"Foram duas horas de tortura psicológica", diz comerciante de Porto Alegre que recebeu ameaças de suposto líder de facção - Polícia

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Zona Norte06/06/2022 | 09h00Atualizada em 06/06/2022 | 09h00

"Foram duas horas de tortura psicológica", diz comerciante de Porto Alegre que recebeu ameaças de suposto líder de facção

Mulher depositou R$ 750 para os criminosos, que exigiam dinheiro para que as intimidações tivessem fim

"Foram duas horas de tortura psicológica", diz comerciante de Porto Alegre que recebeu ameaças de suposto líder de facção Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Mulher recebeu ameaças por WhatsApp e também por ligações telefônicas Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Os efeitos do que seria mais um caso do golpe da facção já duram mais de 20 dias na vida de uma comerciante da zona norte de Porto Alegre. Após receber ameaças de morte pelo WhatsApp e em uma ligação no dia 10 de maio, Daniela (nome fictício), 36 anos, foi informada na delegacia de que o caso se tratava de um caso de estelionato

Mesmo assim, Daniela conta que não consegue voltar ao trabalho por medo. Além do prejuízo de R$ 750, valor que ela depositou para os criminosos, ela afirma que ainda tenta se recuperar do pavor que sentiu.

As mensagens chegaram na noite de uma terça-feira, quando Daniela e a família estavam em casa. Nos áudios e na ligação, os criminosos afirmaram que já haviam investigado a vida da comerciante e de seus familiares, e que sabiam os endereços de todos. Se ela não fizesse o depósito, a facção iria executá-los, conforme as mensagens.

— Foram duas horas e meia de tortura psicológica. Ele me mandou um vídeo de um corpo, dizendo que era de um policial que prendeu um colega da facção. Dizia que a culpa dessa prisão era minha, porque eu estaria passando informações para a polícia. Ameaçou me matar, matar minha família. Por mais que eu entenda que é golpe, o meu psicológico ainda não aceitou. Eu tenho crises quando penso em voltar ao trabalho, passo o dia assim, preciso tomar remédio. Se ouço alguma voz parecida, começo a ficar nervosa — relata a mulher.

Recentemente, GZH mostrou casos desse tipo de golpe, que se intensificaram nas últimas semanas em diferentes cidades do Estado. Na ação, um criminoso entra em contato pelo WhatsApp — normalmente de algum estabelecimento comercial — e se identifica como líder de uma facção. Ele passa a cobrar explicações do lojista, perguntando porque estaria denunciando o tráfico. Diz ainda que caso a vítima se negue a dar esclarecimentos, a ordem é para colocar fogo no local e executar os funcionários. Como forma de evitar a violência, o criminoso pede dinheiro ao comerciante.

No caso de Daniela, além de mensagem pelo aplicativo, o criminoso também fez ameaças em uma ligação. Durante a troca de mensagens, a comerciante entrava em contato com familiares para conseguir o dinheiro. Conforme a vítima, o homem não permitia que ela demorasse para responder e a chamava a todo momento.

— Ele não me deixa nem raciocinar direito. Dizia que tinham três caminhonetes na minha rua, só aguardando para entrar em guerra conosco, que não adiantava sair de casa para denunciar. Ouvindo ele, parecia ser um cabeça da facção É muito desesperador, totalmente convincente — relembra a mulher.

Inicialmente, o homem pediu uma quantia de R$ 750, que foram depositados. O combinado era que, a partir do pagamento, as ameaças teriam fim. Mas, em seguida, o criminoso passou a exigir R$ 1,3 mil. Foi quando ela decidiu sair de casa e ir até a delegacia. No local, foi informada de que se tratava de um golpe.

Segundo Daniela, outro fator também contribuiu para que ela acreditasse nas ameaças: no ano passada, a comerciante descobriu que uma funcionária da loja estaria envolvida com traficantes da região. Ela demitiu a mulher ainda em 2021, mas quando recebeu as mensagens com as intimidações no mês passado, imaginou que tivesse ligação:

— Acabou tendo essa coincidência, e eu relacionei com essa antiga funcionária. Em nenhum momento a gente pensou que fosse golpe. Depois, no outro dia, eu percebi que eu mesma fui passando muita informação, porque fiquei pensando nessa pessoa, tentando me explicar. Mas isso pode acontecer com qualquer um, a gente fica nervoso e acaba falando demais, dando detalhes, entregando tudo. Que o meu caso sirva de alerta — complementa.


Depois do registro na polícia, Daniela bloqueou o contato que fazia as ameaças e não recebeu mais mensagens do tipo. A empresária tenta agora esquecer o caso e retomar o serviço. Por medo, ela removeu o contato de WhatsApp da loja da placa e das redes sociais.

— Faz 20 dias que estou com a loja fechada, com clientes chamando, e não sei o que dizer. Isso torna o prejuízo financeiro ainda maior, fora o emocional. Muita gente acha que não iria cair, que não aconteceria com elas. Mas é desesperador, eles te apavoram. Eu não tenho a malandragem dessas pessoas, não sou assim. De tudo que aconteceu, acho que o pior é ter de parar de trabalhar por medo. Até hoje penso que, se tivesse condição, me mudava.

Investigação

O caso é investigado pela 12ª delegacia, na Zona Norte, onde foi feito o boletim de ocorrência. De acordo com o delegado Leandro Cantarelli, que responde temporariamente pela DP, é o único registro do tipo no local, mas outros relatos semelhantes já chegaram ao conhecimento da equipe. 

— Não se descarta nada e por isso precisamos investigar. Mas, dos casos que vi até agora, nenhum se consumou. Não tenho nenhum conhecimento de um caso que seja verídico até o momento. A gente pede que as pessoas façam o registro na polícia, para que tenhamos mais informações. Muitas vezes, com apenas alguns detalhes, já podemos avaliar se é golpe ou não. E também é muito frequente que, durante a conversa com o criminoso, a própria vítima repasse informações — afirma Cantarelli.

Recentemente, um morador de Rio Grande, no sul do Estado, também registrou um boletim na polícia com relato semelhante. Após receber ameaças, ele afirma que efetuou um depósito de R$ 500 aos criminosos. A polícia do município divulgou uma nota alertando sobre os casos, já que outros relatos também chegaram ao conhecimento da equipe. Os policiais acreditam que as ameaças sejam enviadas por detentos de dentro de presídios pelo país. As cidades de Osório e Capela de Santana também registraram casos do tipo.

 
 
 
 
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