Morte de passageira, latrocínio de taxista e assassinato de ex-exilado: três crimes que ficaram para 2022 - Polícia

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Em Porto Alegre10/01/2022 | 09h48Atualizada em 10/01/2022 | 09h48

Morte de passageira, latrocínio de taxista e assassinato de ex-exilado: três crimes que ficaram para 2022

Dois homicídios e um assalto com morte estão entre os fatos que entraram o novo ano na espera de um desfecho

Morte de passageira, latrocínio de taxista e assassinato de ex-exilado: três crimes que ficaram para 2022 Sabrina Krischke / Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Foto: Sabrina Krischke / Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Leticia Mendes

Três crimes ocorridos em Porto Alegre no ano passado chegam a 2022 no aguardo dos desfechos. Em junho, Munike Fernandes Krischke, 45 anos, seguia com o marido para um restaurante onde pretendia comemorar o Dia dos Namorados, quando um paralelepípedo arremessado transfixou o vidro dianteiro do veículo e atingiu a passageira. Em setembro, o taxista Gilberto Bof, 72, foi assassinado a tiros durante assalto. Em 10 de dezembro, o militar da reserva José Wilson da Silva, 89, ex-exilado e ativista dos direitos humanos, foi alvejado dentro de casa.

Os casos aconteceram em diferentes pontos da Capital: Munike foi atingida na Zona Norte, no acesso entre a freeway e a Avenida Presidente Castello Branco; Bof acabou baleado enquanto atendia corrida no bairro Cavalhada, na Zona Sul; e o chamado Tenente Vermelho morreu no bairro Partenon, na Zona Leste, onde morava. 

GZH ouviu os responsáveis pelas investigações dos dois homicídios e do latrocínio (roubo com morte) para entender os pontos que estão em aberto.

Dentro de casa  

Ex-exilado e ativista reconhecido nacionalmente, José Wilson da Silva vivia em casa cercada de portões de ferro no bairro Partenon. Isso não impediu que, na madrugada de 10 de dezembro, três dias antes do seu aniversário de 90 anos, fosse assassinado no pátio da moradia. O Tenente Vermelho, como era conhecido o histórico militante de esquerda, foi executado a tiros, num crime que completa um mês nesta segunda-feira (10).  

À frente da investigação, a delegada Isadora Galian, da 1ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), diz que a polícia ouviu 14 pessoas ao longo das quatro semanas para entender o contexto do crime. Entre eles, familiares, vizinhos, um guarda da rua e um chaveiro. Nenhum deles relatou que o ex-exilado tivesse recebido ameaça ou tivesse inimizades. 

— Ainda estão sendo analisadas todas as imagens de câmeras das redondezas. Alguns exames periciais específicos foram solicitados e aguardamos retorno — afirma a delegada.  

Um projétil recolhido em estante de metal também foi enviado para a perícia. A bala, que teria atravessado o corpo da vítima, foi encontrada pela família no momento em que faziam limpeza no pátio. Como não foi localizado estojo, a suspeita é de que tenha sido usado revólver.  

— Esse projétil provavelmente foi o que matou o senhor Wilson — diz a delegada.  

Segundo a Polícia Civil, o idoso tombou alvejado perto dali, junto da escada de acesso à área externa. Os agentes que estiveram na moradia realizaram uma reprodução de como acreditam que teria acontecido o crime. O idoso residia na casa com a companheira, que havia sido sua cuidadora. Quando ouvida, a mulher relatou que naquela madrugada acordou com pessoas mexendo na porta que dava acesso ao pátio. Depois disso, teria despertado José Wilson, e ele teria saído do quarto com um facão na mão. A vítima foi atingida por dois disparos: no abdômen e nas costas.  

A motivação do assassinato ainda é mistério, já que nada foi levado de dentro da casa, o que reduz a possibilidade de latrocínio. A polícia acredita na possível participação de pessoa próxima do idoso, pois os três criminosos ingressaram na moradia sem sequer arrombar os portões. Sem revelar detalhes, a delegada diz que nos próximos dias deverá ter novidades na investigação.  

Wilson foi vereador de Porto Alegre, era filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), presidente da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos dos Rio Grande do Sul e da Associação de Defesa dos Direitos e Pró-Anistia dos Atingidos por Atos Institucionais. Em agosto, havia viajado a Brasília para debater assuntos relacionados ao tema. 

Em corrida 

Na noite de 13 de setembro, o taxista Gilberto Bof atendeu mais uma corrida no bairro Cavalhada, como de costume. Vítima de um assalto, no entanto, o motorista foi morto com dois tiros na cabeça e teve o corpo arremessado para fora do veículo. A Polícia Civil conseguiu chegar ao nome de um suspeito, que teve prisão temporária decretada ainda em outubro, mas até hoje não foi encontrado.  

A investigação, realizada pela 13ª Delegacia de Polícia, é conduzida pela delegada Vivian do Nascimento. Uma das dificuldades enfrentadas pelos investigadores foi o fato de o crime ter ocorrido durante a noite, em dia de chuva e sem testemunhas. Imagens de câmeras de segurança ajudaram os investigadores a traçar o caminho realizado pela vítima com o táxi. Assim como o trajeto feito pelo criminoso, que abandonou o veículo no bairro Santa Tereza.  

Bof foi baleado com dois tiros na cabeça pouco depois das 20h, na Rua Vicente Pereira de Souza. Logo após, o criminoso abandonou a vítima no meio da rua e fugiu levando o veículo, um Etios. Moradores do entorno tentaram prestar socorro, mas o taxista morreu no local.  Uma das testemunhas ouvidas relatou que o bandido teria empurrado o taxista, já baleado, para fora do veículo e assumido o volante, fugindo com o carro.  

Cerca de três horas após o taxista ser baleado, o veículo dele foi abandonado na Rua Doutor Milton Guerreiro, próximo à Rua Correa Lima, no bairro Santa Tereza. Câmeras de segurança do entorno registraram o momento em que o automóvel foi deixado no local, por volta das 23h. Pelas imagens, é possível ver quando um homem sai do veículo e mexe na parte traseira do carro. Além de dois celulares e de cartões bancários, o assaltante levou o estepe do carro e uma caixa de ferramentas.  

Com histórico criminal, mas sem registro anterior por latrocínio, um suspeito foi identificado, mas seu paradeiro é desconhecido e a investigação continua em aberto. A polícia cogita que ele tenha agido sozinho durante o assalto. A suspeita é de que o investigado tenha deixado a Capital para evitar de ser localizado. A polícia conta com apoio da Brigada Militar para tentar localizá-lo. 

Casado e pai de dois filhos, Bof nasceu em Gramado, na Serra, mas morou quando jovem no bairro Cavalhada, em Porto Alegre, na casa dos pais. Segundo familiares, era taxista havia cerca de 25 anos. Antes de atuar na Zona Sul, trabalhou no ponto do Centro Administrativo Fernando Ferrari.  

Ataque a veículo 

A noite de 12 de junho deveria ter sido de comemoração para Alex Von Zeidler Ramos, 40, e a esposa Munike Fernandes Krischke, com quem era casado há nove anos. Pais de um menino, seguiam para a zona sul de Porto Alegre, onde pretendiam celebrar o Dia dos Namorados. Quando cruzavam perto da antiga ponte do Guaíba, um paralelepípedo de sete quilos bateu contra o vidro dianteiro e atingiu em cheio o peito de Munike. O crime completa sete meses na próxima quarta-feira (12), mas a falta de testemunhas e de imagens desafia a polícia.  

A investigação da morte é realizada pela equipe da 2ª DHPP de Porto Alegre. Ao longo da apuração, um homem chegou a ser apontado por populares como possível responsável pelo ataque, mas, segundo a delegada Roberta Bertoldo, nenhuma evidência de participação dele foi encontrada.  

— Nossa grande dificuldade é realmente a falta de testemunhas. O marido fez o que era esperado, ir direto ao atendimento médico, e, por isso, não chegou a visualizar ninguém. Nenhum dos outros condutores citou ter visualizado a pessoa que atirou isso — afirma.  

Ainda que o paralelepípedo tenha sido apreendido, pois ficou dentro do veículo do casal, a perícia informou que nesse tipo de superfície não é possível coletar impressão digital, que poderia levar à autoria do crime. A polícia passou a buscar imagens de câmeras do entorno, após concluir que o ataque teria acontecido mesmo nas proximidades da antiga ponte.  

— Algumas são de uma distância bem grande. A iluminação do local era ruim. Nós visualizamos pessoas passando pela ponte, mas não paravam, seguiam caminhando. A cena do crime não foi captada por nenhuma câmera — diz a delegada.  

Na última quarta-feira (5), novos ataques foram registrados no mesmo ponto do acesso à Capital. Um casal teve o vidro do automóvel estilhaçado, mas ninguém ficou ferido. Nesses episódios, as vítimas relataram acreditar que os arremessos tenham ocorrido de dentro da área dos trilhos da Trensurb. No caso de Munike, pelo ângulo que atingiu o para-brisas, a polícia entende que a pedra foi jogada do alto da ponte.  

Câmeras, iluminação e estudo de gradis 

Além da investigação, o caso gerou outros desdobramentos, como uma série de recomendações do Ministério Público Federal (MPF). Cinco pontos considerados sensíveis foram identificados com auxílio da Polícia Rodoviária Federal (PRF): entre eles os quilômetros 94 e 96 da freeway e o acesso à BR-448, de responsabilidade da concessionária CCR ViaSul – os outros dois ficam na ponte nova e no entroncamento da BR-386 com a BR-116, áreas administradas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). 

Algumas medidas são instalação de câmeras, melhoria da iluminação e colocação de placas informando que o trecho é monitorado. A CCR ViaSul diz que atendeu a todas as recomendações acertadas com o MPF. Um ponto que ainda está em aberto é a instalação de telas ou gradis. Sobre isso, o MPF fez recomendação à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em dezembro, com prazo de 60 dias.  

— Solicitei que façam os estudos técnicos de engenheira, para ver qual equipamento poderia ser colocado sem atrapalhar a estrutura da alça, e que não seja fácil de ser retirado, derrubado, e qual a viabilidade. O principal é tentar melhorar a segurança das pessoas. Mitigar e diminuir esse tipo de crime — afirma o procurador da República Rodrigo Valdez de Oliveira.

Relatório realizado pelo MPF também apontou presença de pedras, entulhos e restos de demolição nas proximidades do acesso à ponte móvel. O documento enfatiza ainda que há duas escadas de acesso direto às alças da ponte, o que permite que alguém colete pedras em meio aos entulhos e suba rapidamente até lá para lançar sobre os veículos. Por isso, também foi feita recomendação, no fim de dezembro, à prefeitura para limpeza da área e cercamento de terrenos.  

 Está previsto para a próxima segunda-feira um mutirão de limpeza nas áreas do entorno da antiga ponte, além de roçada e recolhimento de pedras soltas. O trabalho será realizado pelas equipes da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) e do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).  

O mutirão vai contar com o trabalho de 20 pessoas, além de um caminhão, roçadeiras e uma retroescavadeira. O serviço está programado para iniciar às 8h e deverá terminar no mesmo dia. A ação atende ao pedido do MPF. 

A PRF informou que reforçou o policiamento na área, após os casos da última quarta-feira. A CCR ViaSul disse que faz rondas periódicas nas vias. Os últimos ataques são investigados pela 4ª Delegacia de Polícia, que apura se há ligação entre a morte de um homem, atropelado pelo trem, com os fatos ocorridos naquela noite. 

Como colaborar?  

 Quem visualizar algum arremesso ou atitude suspeita na região, ou mesmo for vítima desse tipo de crime, deve entrar em contato com a PRF pelo 191 e com a Brigada Militar, pelo 190. Os casos devem ser registrados em uma delegacia mais próxima ou pela Delegacia Online.   

Informações que ajudem a esclarecer os casos podem ser repassadas à Polícia Civil pelos telefones 051-98444-0606 (WhatsApp e Telegram) e pelo Disque-Denúncia, no 181.  

 
 
 
 
 
 
 
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