¿Nunca vimos ele¿, diz professora de escola onde menino de sete anos estava matriculado em Imbé - Polícia

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Crime no Litoral04/08/2021 | 07h00Atualizada em 04/08/2021 | 07h00

¿Nunca vimos ele¿, diz professora de escola onde menino de sete anos estava matriculado em Imbé

Mãe de Miguel dos Santos Rodrigues, sete anos, alegou que garoto tinha asma, por isso ele nunca frequentou aulas presenciais

¿Nunca vimos ele¿, diz professora de escola onde menino de sete anos estava matriculado em Imbé Lauro Alves / Agencia RBS/Agencia RBS
Bombeiros durante buscas ao corpo do menino em Imbé Foto: Lauro Alves / Agencia RBS / Agencia RBS
Leticia Mendes

No dia 5 de maio, Yasmin Vaz dos Santos Rodrigues, 26 anos, procurou a Escola Municipal de Ensino Fundamental Olavo Bilac, no bairro Harmonia, em Imbé, para matricular o filho Miguel dos Santos Rodrigues, de sete anos. O menino, no entanto, nunca esteve presencialmente na instituição, segundo as professoras.

Na semana passada, Yasmin confessou à Polícia Civil ter espancado Miguel, dopado a criança com medicamentos e arremessado o corpo do filho no Rio Tramandaí. Ela está presa, assim como a companheira, Bruna Nathiele Porto da Rosa, 23 anos.

Buscas são realizadas pelos bombeiros há seis dias no Litoral Norte.

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Vice-diretora da escola, a professora Luciana Maia é uma das responsáveis por fazer o repasse das atividades aos pais e responsáveis pelos alunos que estão em casa. Yasmin, segundo a professora, costumava ir à escola regularmente buscar e entregar os trabalhos.

— Ela vinha sempre acompanhada da companheira. As duas tranquilas, normalmente. Ontem ainda estava vendo os trabalhinhos dele, tudo bem pintado, com letra perfeita. Acredito que não era ele que fazia, que deveria ser ela. Uma criança nessa situação não ia pintar daquela forma, ter a letra perfeita — analisa.

A vice-diretora afirma que a escola só ficou sabendo que o menino sofria maus-tratos após o caso chegar à polícia. Yasmin alegou aos professores que o filho tinha asma e que, por isso, precisava permanecer em casa.

—  Depois que ele foi matriculado, ela mandou uma mensagem para a professora dizendo que ele não poderia frequentar (as aulas) porque tinha asma. A escola não tinha conhecimento do que estava acontecendo. Nunca vimos ele, nunca veio na escola. Lamentamos, claro, muito, não termos tido acesso a ele. Mas não conseguimos fazer nada por ele. Saber agora que ele estava sofrendo tanto, isso nos abala muito. Com vários alunos, conseguimos, mas com ele, infelizmente, não — diz Luciana.

A vice-diretora diz que a escola conta com auxílio de uma psicóloga, que ajuda no atendimento de casos em que há suspeita de que a criança possa estar sendo vítima de algum tipo de abuso, maus-tratos ou mesmo problemas psicológicos. A professora diz que o assunto não foi tratado até o momento com os demais alunos, pela brutalidade do caso. A instituição tem atualmente 580 estudantes matriculados.

Conselho Tutelar

Presidente do Conselho Tutelar de Imbé, João Batista de Matias diz que o primeiro comunicado que receberam sobre o menino aconteceu somente na quinta-feira, quando Yasmin procurou a Polícia Civil com intuito de registrar o desaparecimento de Miguel. A mulher acabou confessando à polícia ter espancado o garoto e depois arremessado seu corpo no Rio Tramandaí.

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—  O primeiro contato foi na quinta-feira, por volta das 21h, quando a DP nos acionou, porque havia suspeita de uma situação de maus-tratos e possível cárcere privado. Deslocamos até a DP, mas lá a mãe já havia confessado o crime contra o menino Miguel  — afirma Matias.

Até o momento, segundo o presidente, o Conselho não tinha nenhuma informação ou denúncia em relação à família. A Polícia Civil também não tem registro anterior de suspeita de maus-tratos contra o menino. Vídeos e mensagens obtidos pela investigação, além dos relatos das duas mulheres, indicam que Miguel sofria tortura física e psicológica.

—  Elas estavam morando há pouco tempo no município (desde abril) e a criança estava fazendo as atividades de forma remota, em casa. As atividades estavam em dia. Não havia uma suspeita. Algumas pessoas relataram que sequer sabiam que elas tinham criança em casa. O delegado nos informou que alguns vizinhos chegaram a suspeitar, mas nunca houve denúncia ao Conselho ou outro órgão de proteção do município — alega.

Nesta terça-feira (3), uma reunião envolvendo Conselho Tutelar, prefeitura, vereadores e rede municipal de ensino é realizada na Câmara de Vereadores de Imbé. No encontro, estão sendo debatidas estratégias para aprimorar o contato da rede escolar com os alunos durante a pandemia, quando parte dos pais e responsáveis tem optado por manter os filhos em casa.

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A prefeitura informou que a partir desta quarta-feira (4) as aulas nas escolas municipais de Imbé retornarão 100% em sistema híbrido, não havendo mais a possibilidade de aulas totalmente remotas, exceto em casos especiais de comorbidade grave de alunos. A decisão, que já consta em decreto municipal, prevê que as aulas sejam intercaladas, com uma semana de presencial e outra em casa. 

—  Os professores são muitas vezes os olhos do Conselho Tutelar. Quando há suspeita de maus-tratos, negligência, o conselho sempre é comunicado. Se o menino Miguel estivesse frequentando as aulas, com certeza o desfecho seria outro — avalia Matias.  

Contrapontos

O advogado Bruno Vasconcelos, até então responsável pela defesa de Yasmin, informou na tarde desta terça-feira (3) que deixará a defesa da presa. Em nota, o advogado disse que comunicará o juízo competente que não atuará mais na defesa técnica dela e que não comentará o caso. GZH entrou em contato com o Tribunal de Justiça para saber se uma nova defesa foi constituída e aguarda retorno.  

A advogada Josiane Tristão Silvano, que defende Bruna, informou que está analisando o inquérito e as provas e que só deve se manifestar após conversar novamente com a cliente. 

 
 
 
 
 
 
 
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