Investimento na bolsa e em carros de luxo e esconderijo em urso de pelúcia: o destino que facção do RS dava a dinheiro do crime  - Polícia

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Megaoperação em quatro Estados20/04/2022 | 07h00Atualizada em 20/04/2022 | 07h00

Investimento na bolsa e em carros de luxo e esconderijo em urso de pelúcia: o destino que facção do RS dava a dinheiro do crime 

Nesta terça, são cumpridos 1.368 mandados judiciais contra integrantes do grupo

Investimento na bolsa e em carros de luxo e esconderijo em urso de pelúcia: o destino que facção do RS dava a dinheiro do crime  Polícia Civil / Divulgação/Divulgação
Polícia encontrou R$ 41 mil dentro de urso Foto: Polícia Civil / Divulgação / Divulgação

Com esquema sofisticado de lavagem de dinheiro, uma facção gaúcha com base no Vale do Sinos foi alvo de uma operação da Polícia Civil nesta terça-feira (19). Com dinheiro investido na bolsa de valores, em imóveis, em carros de luxo e até escondido dentro de um urso de pelúcia, o grupo é suspeito de diversificar formas de ocultar os valores obtidos por meio de diversos crimes em todo o Estado e em parte do sul do Brasil. 

Ao menos 58 mandados de prisão foram cumpridos até o fim da manhã desta terça, sendo que 30 investigados foram detidos nas ruas e 28 já estavam no sistema prisional.

De acordo com o delegado Gabriel Borges, da 1ª Delegacia de Sapucaia do Sul e responsável pela chamada Operação Kraken, a investigação teve início há um ano e meio, com apoio do Ministério Público (MP). Nesta terça, são cumpridos 1.368 mandados judiciais contra integrantes do grupo. Do total, 66 são de prisão, sendo que alguns estão sendo cumpridos dentro de 14 prisões, um deles federal. A ação abrange 38 cidades do Rio Grande do Sul, além de localidades de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Em um dos cumprimentos de ordens judiciais, equipes encontraram R$ 41 mil dentro de um urso de pelúcia. O item foi localizado em uma residência em Porto Alegre e seria de uma das principais investigadas da ação. Ela seria esposa de um dos líderes do grupo criminoso e foi presa na manhã desta terça-feira por lavagem de dinheiro.

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A facção utiliza métodos sofisticados para encobrir os valores, conforme a Polícia Civil. O grupo gaúcho atua como se fosse uma empresa, com ligações nacionais e também internacionais com outras organizações. Ceca de 200 criminosos são investigados na ação.

— Eles atuam de forma muito organizada, muito empresarial, e realizam todo tipo de infração penal que pode gerar lucro. Sejam crimes patrimoniais, extorsão, sequestros, crimes relacionados ao tráfico, comércio de arma de fogo, enfim. E, a partir daí, entra o segundo momento, que é lavagem de dinheiro, a conversão dos valores ilícitos. Isso envolve, por exemplo, a compra de imóveis e veículos de luxo, a constituição de empresas de fachada e a utilização de laranjas para fins de conta bancária — explica Borges.

A ação visa apreender 102 veículos e duas aeronaves, bem como 38 imóveis em várias cidades. A polícia também obteve do Judiciário 812 bloqueios fiscais, financeiros e ligados à bolsa de valores. Foi autorizado ainda o sequestro judicial de 190 contas bancárias. A polícia afirma que deve ser apreendido judicialmente um valor de cerca de R$ 50 milhões, que ainda pode aumentar, segundo o delegado.

Atuação destoa

Conforme o delegado Borges, a atuação da facção destoa de demais grupos criminosos. As manobras para forjar uma atuação empresarial chamaram a atenção das equipes e ocorrem há pelo menos dois anos, segundo a polícia.

— Não é algo comum. A forma de atuação destoa de todos os outros. Eles agem de forma discreta, buscando sempre uma lavagem de dinheiro sofisticada, o que dificulta o trabalho dos órgãos policiais. Todo esse esquema amplamente complexo nos chamou atenção, é algo novo em termos de organização criminosa no Rio Grande do Sul.

Maior operação, diz chefe de polícia

Nesta terça, cerca de 1,3 mil agentes atuam na operação. A maior parte — cerca de 1,2 mil — cumprem os mandados em solo gaúcho. O restante atua nos demais Estados.

Para acomodar a equipe e evitar chamar atenção de criminosos, a polícia usou a sede da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), na Capital — o espaço foi cedido de forma gratuita. Os agentes foram convocados de maneira sigilosa e um helicóptero também foi utilizado na ação. Além da Polícia Civil, participam da operação equipes da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Rodoviária Federal, Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) e Departamento Penitenciário Nacional (Depen).

Para o chefe da Polícia Civil no Estado, delegado Fábio Motta Lopes, a ação foi a maior da história até agora:

— Em número de policiais e de ordens judiciais, foi a maior operação que temos registro. É uma ação importante porque responsabiliza não apenas criminalmente os responsáveis por meio da prisão, mas também descapitaliza o grupo. Se somarmos o que já houve de concessão de bens do grupo, chegamos a um valor preliminar de R$ 50 milhões. Isso causa um abalo na organização criminosa. É um valor considerável e que também nos mostra o poderio da facção, com imóveis de luxo, carros como Porsche.

Diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana, delegado Mario Souza, destaca que o trabalho começou pelas equipes em Sapucaia do Sul, mas teve reflexos em todo o Estado e fora dele.

— Estamos em 38 cidades gaúchas cumprindo 1,3 mil ordens judiciais para descapitalizar o crime organizado. E nosso trabalho se iniciou a partir de Sapucaia do Sul no final de 2020, já com o sequestro de R$ 10 milhões desta facção — pontuou Souza.

Grupo participou de disputa na Capital

O grupo alvo da operação da polícia nesta terça-feira é um dos envolvidos na série de ataques registrados nas últimas semanas em Porto Alegre. A disputa aconteceu entre esta facção e outra que atua na Vila Cruzeiro, na zona sul de Porto Alegre. A briga seria motivada por uma dívida entre os grupos. As ações deixaram 25 mortos em pouco mais de um mês.

O grupo é considerado uma das maiores facções do Estado e está por trás do tráfico de armas e drogas, inclusive com o envio de entorpecentes por meio de drones para penitenciárias, além de envolvimento no roubo de veículos e em assaltos.

No entanto, o delegado Borges explica que a investigação ocorria ainda antes dos conflitos, não tendo relação direta com eles.

 
 
 
 
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