junto com nossos pais — diz Gladiomar.

Amigo de infância de Contreira, o tenente da reserva Antônio Alexandre Moura de Quadro morava na mesma rua que o colega do bairro São Miguel. Na época, um frequentava a casa do outro. Quando Contreira e o irmão deixaram o endereço após a morte do pai, perderam contato. Foram se reencontrar na vida adulta no Corpo de Bombeiros. Em 1993, cursaram juntos a formação de cabo, Contreira seguiu para a carreira de instrutor em Porto Alegre e a há dois anos voltaram a ter contato no curso de formação de tenentes.

— Em 1990, quando entrei nos Bombeiros, Contreira me recepcionou. Um cara que dedicou a vida dele em prol da comunidade gaúcha, ele já tinha mais de 30 anos de serviço mas sempre dizia que tinha mais para dar e queria ficar mais um tempo. O plano dele era se aposentar em 2023, infelizmente antes aconteceu essa tragédia. É algo que abala e desestrutura qualquer um — afirma tenente Alexandre.

Dentro da corporação, trabalhou por duas décadas na Academia de Bombeiros Militar do RS, em Porto Alegre, onde trabalhou como instrutor e monitor de curso.

— Ele participou da formação de praticamente todos os bombeiros formados nos últimos anos. Era uma pessoa íntegra, séria e comprometida com a instituição e com a formação dos futuros colegas. Era muito focado na formação moral, valores, princípios e se destacava por isso — afirma o comandante do 3º Batalhão de Bombeiros Militar (BBM), com sede em Rio Grande, coronel Everton de Souza Dias.

Junto com o coronel, o tenente Contreira integrou a equipe que em 2011 que coordenou o curso de formação de sargento do bombeiros. Recorda do colega como militar preocupado com a imagem da instituição e com a qualidade do serviço que ofereceria a comunidade:

— Ele tinha preocupação em formar bombeiros comprometidos com a missão. Uma morte assim é algo que ninguém espera, muito menos de uma situação de companheiro de farda.

 
 
 
 
 
 
 
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