"Vivemos um filme de terror", conta pai de médica sequestrada em Erechim e resgatada no Paraná - Polícia

Versão mobile

 
 

Norte do RS26/10/2020 | 09h22Atualizada em 26/10/2020 | 09h22

"Vivemos um filme de terror", conta pai de médica sequestrada em Erechim e resgatada no Paraná

Tamires Regina Gemelli da Silva Mignoni, 30 anos, foi libertada pela Polícia Civil do RS

Leticia Mendes

Em Laranjeiras do Sul, no Paraná, Berto Silva, 52 anos, questionou angustiado a um dos policiais na quarta-feira (21) sobre o que deveria responder no próximo contato dos sequestradores. A filha Tamires Regina Gemelli da Silva Mignoni, 30, havia sido levada seis dias antes em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, onde a ginecologista reside e trabalha. Pelo resgate, exigiam R$ 2 milhões. O agente tocou o ombro do pai da médica e sentenciou:

— A próxima ligação serei eu, dizendo que estamos com a Tamires.

Horas depois, quando o telefone de Berto chamou outra vez, o policial civil cumpriu a promessa. A médica havia sido resgatada em Cantagalo, município a cerca de 30 quilômetros de Laranjeiras do Sul. Um vigilante, considerado mentor do sequestro e que residia a poucos metros da moradia dos pais da médica, e uma mulher, que seria responsável por vigiar a vítima no cativeiro, foram presos. Outras duas pessoas, um taxista e a esposa do vigilante, chegaram a ser detidas, mas foram liberadas por não haver evidências da participação delas no crime.

Mas a ação que culminaria no resgate se iniciou bem antes daquela noite. O pai da médica, prefeito em Laranjeiras, tornou-se o centro da negociação. Às 13h da sexta-feira, dia do sequestro, foi avisado pelo genro, o dentista Lucas Centenaro Mignoni, de que Tamires havia desaparecido. A médica deixou a Unidade Básica de Saúde, em Erechim, onde trabalha, às 11h20min. Ela deveria almoçar na casa da sogra às 11h30min, mas não apareceu e não atendia o telefone.

Quando soube do desaparecimento da única filha, Berto começou viagem para Erechim. Às 19h07min, quando cruzava Chapecó, em Santa Catarina, recebeu uma ligação do genro. Um sequestrador havia feito contato e indicado o número para o qual o pai deveria ligar em dois minutos. Foi aí que ele soube que os criminosos buscavam resgate milionário.

— Vivemos um filme de terror. Por conta da minha vida pública, ele imaginou que, mesmo sem ter o dinheiro, teria influência para conseguir. Foram os seis piores dias da nossa vida. Não sabíamos onde ela estava, como estava, e com quem estava — conta o pai, que começou a reunir a quantia exigida com amigos, caso fosse preciso fazer o pagamento.

Na ligação, o criminoso ordenou que não chamasse a polícia, retornasse para Laranjeiras e minimizasse a repercussão do caso na imprensa. Berto argumentou que o genro estava muito abalado e à espera dele em Erechim. Recebeu, então, permissão para buscar Lucas.

— O que ele não imaginava é que eu voltaria com meu genro e mais 18 homens extremamente preparados. Fiquei impressionado com a qualificação desses profissionais. Esse Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais do RS) é sensacional. O trabalho deles e do Tigre (Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial, do Paraná) foi brilhante. Não só no sentindo de conduzir as investigações, como de conduzir a família. Nos preparar para o contato com os sequestradores — elogia o pai.

Berto e o genro passaram a ser acompanhados de dois policiais, enquanto os demais permaneceram em base fora de Laranjeiras — para evitar a circulação de policiais na cidade. Após o primeiro telefonema, a família viveu os dias mais difíceis. Entre sexta-feira e terça-feira (20), nenhum novo contato foi feito.

— Foi sexta, sábado, domingo, segunda e terça nesse vazio. Sem nenhuma informação. Pensando as coisas mais horríveis possíveis — diz Berto. 

Na terça-feira, o sequestrador ligou para Lucas, que tentou passar o celular para o sogro, mas o criminoso não permitiu. Orientado pela polícia, o dentista exigiu ouvir a voz da mulher. No dia seguinte, na quarta-feira pela manhã, o telefonema foi para Berto. Desta vez, o sequestrador permitiu que Tamires falasse pela primeira vez. A médica garantiu que estava bem. O sequestrador afirmou que só faria mais uma ligação. Aquilo deixou a família ainda mais tensa.

No início da noite, o pai observou os policiais se equiparem para mais uma saída. Angustiado, aproximou-se de um deles e questionou o que deveria dizer ao sequestrador. Foi quando recebeu a promessa de que o próximo telefonema seria para confirmar o resgate de Tamires. Berto tentou brincar com o policial, que carregava um boné de urso panda.

— Ele me olhou e disse: "Você vai entender mais tarde". Quando eles tiram ela do cativeiro, eles colocam o boné na cabeça dela e me ligam: “Berto, estamos com a Tamires”. E ele me manda a foto. Ela chorando e rindo ao mesmo tempo, com o boné. O bonezinho está com ela. Anda toda orgulhosa com ele, para baixo e para cima. Tem significado muito grande. Mesmo o sequestrador não dizendo onde era, eles estouraram o cativeiro e trouxeram nossa filha de volta. Foi brilhante — emociona-se o pai.

Retorno para Erechim

Sobre a saúde da filha, diz que ela perdeu peso, mas não sofreu agressões, embora tenha sido ameaçada constantemente. Ela contou aos familiares que foi colocado dentro de porta-malas e mantida com olhos vendados, amarrada. Para superar o trauma, buscará acompanhamento psicológico.

— Ela está bem fisicamente, mas muito abalada psicologicamente. Ela foi muito forte, agora está desabando. Agora, ela consegue relaxar e olhar de fora para aquilo que viveu — diz o pai.

Na sexta-feira, a família regressou para Erechim, onde Tamires foi recepcionada por amigos e por familiares. A mãe e a sogra haviam permanecido no RS. Em frente à residência do casal, foi estendido um banner com a imagem da médica ao lado dos policiais que participaram do resgate.


 
 
 
 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros