Novos casos investigados pela polícia de suspeita de abusos por ginecologista no sul do RS teriam acontecido entre 2012 e 2020 - Polícia

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Canguçu02/06/2021 | 10h30Atualizada em 02/06/2021 | 10h32

Novos casos investigados pela polícia de suspeita de abusos por ginecologista no sul do RS teriam acontecido entre 2012 e 2020

Cairo Barbosa, 65 anos, já é réu por violação sexual mediante fraude contra quatro pacientes

Novos casos investigados pela polícia de suspeita de abusos por ginecologista no sul do RS teriam acontecido entre 2012 e 2020 Marco Favero / Agencia RBS/Agencia RBS
Atendimentos no consultório particular do médico devem ficar suspensos a partir de sábado Foto: Marco Favero / Agencia RBS / Agencia RBS
Leticia Mendes

Na fachada de uma clínica particular na área central de Canguçu, município de 56 mil habitantes no sul do Estado, está o nome do ginecologista e obstetra Cairo Barbosa, 65 anos. Com três décadas de atuação, o médico é investigado na Polícia Civil sobre crimes sexuais.

Em quatro casos, já se tornou réu por violação sexual mediante fraude. Desde que esse processo foi divulgado pela imprensa na semana passada, mais 13 pacientes já prestaram depoimento à polícia e apontaram o médico como autor de abusos entre os anos de 2012 e 2020. No ano passado, segundo o relato das mulheres, teriam ocorrido pelo menos dois casos, em junho e outubro.

A expectativa da Polícia Civil é ouvir mais mulheres nos próximos dias. Desde que o caso veio à tona, o delegado César Nogueira passou a receber contatos de pacientes do médico. No entanto, nem todas chegaram a formalizar o registro de ocorrência até o momento.

— Recebi mensagens de mulheres que nem moram mais aqui. Do Mato Grosso, de Porto Alegre. O que temos registrado até agora são esses 13. São relatos muito semelhantes, com detalhes, de como aconteciam os crimes. São muitas vítimas — afirma o delegado.

Agendamentos vêm sendo realizados para que elas possam ser ouvidas por uma policial — há somente duas na DP. A escrivã Luana Cavedon foi destacada para ouvir as pacientes, desde o início da investigação.

— Muitas estão fragilizadas e preferem ser ouvidas por uma mulher. Contam que não tiveram coragem de relatar antes por medo de não acreditarem nelas ou até mesmo por receio da reação dos maridos. Algumas só entenderam isso como abuso agora, após a divulgação. Muitas choram, estão emotivas, ou têm dificuldade para descrever o que aconteceu — afirma a policial.

Além das mulheres, a polícia pretende, nos próximos dias, ouvir a secretária do médico, familiares das pacientes — já que elas relatam que o ginecologista teria impedido que elas fossem acompanhadas durante as consultas — e o próprio investigado. Durante a apuração, a polícia chegou a pedir a prisão do médico, mas a solicitação foi negada pela Justiça.

O Ministério Público também ouviu mais três mulheres nos últimos dias — dois casos já prescritos, que teriam acontecido há cerca de 20 anos, e um fato de 2010. O prazo para prescrição deste crime é de 12 anos.

Na Polícia Civil, outras mulheres também foram ouvidas como testemunhas.

— Esses depoimentos serão importantes como prova testemunhas dos outros casos. De modo a fortalecer o relato e a semelhança das condutas — afirma a promotora Luana Rocha Ribeiro.

No município, desde que o caso ganhou repercussão na semana passada as opiniões se dividem em relação ao médico, que é considerado um dos profissionais mais antigos da cidade.

— Fiz minha primeira cesariana com ele e fui muito bem atendida. Para mim, foi surpresa — conta uma moradora da área rural do município.

Outra jovem diz que buscou o médico por indicação de uma amiga e que também não tem reclamações do atendimento. Ela confirma, no entanto, que já havia ouvido boatos de que o médico abusaria de pacientes.

— Já se ouvia falar na cidade, mas nunca tinha tido algo concreto, como agora — diz.

Uma das mulheres que procurou a polícia em 2017, hoje com 43 anos, diz que sofre com os traumas do abuso até hoje, passando por tratamento psicológico.

— A gente passa por julgamento de outras mulheres, que dizem que ele é um ótimo médico e que só agora resolvemos denunciar. As mulheres julgando as mulheres, isso é muito triste. Se cassarem o CRM, que ele não possa fazer mais vítimas, será uma grande coisa — afirma.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) informou que a conduta do médico será apurada em sindicância.

Atendimento suspenso

Os atendimentos no consultório particular do médico devem ficar suspensos a partir de sábado (5). A medida é uma determinação da Justiça, solicitada pelo Ministério Público. O entendimento do Judiciário foi de que era necessário um prazo para que o ginecologista realizasse atendimentos que já estavam agendados, caso as pacientes queiram manter as consultas.

Ainda assim, na Rua General Câmara, na área central da cidade, onde está localizada a clínica de ginecologia e obstetrícia, os vizinhos não perceberam mais movimentação nos últimos dias. Somente as idas e vindas da imprensa, registrando imagens da fachada do consultório.

A 200 metros dali, fica o Hospital de Caridade de Canguçu, onde o médico realizava atendimentos em plantões. Outra medida cautelar determinou o afastamento do ginecologista da casa de saúde. Os casos comunicados até agora teriam acontecido tanto no hospital como no consultório.

O que diz a defesa  

O advogado Gustavo Goularte, responsável pela defesa de Barbosa, afirma, em nota, que o cliente é inocente. "As acusações são bem graves. Não existe prova da ocorrência. A defesa que foi apresentada nesta quarta-feira, no processo, já traz em caráter preliminar fortes elementos da inocência do nosso cliente. Os fatos são inexistentes. Uma das exigências do doutor Cairo é que o processo tramite o mais rápido possível para que a verdade se estabeleça." 

 
 
 
 
 
 
 
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