Como gaúcho condenado por matar milionário em Nova York viveu 18 anos foragido da Justiça - Polícia

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Crime no Exterior06/03/2021 | 10h00Atualizada em 08/03/2021 | 16h35

Como gaúcho condenado por matar milionário em Nova York viveu 18 anos foragido da Justiça

Márcio Fonseca Scherer, 49 anos, é autor confesso do assassinato de João Sabóia, em hotel de luxo em 1999, nos EUA

Como gaúcho condenado por matar milionário em Nova York viveu 18 anos foragido da Justiça Ricardo Duarte / Agencia RBS/Agencia RBS
No final de março de 1999, Márcio Scherer se apresenta à Polícia Federal, em Porto Alegre Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS / Agencia RBS

Condenado por matar um milionário paraense em um hotel de luxo em Nova York em 1999, o gaúcho Márcio Fonseca Scherer, 49 anos, viveu 18 anos foragido da Justiça atuando como artista plástico, usando codinome e com convivência restrita à esposa e os dois filhos. Mesmo à margem da lei, a carreira artística de Scherer nunca parou. Até 2018, participou de pelo menos 22 exposições individuais e coletivas, incluindo mostras internacionais em Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Poucos meses antes de ser preso, em 25 de fevereiro, mudou-se para uma casa no bairro Cristo Rei, em São Leopoldo, no Vale do Sinos, a duas quadras da 1ª Delegacia de Polícia.

Scherer é autor confesso do assassinato de João Sabóia em 19 de março de 1999 no Hotel Waldorf Astoria. Após o crime, fugiu dos EUA e se apresentou à polícia no Rio de Janeiro. Na época, o caso ganhou repercussão nacional. Preso preventivamente por nove meses, foi condenado por latrocínio (roubo com morte) pela Justiça do Rio em 2002, mas a defesa obteve habeas corpus para o gaúcho aguardar em liberdade o julgamento em segunda instância. A pena de 22 anos de prisão foi confirmada em 2003 e, até oito dias atrás, Scherer vivia clandestinamente.

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Antes de se envolver no assassinato de Sabóia, Scherer viveu por oito anos em um apartamento na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, próximo ao posto 6, a duas quadras do mar, no Rio. Pintava quadros, surfava diariamente no Arpoador, e, segundo a própria descrição em uma rede social "tinha uma simbiose" com o Rio Janeiro. Circulava pela elite carioca, frequentava a casa de artistas, tentou a carreira de ator e chegou a fazer figuração para a novela Salsa e Merengue, da Rede Globo, em 1996. Era acompanhante e fazia viagens para o Exterior. Quando foi chamado por Sabóia para ir aos Estados Unidos recebeu 500 dólares por cada um dos nove dias da viagem, em um roteiro entre Antlantic City e Nova York. Dois dias antes de a viagem acabar, matou o empresário paraense durante uma discussão no quarto do Waldorf Astoria. O corpo do milionário foi encontrado só no dia seguinte.

No Brasil, após conseguir liberdade provisória, abriu mão da vida no Rio para escapar do holofote que o caso tinha na imprensa e foi para Florianópolis em 2000. Alugou uma casa de madeira e passou a expor e vender suas peças em galeria de arte e lojas de design e decoração, se apresentando como Mark Fonser. Uma das exposições foi no Espaço Cultural Beiramar Shopping. Na época, uma marca famosa de confecção de roupas e artigos de surf comprou esculturas criadas de ferro e aço com os temas de mergulho, skate e windsurf. Em 2002, com o trabalho começando a se consolidar em Santa Catarina, participou da Segunda Mostra Internacional de Arte e Cultura Surf, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo.

A partir daí, passou a rodar outras capitais. Em 2004, a Rede Globo comprou seis esculturas para os cenários da novela Da cor do pecado (2004). A aparição das peças de Scherer na novela das 19h repercutiu em três jornais catarinenses. Um item chamado Mergulhador participou dos cenários das novelas Como uma onda (2004) e Três Irmãs (2008).

Em 2006, foi ao Rio de novo, desta vez, para participar da terceira Mostra Internacional de Arte e Cultura Surf, no Rio Design Barra. Na época, com cabelo cumprido, foi entrevistado pela mídia carioca para a mostra que reuniria por duas semanas 250 obras. A estadia na capital catarinense acabou abreviada quando um vizinho o reconheceu e perguntou se ele não era o Márcio Scherer, condenado por matar outro brasileiro em Nova York. Scherer negou, horas depois deixou Florianópolis e veio para o Rio Grande do Sul. No dia seguinte, soube que a polícia havia batido no seu endereço.

— Naquele momento, ele quase foi preso — afirma o advogado Paulo Gall.

05/03/2021- Márcio Scherer com peça produzida por ele no Rio Grande do Sul. Foto: Arquivo Pessoal<!-- NICAID(14728777) -->
Scherer com cabelo cumprido na Pinacoteca em São PauloFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

"Era um cidadão comum com uma vida comum", diz advogado

Já em território gaúcho, Scherer mantinha uma rotina que em nada lembrava a época de badalação no Rio de Janeiro. Por ter optado viver na clandestinidade, Scherer não tinha linha de telefone no nome, não frequentava bares, restaurantes e tinha uma vida social restrita à família. Por quase 20 anos, não renovou Carteira Nacional de Habilitação (CNH), não atualizou documento de identidade e se descaracterizou. Enquanto morava no Rio, era careca e frequentemente comparado ao piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher. Ao vir para o Sul, deixou o cabelo crescer na altura do ombro, usou corte moicano e na data em que foi preso cultivava cavanhaque.

05/03/2021- Márcio Scherer na Pinacoteca em São Paulo. Foto: Arquivo Pessoal<!-- NICAID(14728779) -->
Em São Leopoldo, Scherer posa ao lado de peçaFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

— A principal orientação era ele não ter envolvimento com ninguém do mundo do crime. Esporadicamente, ele vinha até minha casa para dizer que estava vivo. Vinha a pé ou de bicicleta. Ele queria a prescrição do crime, que viria em 2023 — afirma o advogado.

A bike era o único hobby de Scherer em São Leopoldo. Pedalava para manter a forma, distrair-se e foi num desses passeios, em setembro do ano passado, que foi reconhecido por um colega do Ensino Fundamental que procurou a polícia e fez a denúncia. A partir dali, a 2ª DP de Novo Hamburgo passou a tentar descobrir o paradeiro de Scherer.

Vindo de uma família tradicional de São Leopoldo – é neto do general do Exército Mário Fonseca e bisneto de Theodomiro Porto da Fonseca, prefeito do município por 16 anos (1928-1944) – Scherer morou com a família em uma casa de propriedade de um curtume _ empresa na qual sua avó tinha ações e que faliu. No imóvel, a esposa abriu uma pet e cabia a Scherer ajudar nos banhos, buscar e levar os cachorros a bordo de um Corcel. Como o imóvel foi a leilão no ano passado, alugou uma casa no bairro Cristo Rei, onde foi preso.

Ele estava vivendo uma vida na clandestinidade, mas era mais um na multidão. Não despertava suspeita, era um homem simples que vivia para a esposa e os filhos. Um cidadão comum com uma vida comum.

PAULO GALL

Advogado de Márcio Scherer

— Ele estava vivendo uma vida na clandestinidade, mas era mais um na multidão. Não despertava suspeita, era um homem simples que vivia para a esposa e os filhos. Um cidadão comum com uma vida comum — descreve Gall.

Mesmo foragido e discreto, conseguia certo alcance com trabalho de artista plástico. Scherer guarda uma foto de 2014 na qual o então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Levandowski, está segurando uma das suas peças no 17º Congresso Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, em Gramado. Em 2016, expôs uma escultura de 90 centímetros de na Galeria Romero Britto, na Rua Oscar Freire, área nobre de São Paulo. Expôs em junho 2018 na Câmara de Vereadores da Capital, em uma mostra de 12 peças e a última que participou foi em outubro do mesmo ano, na Assembleia Legislativa em Porto Alegre.

 
 
 
 
 
 
 
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