Operação combate esquema de agiotagem explorado por facção do Vale do Sinos - Polícia

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Ofensiva da Polícia Civil27/05/2022 | 07h00Atualizada em 27/05/2022 | 07h00

Operação combate esquema de agiotagem explorado por facção do Vale do Sinos

Estão sendo cumpridos três mandados de prisão preventiva e vários de busca e apreensão. Investigações apontam para rede de cobrança de empréstimos feitos a juros extorsivos

Operação combate esquema de agiotagem explorado por facção do Vale do Sinos Reprodução / Reprodução/Reprodução
Cartões com detalhes do esquema do empréstimo foram descobertos pela polícia Foto: Reprodução / Reprodução / Reprodução

Um esquema de agiotagem que envolve ameaças e possíveis assassinatos foi alvo de operação da Polícia Civil, na manhã desta quinta-feira (26), na Grande Porto Alegre. As investigações, que resultaram em três ordens de prisão preventiva e vários mandados de busca e apreensão, apontam para uma rede de cobrança de empréstimos feitos a juros extorsivos, que seria movimentada pela maior facção criminosa gaúcha.

O corpo carbonizado de um colombiano que morava em Esteio, encontrado às margens da BR-448 (Rodovia do Parque), em 19 de fevereiro, foi o ponto de partida para a apuração. O homem assassinado a tiros e incinerado junto com sua moto, Yeferson Ladino Trejos, 27 anos, trabalhava como cobrador de dívidas, segundo a polícia.

A partir daí, a equipe liderada pela delegada Luciane Bertoletti, da Delegacia de Polícia de Esteio, seguiu o rastro dos serviços prestados por Yeferson. As investigações apontam que ele se desentendeu com os patrões, que seriam vinculados à facção Os Manos, do Vale do Sinos, mas que atuam em todo o eixo da BR-116 que vai até a Capital.

Essa ramificação da facção se dedica à agiotagem, diz a delegada. Ao seguir os passos de Yeferson antes da morte, a equipe de Luciane descobriu dezenas de possíveis vítimas do grupo. Três delas formalizaram depoimentos na delegacia, na medida em que tiveram até de mudar de endereço para fugir das ameaças dos bandidos, mas a delegada acredita que são centenas de pessoas lesadas.

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A quadrilha visa principalmente pequenos comerciantes endividados e, inclusive, distribui cartões com detalhes do esquema do empréstimo. O bando empresta de R$ 200 a R$ 2 mil, e o devedor é obrigado a devolver o valor em até 20 dias, em pagamentos diários.

Quem pega R$ 500, por exemplo, precisa devolver R$ 30 diários — ou seja, em 20 dias, o valor já está em R$ 600, muito acima do emprestado e do que costumam cobrar instituições financeiras legalizadas.

— Todas essas operações são feitas à margem da lei, sem qualquer legalidade e pautadas por ameaças — resume a delegada.

Tela de whatsapp mostra ameaças feitas por agiota.  Foto: Reprodução/ Reprodução<!-- NICAID(15106310) -->
Suposto líder da quadrilha fez ameaças de colocar um homem armado em frente à casa da devedoraFoto: Reprodução / Reprodução

As pessoas relataram aos policiais que, quando não conseguem saldar o débito, os bandidos vão no estabelecimento e levam o que tiver em mercadoria e bens. Foram relatados casos de cabeleireiras que tiveram de entregar secadores de cabelo e donos de revendas que repassaram veículos.

A reportagem contatou pessoas que não conseguiram saldar os juros abusivos e foram extorquidas. Num dos casos, por WhatsApp, o suposto líder da quadrilha faz ameaças diárias de colocar um sujeito armado em frente à casa da devedora.

"Tô nem aí. Já te disse que não tenho medo de polícia", desafia o autor das mensagens, entre ofensas diversas à mulher, que tinha feito o empréstimo de cerca de R$ 3 mil para pagar um curso.

A dívida virou uma bola de neve, recheada de ameaças, como mostram as mensagens às quais GZH teve acesso.

A quadrilha inclusive teria se especializado em assumir a cobrança de débitos. Uma imobiliária, sob investigação, teria recebido dinheiro dos quadrilheiros e repassado aos criminosos a tarefa de cobrar a dívida de um cliente — que foi ameaçado por homens armados e teve de pagar.

O alvo dos policiais na operação desta semana é um casal que ostenta vida luxuosa nas redes, embora ela se declare empregada de uma loja. A Polícia Civil não revela, mas a reportagem descobriu que se trata de Luís Henrique Teixeira Ayres, o Lui, que se declara autônomo. Ela, Priscila Alves da Silva Borges, tem carteira assinada como balconista em loja, mas ambos mostram fotos hospedados em apart-hotéis com piscinas e usando carros de luxo. Não se sabe se eles têm vinculação com o homicídio do colombiano ou apenas com agiotagem.

Chamou a atenção dos investigadores que, apesar de apresentar um padrão de vida de alta renda, o casal conseguiu auxílio emergencial (que se destinava a pessoas em situação de pobreza). Ela sacou R$ 5,2 mil. Ele, R$ 4,8 mil. Ambos têm apenas antecedentes por lesão corporal culposa.

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Para conseguir a prisão deles, os policiais utilizaram imagens de câmeras de vídeo nos quais Lui se posta em frente a estabelecimentos comerciais, junto com um homem que estaria armado. Os comerciantes disseram ter sofrido ameaças de ambos.

Esse terceiro investigado, Jardel Sílvio Ramos, está também com prisão decretada, como suspeito de cometer um homicídio. Ele tem antecedentes diversos por roubo, ameaça e receptação.

A Polícia Civil pretende investigar se os três com prisão decretada estão envolvidos na morte do colombiano. Nesta quinta, durante cumprimento de mandado, a delegada encontrou centenas de papéis com cobranças de dívidas na residência do principal investigado.

GZH entrou em contato com o advogado do casal, Renan dos Santos, que afirmou que não iria se manifestar no momento.


 
 
 
 
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