Um ano depois de morte de jovem em Soledade, mãe mantém quarto da filha intacto: "É um pedaço de mim que tiraram" - Polícia

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Caso Paula15/06/2021 | 11h21Atualizada em 15/06/2021 | 12h15

Um ano depois de morte de jovem em Soledade, mãe mantém quarto da filha intacto: "É um pedaço de mim que tiraram"

Paula Perin Portes foi morta por asfixia na noite de 11 de junho. Quatro réus estão presos pelo crime

Um ano depois de morte de jovem em Soledade, mãe mantém quarto da filha intacto: "É um pedaço de mim que tiraram" Luciane Bianchini / Especial/Especial
Marisete Perin preserva o quarto da filha morta em junho do ano passado em Fontoura Xavier Foto: Luciane Bianchini / Especial / Especial

Na casa da mãe em Fontoura Xavier, no Vale do Taquari, o quarto de Paula Perin Portes, 18 anos, preserva o mesmo ambiente que a jovem deixou antes de mudar-se para Soledade, no norte do RS. Fotos suas em porta-retratos, 16 medalhas e troféus conquistados em campeonatos de vôlei e parte das roupas novas que ganhou no último aniversário. A dona de casa Marisete Perin, 50 anos, não quis mexer no cenário criado pela filha:

— Ela tinha muito ciúmes das coisas dela. Por isso, vou deixar tudo montado. Até eu viver essa quarto será mantido.

Paula tinha completado 18 anos há pouco mais de um mês quando, em 11 de junho de 2020, despareceu após sair da casa de amigos e ir ao encontro de Micael Wilian Rossi Ortiz, em Soledade. Há poucas semanas a jovem havia se mudado para cidade nova para morar com o pai e procurar emprego. Ao atender o chamado de Micael, Paula foi morta por asfixia com golpes de mata-leão e teve o corpo ocultado em uma zona de difícil acesso no interior do município. Dois meses se passaram até ser encontrada, em 17 de agosto, após uma série de buscas frustradas e mudanças no esconderijo do corpo.

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Para o Ministério Público, Paula foi morta por desejo de vingança de Dionatan Portela da Silva, ex-namorado de uma das melhores amigas da vítima em Soledade. A jovem teria presenciado cenas de agressão praticadas por ele contra sua ex-companheira. Na leitura da acusação, Dionatan também temia que Paula revelasse seu envolvimento com o crime organizado, com o tráfico e com cargas ilegais de cigarros.

— O crime foi praticado por motivo torpe e para assegurar a ocultação e a impunidade de outros crimes dos envolvidos — afirma o promotor de Justiça Bill Jerônimo Scherer.

O inquérito da Polícia Civil aponta que no momento em que foi executada, Paula disse aos criminosos que eles poderiam pegar seu telefone. Isso levou os investigadores a concluir que a jovem sabia de crimes cometidos pelos envolvidos e que no celular havia alguma informação que os incriminava. O aparelho da jovem nunca foi localizado.

Quatro dos cinco réus do processo estão presos: Dionatan Portela da Silva, Gesriel da Cunha Wedy, João Albino Abegg dos Santos e Micael Wilian Rossi Ortiz. Todos eles respondem por homicídio sextuplamente qualificado e ocultação de cadáver. Henrique Marder está em liberdade e é réu por de ocultação de cadáver.

A morte da Paula desmantelou um complexo de outros crimes. Até hoje, temos situações de ameaças a pessoas que auxiliaram no trabalho da polícia

FABIANE BITTENCOURT

Delegada de Soledade

O processo criminal que trata do assassinado de Paula é analisado pelo juiz José Pedro Guimarães. Conforme o magistrado, a ação aguarda apresentação de resposta à acusação pela defesa de um dos acusados para que sejam marcadas as primeiras audiências de depoimento das testemunhas. Por enquanto, não há previsão de data para júri.

À frente da equipe que elucidou o caso na Polícia Civil, a delegada Fabiane Bittencourt conta que ao identificar os nomes dos envolvidos no assassinato foi possível abrir novas frentes de investigações de homicídios, tráfico de drogas, organização criminosa e contrabando de cigarros em Soledade que até hoje são foco de apuração:

— A morte da Paula desmantelou um complexo de outros crimes. Foi uma investigação complexa, especialmente o que envolvia a localização do corpo. E os envolvidos atrapalharam a investigação, trocaram o corpo de lugar quando viram que estávamos perto de localizá-lo, tentaram de todas as formas que não resolvêssemos o fato. Até hoje, temos situações de ameaças a pessoas que auxiliaram no trabalho da polícia.

Passo 24 horas pensando nela. Estou aliviada por eles estarem presos, mas um dia vão sair. E minha filha não vai sair, não vai voltar. Os amigos pedem para erguer a cabeça, mas não é algo tão simples. É um pedaço de mim que tiraram.

MARISETE PERIN

Mãe da Paula

Com um ano do crime completado na sexta-feira, o assassinato de Paula deixou um buraco na família que não será mais preenchido. Marisete faz acompanhamento psicológico e conversa, pelo menos uma vez por semana, com Sônia de Fátima Moura, 55 anos, mãe de Eliza Samudio morta aos 25 anos em 2010. O ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, foi condenado pelo crime. Sônia consola a amiga argumentando que Marisete ao menos teve a oportunidade de velar a filha. O corpo de Eliza nunca foi encontrado.

— Passo 24 horas pensando nela. Estou aliviada por eles estarem presos, mas um dia vão sair. E minha filha não vai sair, não vai voltar.  Os amigos pedem para erguer a cabeça, mas não é algo tão simples. É um pedaço de mim que tiraram. Estava sempre sorrindo e perdi a noção de viver. Deito, levanto e caminho e meu pensamento é minha filha. É uma dor que vai amenizar, mas jamais vou esquecer — desabafa Marisete.

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Ela acredita que Paula confiou nas pessoas erradas:

— Ela foi vítima de uma emboscada.

Assistente de acusação e advogada da mãe, Salete Canello lembra que não foi descoberto o que Paula sabia a respeito dos envolvidos.

— A gente espera é a manutenção dos réus na cadeia porque foi um crime bárbaro. Que mal a Paula teria feito para cinco pessoas matarem ela? Ela recém tinha chegado a Soledade e não era envolvida com nada.

Contrapontos

Réus por homicídio sextuplamente qualificado e ocultação de cadáver

Dionatan Portela da Silva
Está preso. Desde o inquérito policial, é considerado o mandante do crime e líder do tráfico de drogas em Soledade. É ex-companheiro de uma das amigas de Paula. O advogado Manoel Castenheiras acredita que a prisão cautelar de Dionatan é imotivada. "Tivemos uma soltura dele nesse processo e logo em seguida foi feita uma série de pedidos de prisão, inclusive em plantão, de juízes que não são naturais da causa, numa tentativa de culpar o réu antes mesmo de ele ser denunciado. Agora, foi transferido de presídio e está tolhido de ter acesso a alimento e roupas que as famílias podem levar", afirma.

Micael Wilian Rossi Ortiz
Ficou foragido por sete meses até ser preso em uma festa em Santa Catarina. Segundo MP, atraiu Paula para o local do crime. "Só tive acesso a ele depois que foi preso. Foi uma atitude pessoal dele que não pode ter tanto efeito no processo. Também foi transferido de presídio e está tolhido de ter acesso a alimento e roupas que as famílias podem levar", afirma o advogado Manoel Castenheiras.

João Albino Abegg dos Santos
Está preso. O advogado Felipe Borges de Oliveira afirma que a defesa tem convicção, pela análise das provas que foram apresentadas com a denúncia, de que João não participou do crime. A defesa está buscando que seja assegurado o direito do réu responder pelo processo em liberdade. "A defesa já apontou várias falhas na investigação, falhas graves que serão todas elas abordadas durante a instrução processual. Já foram apontadas na primeira peça de defesa e está pendente de manifestação do juiz. Acreditamos na Justiça e entendemos que não há provas suficientes que demonstram a participação efetiva de João no crime."

Gesriel da Cunha Wedy
Está preso. A advogada Sabrina Silveira da Rosa foi procurada por GZH, mas não respondeu ao pedido de posicionamento.

Réu por ocultação de cadáver

Henrique Marder
Não tem advogado constituído no processo e responde em liberdade. Um veículo teria sido usado no deslocamento do corpo de Paula do primeiro para o segundo esconderijo. Em depoimento, permaneceu em silêncio e não teve pedido de prisão feito pela polícia.

 
 
 
 
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