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 Cadê o doce?21/08/2021 | 07h00Atualizada em 22/08/2021 | 14h56

Polícia investiga doceira de Viamão que desapareceu sem fazer entregas a clientes

Moradores da Grande Porto Alegre relatam ter sido lesados por confeiteira

Polícia investiga doceira de Viamão que desapareceu sem fazer entregas a clientes Leticia Mendes / Agencia RBS/Agencia RBS
Ofertas eram enviadas pela internet, prometendo valores em produtos Foto: Leticia Mendes / Agencia RBS / Agencia RBS
Leticia Mendes

Quase quatro meses antes do aniversário do filho de três anos, Vanessa dos Santos, 30 anos, resolveu se adiantar e encomendar o bolo. Prestes a realizar a comemoração no próximo domingo (22), não consegue mais contato com a doceira que prepararia os quitutes. A técnica de enfermagem integra um grupo de clientes da mesma confeiteira de Viamão, na Região Metropolitana, que acredita ter sido vítima de golpe. O caso passou a ser investigado nesta sexta-feira (20) pela Polícia Civil.  

O que inicialmente parecia uma opção atrativa se transformou em dor de cabeça para os consumidores. Após anunciar série de promoções e receber pagamentos adiantados, a proprietária de uma doceria artesanal, segundo os clientes, desapareceu, sem fazer a entrega das encomendas. Os registros são realizados por meio da Delegacia Online – por isso, a polícia ainda não sabe apontar quantos casos efetivamente foram comunicados. Quase cem pessoas se reuniram por meio de um grupo de WhatsApp, onde afirmam ter sido lesadas pela mesma pessoa.  

— Não esperava. Ela é muito reconhecida. Sou cliente há mais de quatro anos. Fiz a encomenda com antecedência porque ela nunca tinha data. Então, quis garantir para não ter risco. Domingo é aniversario do meu filho e os bolos e doces eu perdi. Isso não pode ficar impune — diz Vanessa.  

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A técnica de enfermagem conta ter transferido pelo menos R$ 450 para a doceira. Os valores depositados dariam direito, conforme os anúncios realizados pela doceira, a cerca de R$ 6 mil em produtos. Além do prejuízo, precisou fazer novamente a compra com outra profissional. Os clientes eram incentivados a fazer pagamentos antecipados, com os quais seriam beneficiados com vouchers em valores bem superiores.  

As promoções prometiam, por exemplo, que ao pagar R$ 69,90 adiantado o cliente receberia voucher de R$ 2 mil que daria direito a adquirir produtos. Os valores dos anúncios, enviados em grupos ou em mensagens diretas, variavam. Outra promoção anunciava que, ao pagar R$ 99,90, o cliente teria direito a voucher de R$ 1 mil. Havia ofertas de valores mais acessíveis, de apenas R$ 50 para obter direito a R$ 1,5 mil em produtos. Nesse caso, as entregas precisavam ser agendadas com antecedência.  

Foi o fato de se tratar de uma confeiteira renomada, inclusive com indicações de pessoas famosas na internet, que fez Aline Carvalho, 27 anos, não desconfiar das supostas promoções.   

— Fiz pagamento antecipado de R$ 300, mas tem pessoas que pagaram mais, até R$ 2 mil. Quem já era cliente dela, diz que realmente os produtos eram maravilhosos. Um bolo custava em torno de R$ 250 — afirma.  

GZH não divulga o nome da doceira porque, neste momento, ela é considerada suspeita, sem ter sido ouvida pela polícia, e ainda não foi localizada para apresentar sua versão.

Indicações de clientes  

A entrega do bolo e dos doces que esperava para passar com os familiares o Dia dos Pais não aconteceu – ela precisou recorrer a uma padaria. Aline chegou a fazer um segundo pedido, de cupcakes, para a inauguração de um estúdio de estética, e também não recebeu. A micropigmentadora chegou até a doceira após ser indicada por uma amiga.  

Uma das estratégias da confeiteira seria recompensar com brindes aqueles que indicavam novos clientes. Agora, a suspeita é de que essa fosse uma forma de ampliar o golpe. A empresária Fernanda França Ferreira, 38 anos, também chegou até a confeiteira após ser indicada por uma amiga, que chegou a levar provas dos produtos para que conhecesse.  

— Não achei que era golpe. Minha amiga comprou duas vezes e recebeu certinho. E o cardápio dela tem valor elevado. Não dava para comprar tanta coisa (com o valor do voucher) — diz a cliente, que pagou R$ 350.  

Não achei que era golpe. Minha amiga comprou duas vezes e recebeu certinho. E o cardápio dela tem valor elevado.

FERNANDA FERREIRA

Empresária

Fernanda conta que encomendou um bolo e docinhos para o aniversário de quatro anos da filha. A empresária diz que recebeu somente o bolo, no momento da festa, e ainda quente. Os docinhos não foram entregues.  

— Ela largou o bolo na mesa, que desmoronava de tão quente que estava. Pensei que ela ia buscar o restante. Mas não. Fiquei paralisada. Não tive reação. Ela foi embora. Entrei em contato e falei que queria dinheiro de volta — recorda.  

A empresária relata que ao buscar ser ressarcida passou a ser ofendida pela doceira. Quando viu os posts nas redes sociais é que Fernanda descobriu que a situação era grave. Agora, ela acredita ter sido vítima de golpe.  

Cliente da mesma doceira, Cristiane Longaray de Oliveira Borba, 37 anos, chegou a estranhar quando a confeiteira lançou as promoções com os vouchers:  

— Pensei que era estranho pagar um valor e receber tanto de volta, ainda mais produtos dela, de ótima qualidade. Mas, como já tinha contato com ela há cinco anos, comprei.  

Como prometido, os bolos para os aniversários do marido e da filha foram entregues. Confiante de que se tratava mesmo de uma promoção, Cristiane fez nova compra, no valor de R$ 200, e pediu duas entregas: uma delas para o Dia dos Pais. O produto, no entanto, estava diferente do que havia recebido antes.  

— Veio muito seco, queimado embaixo. Metade não conseguimos comer. Tinha uma entrega para setembro. Estou com voucher de quase R$ 2 mil e mais R$ 250 em dinheiro, que ela não me entregou os produtos — conta. 

Na última segunda-feira (16), Cristiane recebeu uma mensagem na qual a doceira afirmava que não aceitaria mais encomendas. A página da doceria artesanal foi retirada do ar no Facebook. A confeiteira não possui atualmente loja física. GZH tentou contato por telefone, mas o aparelho está desligado. 

Formatura 

Foi por meio do Instagram que uma moradora da Capital – que pediu para ter o nome preservado – encontrou a doceira, que possuía boas recomendações e preços atraentes. A mulher de 31 anos chegou a receber parte dos produtos adquiridos, até o mês de agosto. Mas, após uma nova compra, acredita também ter sido enganada. O bolo havia sido encomendado para a comemoração da formatura em Recursos Humanos. No ano passado, a jovem teve a festa cancelada em razão da pandemia. Agora, pretendia celebrar junto do aniversário.  

Acredito que as promoções, com pagamento adiantado, sem qualquer alerta ou suspensão da promoção, levam a crer que se caracteriza a vontade de praticar o crime de estelionato

JULIANO FERREIRA

Delegado de Polícia

— Acho que ela realmente agiu de má-fé. Mesmo sabendo que não ia conseguir entregar, continuou fazendo promoções. Ela trabalha com sonhos de pessoas, que são festas de aniversário e a realização de conquistas como a minha formatura. O dano emocional causado vai muito além do financeiro — lamenta a cliente, que, abalada, ainda não sabe como irá comemorar a formatura.  

Assim como outros clientes, ela decidiu registrar um boletim de ocorrência por estelionato. Pelo Instagram, conseguiu contato com a doceira, que na noite desta quinta-feira (19) respondeu as mensagens dizendo que irá ressarcir todos que foram lesados.  

A investigação   

O primeiro passo da investigação será reunir os registros realizados pela Delegacia Online e ouvir os depoimentos das vítimas. O delegado regional Juliano Ferreira reforça a necessidade de os clientes registrarem os casos.  

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— Acredito que as promoções, com pagamento adiantado, sem qualquer alerta ou suspensão da promoção, levam a crer que se caracteriza a vontade de praticar o crime de estelionato. Mas só com os depoimentos e investigação poderemos comprovar essa prática. Nesse tipo de crime, se somente uma ou duas registrarem, dificilmente será caracterizado como crime de estelionato. Pode se entender que houve desacerto comercial. Quantos mais ocorrências, mais detalhes a polícia vai poder obter — explica o delegado.  

Onde registrar

É possível fazer o boletim direto pela Delegacia Online da Polícia Civil, neste link. As vítimas também podem procurar a delegacia mais próxima. 

 
 
 
 
 
 
 
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