Réu por violação sexual, terapeuta de Canoas deixa a prisão e passa a usar tornozeleira - Polícia

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Região Metropolitana 23/10/2020 | 09h53Atualizada em 23/10/2020 | 09h53

Réu por violação sexual, terapeuta de Canoas deixa a prisão e passa a usar tornozeleira

Rogério Pizzato, 35 anos, foi proibido de exercer qualquer atividade relacionada às terapias que oferecia antes de ser preso, no fim de junho  

Réu por violação sexual, terapeuta de Canoas deixa a prisão e passa a usar tornozeleira Polícia Civil/Divulgação
Materiais apreendidos na casa de réu ainda durante a investigação Foto: Polícia Civil / Divulgação
Leticia Mendes

Pouco mais de três meses após ser preso de forma preventiva, um terapeuta holístico de Canoas, na Região Metropolitana, deixou a prisão. Réu por violação sexual mediante fraude, ele permanecerá monitorado com tornozeleira eletrônica durante o processo e está proibido de exercer qualquer atividade relacionada às terapias que oferecia antes de ser detido. Ao longo da investigação, 10 mulheres relataram à Polícia Civil ter sido vítimas de Rogério Pizzato, 35 anos, durante as sessões nas quais buscavam tratamento.  

A decisão de revogar a prisão preventiva foi do juiz Jaime Freitas da Silva, da 4ª Vara Criminal de Canoas. O magistrado optou por aplicar medidas cautelares, entre elas a proibição de que o réu exerça as terapias que oferecia. Pizzato também não poderá realizar propagandas ou comunicação por meio de redes sociais e YouTube.  

A decisão prevê ainda que o réu não possa manter contato com vítimas (deve observar distância mínima de 500 metros delas) e testemunhas. As outras medidas estabelecidas foram comparecer mensalmente em juízo, não alterar endereço ou viajar para o Exterior sem autorização judicial, entregar seu passaporte, permanecer em casa a partir das 21h, comparecer a todos os atos processuais e não se envolver em novos ilícitos.  

Em sua decisão, o juiz ponderou que, caso seja condenado pelo crime de violação sexual mediante fraude, o terapeuta deverá receber pena em outro regime, e não o fechado. Isso porque a pena prevista para esses casos fica entre dois e seis anos de reclusão. Para o magistrado, isso indica que não seria razoável manter o terapeuta preso. Se descumprir qualquer uma das medidas, deverá ter novamente decretada a prisão preventiva.  

O Ministério Público se manifestou contra a liberdade provisória, mas pediu que, caso fosse solto, o réu passasse a usar tornozeleira eletrônica — solicitação atendida pelo juiz. Segundo o promotor Gabriel Cybis Fontana, na audiência do dia 13 de outubro foram ouvidas as últimas das 19 testemunhas de acusação. Foi nessa sessão que a Justiça determinou a liberdade provisória do réu. O promotor informou que ingressou com recurso no Tribunal de Justiça, pedindo que o réu seja preso novamente — o recurso aguarda manifestação da defesa.  

"Nos sentimos humilhadas", diz vítima

Uma das primeira mulheres a procurar a polícia, no fim de abril, para relatar os casos de violação sexual, uma moradora da Região Metropolitana diz que a decisão sobre a revogação da prisão lhe causou frustração, mas acredita que o caso resultará em condenação. A vítima conta que, além do processo em si, precisou lidar com a culpa e o julgamento, já que muitas pessoas questionam porque ela se submeteu às sessões por mais de um ano. Com medida protetiva, ela segue em tratamento psicológico e psiquiátrico. Além disso, buscou o apoio de pessoas próximas.  

— É um processo muito difícil de compreender, subjetivo. No momento de fragilidade, onde buscou uma cura, vem uma pessoa e te anula psicologicamente e te condiciona a uma dependência emocional. É uma dor psíquica imensa. Tu não consegue aceitar. Nega que está sendo abusada. Nisso, entra a ignorância das pessoas, de acreditar que “ela gostou”. Mas ela continua voltando, por medo, pela dependência emocional e pela extrema vulnerabilidade e fragilidade daquele momento. Nos sentimos humilhadas, julgadas, culpadas, mesmo não tendo culpa — descreve.   

Durante a investigação, a polícia percebeu que as vítimas relatavam, além dos contatos sexuais, a manipulação e o controle. Essa situação fazia com que elas submetessem, inclusive, decisões do seu dia a dia ao terapeuta. 

No início desta semana, a moradora da Região Metropolitana recebeu, por intermédio de uma assistente social, a carta de uma mulher que conta ter sido atendida pelo mesmo terapeuta. No documento, relata que não sofreu abuso sexual, mas diz ter tido traumas psicológicos e agradece pelas demais não terem se calado. 

“Me reconheci nos relatos, nas formas de manipulação, nas maneiras que ele encontrava de roubar nossas certezas e mantê-las como reféns. (...) Só tive minhas certezas de volta agora, graças à coragem de vocês. Percebo agora que foram sequelas graves de muita manipulação”, escreveu a mulher.  Após ler a carta, a vítima diz que se sentiu mais encorajada. 

— O que sempre me fortaleceu a continuar era pensar que poderia estar ajudando outras mulheres. Não estava fazendo isso só por mim. Pensava nas mulheres que estavam caladas, sofrendo, com aquele peso, a culpa, o trauma, a vergonha. Ler o relato dela me fortaleceu. Precisamos continuar e intensificar, para que mais mulheres sejam ouvidas, que seus relatos sejam validados e elas possam ser protegidas. Hoje estou mais fortalecida, em tratamento, curando esse trauma que ficou sim na minha vida. E reconstruindo a minha vida — descreve.  

A investigação  

As mulheres ouvidas ao longo da investigação relataram abusos entre 2015 e maio deste ano — Pizzato atuava como terapeuta holístico há oito anos. A violação sexual mediante fraude é um crime diferente do estupro, por exemplo. Nesse caso, não havia violência ou grave ameaça. 

Segundo a delegada Clarissa Demartini, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Canoas, as vítimas eram convencidas de que aquilo era um tratamento, e, por isso, submetiam-se aos contatos sexuais. As mulheres relataram que acreditavam ser um processo de cura. 

Elas pagavam, em média, R$ 120 por sessão — uma das vítimas contou ter pago cerca de R$ 25 mil pelos tratamentos. Conforme a investigação, os atendimentos costumavam iniciar com conversas e, ao longo das sessões, Pizzato oferecia a chamada “terapia sexual”, onde passavam a acontecer os contatos físicos com as mulheres. Em pelo menos um dos casos, houve relato de relação sexual.  

Em depoimento à polícia, ele admitiu os contatos sexuais com as mulheres, mas negou os abusos. O terapeuta alegou que tudo fazia parte do tratamento.   

A defesa  

Responsável pela defesa, Valdir Florisbal Jung afirma que no pedido de revogação da prisão preventiva argumentou, entre outros pontos, que o réu é primário e possui residência fixa. Além disso, segundo o advogado, testemunhas de acusação e vítimas já foram ouvidas no processo. Segundo o criminalista, o réu está cumprindo todas as cautelares, entre elas a de retirar do ar suas redes sociais. O terapeuta ainda será interrogado durante a instrução do processo. 

— Diante dessas medidas estabelecidas pelo juiz, em decisão acertada, o risco à ordem pública não se faz mais presente. Ele está monitorado 24 horas por dia, vem contribuindo com o processo. Não há necessidade de mantê-lo preso, não se justifica. Inclusive, causou estranheza o Ministério Público ter ingressado com recurso, uma vez que ele pôs condições como uso da tornozeleira e a defesa aceitou. Em relação ao caso, a instrução do processo vai provar a inocência dele — disse o advogado.  

 
 
 
 
 
 
 
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