Polícia



Crime organizado

Com 12 mortes em oito dias, guerra das facções alerta autoridades na Serra

Tortura, decapitação, esquartejamento e corpos carbonizados são exemplos da barbárie

03/11/2020 - 08h59min

Atualizada em: 03/11/2020 - 08h59min


Lizie Antonello
Lizie Antonello
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Roger Ruffato
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Marcelo Casagrande / Agencia RBS
Casa na linha Burati, em Farroupilha, foi cenário de confronto com a polícia no fim de semana, com quatro criminosos mortos

Não satisfeitas com execuções cometidas com múltiplos disparos de arma de fogo, as organizações criminosas que atuam na Serra voltaram a utilizar métodos com requintes de crueldade para demonstrar poder em relação aos grupos rivais. Tortura, decapitação, esquartejamento e corpos carbonizados são exemplos da barbárie resultante do conflito entre as facções que atuam na região. A última semana foi a mais violenta do ano em Caxias do Sul. Foram 12 mortes em oito dias. No final de semana, quatro pessoas morreram em confronto com a Brigada Militar em Farroupilha. Segundo a polícia, eles eram responsáveis por crimes chocantes praticados na região.

Investigações do setor de inteligência do Comando Regional da Brigada Militar apontaram uma pequena casa na Linha Rio Burati, no interior de Farroupilha, como local de cativeiro, tortura e mortes praticadas com extrema violência e divulgadas em imagens por meio de redes sociais. Foi no pequeno vilarejo que policiais encontraram um grupo suspeito de praticar os assassinatos que horrorizaram os moradores da região nos últimos dias.

— Um vídeo começou a circular nas redes sociais do motoboy dizendo que iria vender a motocicleta para devolver o dinheiro que devia, desde que não fizessem mal para a família dele. Depois, apareceram fotos dele decapitado — informou o comandante do 4º Batalhão de Polícia de Choque, Diego Soccol.

A vítima era o motoboy Bruno da Costa, de 22 anos. Ele sumiu na quinta-feira da semana passada em Bento Gonçalves e o corpo foi localizado no dia seguinte, carbonizado, em Carlos Barbosa. Os vídeos ajudaram a polícia a encontrar o cativeiro.

— A inteligência do Comando Regional conseguiu levantar informações que nos direcionaram até aquela casa. Que teria um grupo criminoso naquele local, que poderia ser o responsável pelo esquartejamento desse motoboy e que estaria planejando cometer outros homicídios em Caxias, Farroupilha ou Bento. Nossos agentes monitoraram todo o dia o local e no final da tarde, início da noite, o Batalhão de Choque acabou aproximando e verificando a situação. Chegando nas imediações da residência (os policiais) foram recebidos a tiros, teve o confronto, culminando no óbito dos quatro indivíduos — relatou o comandante.

Uma mulher, um adolescente e dois homens foram mortos na troca de tiros. Na casa, a polícia apreendeu armas e uma caminhonete furtada. Também foram encontrados vários objetos que aparecem nas fotos e no vídeo. O grupo é investigado ainda por outro crime bárbaro. Um corpo esquartejado e abandonado dentro de uma mala, na última quarta-feira, perto do esconderijo e da RS-453, na mesma localidade de Farroupilha.

Brutalidade assusta moradores

Brigada Militar / Divulgação
Armas apreendidas na casa na Linha Burati, em Farroupilha

A crueldade dos crimes recentes na Serra choca e assusta os moradores das proximidades de onde os casos ocorreram. Vizinha da casa em que moravam o casal e a criança mortos a tiros no Jardim Iracema, que preferiu não se identificar à reportagem, se disse abalada e afirmou que iria mudar de endereço.

—Eu não vou ficar mais aqui. Pode acontecer algo comigo e com a minha filha. Podemos morrer sem nem saber o que está acontecendo, com bala perdida, não quero nem pensar. Estou com muito medo — disse logo após o crime.

No começo de outubro, moradores do bairro Euzébio Beltrão de Queiróz viveram momentos de tensão. Assustados, afirmaram que o bairro vive, atualmente, mais uma disputa por pontos de tráfico entre grupos rivais. O temor e o medo aumentaram depois de uma dupla tentativa de homicídio e um assassinato na localidade.

Um morador da Linha Burati falou à RBS TV Caxias que dava graças a Deus pela polícia ter encontrado o cativeiro, que era ele e a família quem estavam presos dentro de casa. Ele parabenizou a polícia e agradeceu muito. Disse ainda que nunca foram ameaçados, mas que são várias casas onde vivem famílias com crianças no entorno daquela que foi usada pelos suspeitos, que, então, o medo era grande e por isso, não denunciavam.

Polícia Civil quer reforço para investigação

Para o delegado regional da Polícia Civil, Paulo Roberto Rosa da Silva, o número de assassinatos registrados na Serra desde a metade de outubro poderia ser ainda maior caso a Brigada Militar (BM) não tivesse interceptado integrantes de uma facção que atacaria rivais no último dia 14. A abordagem dos policiais resultou na morte dos seis integrantes do grupo.

— Posteriormente ao dia 14, houve um incremento nas disputas por tráfico de drogas entre facções querendo assumir determinados locais. Não posso estabelecer como um marco inicial. Deu coincidência com aquelas mortes no confronto com a BM, que conseguiu interceptar uma facção que estava em Caxias com o objetivo de praticarem mortes. Se não tivesse acontecido aquele fato, poderia ter ocorrido até mais mortes do que temos agora, se a disputa continuasse (naquele momento) — avaliou o delegado.

Conforme Paulo Rosa, normalmente os embates começam quando uma facção toma o território de outra e uma assassinato acaba dando início a uma sequência de crimes. A Polícia Civil está certa de que as ações criminosas praticadas pelas facções nos últimos dias são orquestradas de dentro de presídios da região.

—  Nós já temos bem avançadas as investigações. O mando é originário de dentro do sistema prisional. Tanto do município de Caxias do Sul, dos dois presídios, quanto de outros presídios de fora de Caxias e, também, de Bento Gonçalves. Devemos, a partir da próxima semana, ter um reforço de servidores policiais, inclusive mais um delegado, pra auxiliar nesta investigação. Embora nosso pessoal seja bastante qualificado, e que tenhamos um grau de esclarecimento muito bom, mas nós temos uma situação totalmente fora da normalidade —  declarou o delegado regional.

Só no mês de outubro, Caxias registrou 24 mortes violentas. Em uma delas, uma família inteira foi assassinada. O homem de 37 anos, a mulher de 29 que estava grávida e o filho dela de quatro anos. A polícia acredita que só o homem seria o alvo dos criminosos. No sábado, último dia do outubro mais violento desde 2016, duas pessoas foram mortas dentro de casa, no bairro Montes Claros. Segundo a polícia, três homens invadiram a casa e efetuaram vários disparos. A polícia não divulgou a identidade das vítimas. Na sexta, uma adolescente de 16 anos foi vítima de um ataque a tiros no bairro Bela Vista e foi internada em estado grave.


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