Adolescente que foi algemado em shopping e mãe registram boletim de ocorrência em Porto Alegre - Polícia

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Na Delegacia de Combate à Intolerância25/01/2022 | 13h52Atualizada em 25/01/2022 | 14h02

Adolescente que foi algemado em shopping e mãe registram boletim de ocorrência em Porto Alegre

Vendedor de balas foi imobilizado por policiais militares na última terça-feira (18); Brigada Militar instaurou sindicância para apurar abordagem 

Adolescente que foi algemado em shopping e mãe registram boletim de ocorrência em Porto Alegre Arquivo pessoal / Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Boletim de ocorrências traz relato do adolescente que foi algemado no shopping na última terça-feira (18) Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

O adolescente de 15 anos que foi imobilizado e algemado por dois policiais em um shopping na zona norte de Porto Alegre, na última terça (18), registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Combate à Intolerância. Acompanhado pela mãe, ele contou à Polícia Civil a sua versão dos fatos, ocorridos no Bourbon Wallig, na Avenida Assis Brasil. 

O 11º Batalhão da Polícia Militar (BPM) abriu sindicância para apurar as circunstâncias e as atitudes dos soldados que fizeram a abordagem. 

No boletim de ocorrência, o adolescente, que faz curso de Ensino Médio para jovens e adulto pela noite, afirma que estava com outros cinco garotos para "pedir ou conseguir uma caixa de balas para venderem na rua". A confusão com os seguranças do estabelecimento teria começado, segundo o relato à Polícia Civil, enquanto o grupo esperava, já do lado de fora, a chegada de uma refeição comprada por uma cliente, depois que os policiais militares já haviam conseguido tirá-los do shopping. 

"O grupo retornou e ficaram mexendo nos celulares enquanto aguardavam. Os policiais voltaram e o grupo saiu caminhando, mas um segurança trancou a escada rolante e empurrou um deles, que machucou o joelho. Quando o declarante e os outros viram o sangue, saíram correndo assustados", registra o documento, acrescentando que o autor da denúncia foi alcançado e pressionado contra a parede por um segurança do centro comercial. 

Na visão da mãe e do filho, moradores do bairro Rubem Berta, a truculência da ação registrada em vídeo por testemunhas foi motivada por racismo. 

Ambos afirmam que atuam há cinco anos em sinaleiras no entorno do shopping, e a mãe diz ter boa relação com os lojistas. Há 10 dias, conta ter sido contratada por uma empresa de prestação de serviços e que deixou a atividade de vendedora ambulante, após seis anos desempregada. Desde que passou a vender balas, água e outros doces na Avenida Assis Brasil, por ideia do filho, o contato com os seguranças e policiais do local costumava ser respeitoso, conforme ela. 

— Pediam para não venderem lá dentro. Mas adolescente é teimoso, então acabou juntando mais gente vendendo. E os seguranças começaram a agir mais por ali. Sempre me disseram que o meu filho não fazia problema, e eu pedia para me chamarem caso fizesse, mas ele sempre saía quando pediam para ele sair. Outros guris fazem bagunça, reclamam, gritam. Acho que pegaram meu filho para dar exemplo achando que era um maior de idade, tipo um líder dos outros vendedores — argumenta a mulher, que se emociona ao lembrar do caso ocorrido com o filho: 

— Saí do trabalho e vi no celular aquele vídeo dele sendo algemado. Me sinto até agora muito humilhada, não sabia o que fazer. Preferia que tivessem feito isso comigo e não com ele. Ele está com muito medo de ser perseguido, não quer mais voltar lá. O sonho dele era ser brigadiano e tiraram isso dele, por ele ser um negro vendedor de balas. Precisamos mostrar isso para que não aconteça com mais ninguém.  

Ainda de acordo com o relato do adolescente no boletim de ocorrência, o primeiro segurança do shopping foi orientado por um colega a soltá-lo. Quando os PMs chegaram ao local onde a abordagem acontecia, "um policial apontou uma arma de choque e o mandou deitar no chão com as mãos para trás. O menor relata que não entendeu os comandos e que um segurança repetiu. Ele foi algemado, momento em que pede para que frequentadores do shopping filmassem". 

A subcomandante do 11º BPM, major Michele Maria, afirmou no sábado (22) que não percebeu irregularidade na ação dos soldados, que foram chamados para conferir uma perturbação do ambiente relatada pelos seguranças. Segundo ela, a dupla algemou o adolescente sem saber a idade dele, considerando o porte físico e uma suposta resistência à abordagem. 

A sindicância aberta pela BM consultará imagens das câmeras, depoimento da vítima e de testemunhas, além da própria versão dos soldados que atenderam a ocorrência. 

O que diz o Grupo Zaffari, proprietário do shopping:

A empresa se manifestou por meio de nota, enviada no início da tarde desta terça-feira:

"A empresa entende que a apuração dos fatos é uma prerrogativa das autoridades, às quais se mantém à disposição para colaborar nas investigações."

 
 
 
 
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