Como guerra entre facções criminosas afeta a rotina de escolas em Porto Alegre - Polícia

Versão mobile

 
 

Onda de ataques08/04/2022 | 07h00Atualizada em 08/04/2022 | 07h00

Como guerra entre facções criminosas afeta a rotina de escolas em Porto Alegre

Pais, alunos e professores dos bairros Cristal e Vila Cruzeiro, na Zona Sul, relatam aumento da insegurança 

Em uma manhã de aula normal na região da Vila Cruzeiro, no bairro Santa Tereza, na zona sul da Capital, seis alunos do nono ano conversavam em frente à Escola Municipal de Ensino Fundamental Vereador Martim Aranha. Era antes das 9h30min desta quinta-feira (7). A professora deles não foi trabalhar por estar doente e não havia substituição para ela. Os alunos tiveram de deixar os pátios internos do colégio na metade do turno.

Com idades entre 14 e 16 anos, não queriam voltar para suas casas caminhando, pois teriam de atravessar regiões onde não se sentem tão seguros quanto dentro da escola. Apesar de confessarem que não gostam de algumas matérias que precisam aprender, garantem que preferiam estar em sala de aula. O conflito entre facções do tráfico de Porto Alegre já deixou 23 mortos e 31 feridos, além de 16 presos e três adolescentes apreendidos desde o dia 14 de março. 

— Acho errado manterem as aulas tendo só os dois primeiros períodos da manhã. Saí de casa pra chegar no colégio às 8h e tive de sair do colégio às 9h30min. Seria melhor cancelar a aula, pois não é seguro ficar circulando entre a casa, a escola e a rua — argumenta uma estudante, moradora da Avenida Orfanotrófio, eleita entre os amigos para ser a porta-voz deles na reportagem.

Dentro da escola, o diretor Magno Athaydes, 36 anos, confirma que quando há conflitos armados perto da Rua Cônego Paulo Isidoro de Nadal, mais professores tentam ficar em casa para preservar a própria segurança, agravando a falta de profissionais para cobrir todos os turnos de aulas e substituições dos que estão de licença ou atestado. A violência da guerra do tráfico se soma à dificuldade de alocar professores em áreas de risco, onde apenas a rede pública oferece educação.

+ SOBRE GUERRA DO TRÁFICO
23 mortos em 19 bairros: saiba onde aconteceram os ataques envolvendo guerra de facções em Porto Alegre
Polícia investiga se arma e coletes balísticos apreendidos são de facções envolvidas em onda de ataques em Porto Alegre
Disputa entre facções faz escola estadual do bairro Cascata suspender aulas pelo resto da semana

Nos dias seguintes ao tiroteio próximo ao Posto de Saúde da Cruzeiro, em 21 de março, pais de pelo menos 20 alunos dos primeiros anos do Ensino Fundamental foram até a escola buscar seus filhos duas horas antes do término das atividades. Os cerca de 40 alunos adultos do período noturno e os professores também foram liberados das aulas presenciais em razão da insegurança na região.

— O toque de recolher nunca é oficial. A gente acaba decidindo pela redução das aulas por receber avisos da comunidade e por perceber o movimento dos pais que vêm preocupados até aqui. Mas nem todos os pais estão na comunidade neste horário ou sabem o que está acontecendo. Muitos trabalham, não conseguem vir buscar mais cedo, então tentamos não alarmar as crianças que vão seguir aqui dentro conosco, pois eles sentem a tensão. E isso não é só nesta semana. Todos os anos convivemos com essa situação ou perdemos alunos e ex-alunos para o tráfico — comenta Magno, que trabalha na escola desde 2009 e é diretor desde 2020.

Enquanto Magno era entrevistado no pátio onde dezenas de crianças aproveitavam o recreio do Ensino Infantil, um helicóptero da Brigada Militar sobrevoava a escola. O jogo de pebolim, a partida de tênis de mesa e a brincadeira com bola de vôlei não foram suspensas, mas na calçada em frente ao portão os alunos mais velhos, que haviam sido liberados há pouco, pediam para retornar para áreas internas. Ao mesmo tempo, um grupo de mães saía das casas vizinhas e se aproximava da escola para questionar se haveria aulas pela tarde. Comentavam entre si o temor de uma possível nova troca de tiros nos bairros vizinhos.

— Não tenho nem chave para entrar em casa agora porque meus pais estão fora, trabalhando, nem quero caminhar até lá — relata outro adolescente do nono ano que tinha deixado a escola devido a ausência de professor.

A Secretaria Municipal de Educação (Smed) afirma que 176 professores aprovados em concursos para 75 áreas estão em fase de contratação desde o último dia 24 de março. Outros 135 monitores também devem ser contratados. A Smed afirma ainda que vai chamar, de maneira temporária, mais 114 professores e 1.062 funcionários para as funções de limpeza e cozinha. A GZH, a Smed confirmou, na última terça-feira (5), que havia déficit de mais de 1,6 mil profissionais no quadro de funcionários da rede municipal no início do ano letivo — equivalente a 26% do total.

"Diante da falta de Recursos Humanos, a escola ajustou uma redução na carga horária e entregou material para ser finalizado de forma remota como compensação das horas/aula. Todos os ajustes necessários são alinhados com a Smed", explicou a pasta.

Impotência dos moradores

Em outra instituição de ensino que teve aulas reduzidas no horário da noite nos últimos dias, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Loureiro da Silva, no bairro Cristal, GZH ouviu relatos semelhantes da mãe de uma criança matriculada e de um comerciante da região. Ambos confirmaram a rotina de insegurança que faz as aulas serem reduzidas. Eles também pediram para não serem identificados por questão de segurança.

Segundo a mãe, carros passam em frente à escola avisando sobre o toque de recolher a partir das 18h. Ela conta que no dia 22 de março precisou buscar os estudantes antes das 16h, pois não teria como realizar o deslocamento depois. A mulher conta que a restrição se repete onde ela mora, na região da Avenida Orfanotrófio.

— Mensagens circulam, as pessoas comentam e a própria escola nos avisa, confirmando isso e pedindo para vir buscar. Os traficantes dizem que se precisarmos de qualquer coisa na rua é para fazer antes deste horário, pois depois pode estar rolando tiro na rua — revela, interrompendo a fala e hesitando diversas vezes, nervosa por estar abordando este assunto.

— Se tivesse condição, colocava minha casa nas costas e me mudava daqui — conta.

A reportagem conversou por telefone com a diretora, mas não foi recebida no colégio. Segundo ela, o dia era de atividades administrativas envolvendo o corpo diretivo.

A Smed afirma que as aulas ocorreram normalmente neste e demais colégios da rede municipal na manhã de quinta (7). Na última terça, no entanto, o turno da noite na escola teve o horário reduzido.

Policiamento

A reportagem não encontrou viaturas, motos ou soldados da Brigada Militar enquanto circulava na Avenida Orfanotrófio e ruas que levam até as duas escolas visitadas na manhã de quinta. A Patrulha Escolar do 1º Batalhão de Polícia Militar, responsável por atender ocorrências em quase cem escolas nos bairros cobertos pelo 1º BPM, afirma que não foi comunicada de nenhum toque de recolher ou situação que exigisse ação de soldados entre a quarta e a quinta-feira. Um dos soldados integrantes da ronda informou que foram visitados cerca de 20 colégios neste período.

O comandante de policiamento da Brigada Militar em Porto Alegre, o coronel Fernando Gralha Nunes, afirmou que há reforço no patrulhamento na área. 

— Assim que a Brigada Militar identificou o crescimento no número de crimes contra a vida, começamos ações de patrulhamento desses locais, reforço ao policiamento e permanência em pontos específicos de diversos bairros da zona sul de Porto Alegre. A comunidade tem visualizado a resposta da Brigada Militar para que as pessoas possam seguir suas atividades de trabalho e lazer sem prejuízos — afirma o coronel. 

Ele destaca que o trabalho conta ainda com apoio dos policiais militares do Batalhão de Choque, do Batalhão de Operações Policiais Especiais e das aeronaves do Batalhão de Aviação.


 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros