Delegado pretende ouvir nos próximos dias PMs envolvidos em morte de policial rodoviário aposentado em Torres - Polícia

Versão mobile

 
 

Um mês depois24/09/2021 | 09h08Atualizada em 24/09/2021 | 09h09

Delegado pretende ouvir nos próximos dias PMs envolvidos em morte de policial rodoviário aposentado em Torres

Fábio Cesar Zortea, 59 anos, foi morto durante abordagem da Brigada Militar na madrugada do dia 23 de agosto

Delegado pretende ouvir nos próximos dias PMs envolvidos em morte de policial rodoviário aposentado em Torres Arquivo Pessoal / Divulgação/Divulgação
Fábio Zortea com os três cachorros: Pretinha, Layla e Baruki Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / Divulgação
Leticia Mendes

Uma das últimas etapas do inquérito que apura a morte do policial rodoviário federal aposentado Fábio Cesar Zortea, 59 anos, durante abordagem da Brigada Militar (BM) em Torres, no Litoral Norte, será ouvir os cinco policiais investigados pelo crime – dois deles por homicídio doloso, quando há intenção de matar. Dois filhos de Zortea também são investigados na mesma apuração. O caso completa um mês nesta quinta-feira (23).

Segundo o delegado Juliano Aguiar de Carvalho, a polícia deu início ainda nesta quinta-feira às oitivas dos PMs  — não foram revelados detalhes até o momento. Dos cinco, dois estavam no momento inicial da abordagem ao carro onde estavam os filhos de Zortea. Um dos PMs efetuou os disparos, que acabaram atingindo o policial rodoviário aposentado e um dos filhos dele. Eles devem ser os últimos a serem ouvidos. 

— Estamos ouvindo nessa semana e na próxima concluiremos —  afirma o delegado.

Segundo a polícia, são aguardados resultados de perícias nas duas armas, solicitadas ao Instituto-Geral de Perícias em 28 e 30 de agosto, assim como em uma lata de vodca apreendida no local. O delegado não adianta detalhes do que foi concluído até o momento. A Polícia Civil pediu prorrogação do inquérito, que ainda não tem data para ser finalizado. 

— Faltam algumas coisas muito importantes para a gente concluir — diz.

Antes de partir para esta que deve ser uma das fases finais da investigação, a polícia se dedica a colher relatos de testemunhas e analisar imagens, tanto de câmeras de segurança próximas de onde aconteceu a confusão e os disparos, como gravações de populares.

— Ainda temos duas filmagens pendentes, que fizemos o pedido e ainda não tivemos retorno — diz o delegado.

O principal objetivo é tentar compreender como se deu a abordagem que resultou na morte do aposentado, quem iniciou as agressões e de que forma elas aconteceram. Naquela madrugada, os dois filhos de Zortea, Fábio Augusto, 37 anos, e Luca, 33, estavam a bordo de um Gol branco que foi seguido por uma viatura da BM. O carro parou em frente ao prédio da família, na área central do município do Litoral Norte, e os policiais estacionaram atrás. Durante a abordagem, começou uma discussão entre eles e os irmãos.

O pai, a mãe e a irmã ouviram os gritos do apartamento e desceram até a calçada. Na confusão, o pai, ao tentar interceder pelos filhos, acabou baleado e morreu no local. Parte da briga foi gravada por vizinhos, que viraram testemunhas no inquérito. O filho, Fábio Augusto, também chegou a ser baleado na ação e permaneceu hospitalizado. O outro filho, Luca, foi preso naquela noite e liberado logo depois.

Três dias após o crime, uma das filhas de Zortea narrou a GZH que o pai se apresentou como policial e pediu que parassem de bater em seus filhos.

— Meu pai começou a dizer que também era policial. Mas eles não acreditaram. Ele estava tentando amenizar, pacificar, dizia que era da polícia, que não era assim que se abordava. Daí meu irmão mais novo (Luca) vai para cima do policial. Aí começou a briga. Eles ficaram revoltados, começaram a bater no meu pai. Quando começaram a agredi-lo, meu irmão se possuiu. Meu pai só pedia para parar, para não baterem neles — contou a jovem.

Os policiais envolvidos na abordagem estão afastados da função. Em paralelo à investigação da Polícia Civil, há um inquérito policial militar em andamento. Dentro dessa apuração, que atualmente está a cargo da Corregedoria-Geral da BM, os policiais já foram ouvidos. O prazo é de 40 dias a partir da data do crime, podendo ser prorrogado por mais 20. A BM diz que irá se manifestar após a conclusão desse inquérito.

Abaixo-assinado

Segundo o advogado Ivan Brocca, que representa a família de Zortea, abaixo-assinado reuniu mais de mil assinaturas até o momento, pedindo as prisões preventivas dos PMs. A Polícia Civil não se manifestou até o momento sobre eventual pedido de prisão.

— É um movimento da comunidade, da cidadania, irresignada com a situação. Isso por si só não é elemento basilar principal para fomentar pedido de prisão preventiva. Mas é elemento muito forte para demonstrar para a Justiça o quão revoltante é essa situação. O que mais gera indignação é ter visto que um pai de família, o Fabio, aposentado, pessoa com 59 anos, da paz, ter sido brutalmente assassinado — afirma.

O advogado argumenta ainda que os disparos contra a família foram desproporcionais e que o policial rodoviário interveio ao ver que o filho estava sendo agredido.

— Fabio, o pai, não era objeto de abordagem e nunca foi. Em vendo a situação em que os filhos estavam passando, especialmente o Fábio Augusto, que estava sendo agredido, está nas filmagens, qualquer pai, qualquer mãe, agiria como eles agiram. Com todo respeito que merece a defesa, foi desproporcional o que foi feito. Se fossemos admitir, ainda como hipótese, que aquela ação da abordagem estivesse 100% correta, ainda assim, jamais se justificaria — diz.

O que diz a defesa dos PMs

O advogado Maurício Custódio, responsável pela defesa do PM que deu os tiros, argumenta que as imagens iniciais não dão conta do contexto. Afirma que os policiais militares tentaram abordar o veículo para verificar suspeita de desordem, mas que os irmãos fugiram e reagiram. O advogado alega que o cliente atirou porque o colega estava sendo agredido, para se defender, e diz que houve uso progressivo da força:

— A agressão partiu primeiro dos civis. Não houve a abordagem e imediatamente os disparos. Todo material não letal disponível àquela guarnição foi esgotado. A intenção não era ocasionar a morte por desprezo à vida. O disparo foi o último recurso, para evitar que fosse tomada a arma e agredido o próprio policial. Não havia condição de saber que ele (Zortea) era policial. No interrogatório, os policiais poderão dizer o que sentiram, o que motivou os disparos.

Responsável pela defesa do outro PM que aparece nas imagens, José Paulo Schneider defende que o cliente agiu dentro da legalidade. Sobre o depoimento do policial na investigação, diz que ele está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. O PM já foi ouvido dentro da apuração militar.

— Quero destacar nosso respeito à família da vítima, por estar completando um mês do falecimento. Não há nada que possa dizer que vá trazer o Zortea de volta. Mantemos compromisso de fazer a defesa respeitosa, transparente e firme, que irá demonstrar a correção e legitimidade na conduta. Esperamos o desenrolar com tranquilidade e com certeza de que as investigações transcorrerão no ambiente de imparcialidade e extrema legalidade. Ao final, vai demonstrar a correção da legitimidade da conduta dele (do PM)— afirma.

 
 
 
 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros