RETRATOS DA VIDA
"Quero ser independente financeiramente": capacitação promove acesso a direitos e autonomia para mulheres
Projeto oferece transporte, alimentação e recreação para os filhos das integrantes, para garantir que todas possam participar. Objetivo é apoiá-las de forma multidisciplinar

O desejo de conquistar mais autonomia levou cerca de 50 mulheres em situação de vulnerabilidade social a uma sala da Fundação Pão dos Pobres, em Porto Alegre. Ali, elas assistem a formações sobre desenvolvimento pessoal, acesso a direitos e empreendedorismo, e compartilham desafios e conquistas de suas trajetórias pessoais – que, embora diferentes, têm como fio condutor o desejo de conquistar uma vida melhor para si e para suas famílias.
– Se forma uma rede, quase uma teia de aranha, em que a gente consegue se ligar a um todo e se enxergar umas nas outras – resume a trancista Alice Iaritissa, moradora da Vila Cruzeiro.
Chamada de Mulheres Transformam, a iniciativa é do Instituto Vakinha, braço social da empresa de arrecadação e financiamento coletivo. Conta com transporte, alimentação e recreação para os filhos das integrantes durante os encontros, para garantir que todas possam participar.
“Capital semente”
Ainda, quem atingir um mínimo de presença na formação, que tem etapa presencial e online, ganha R$ 1 mil de “capital semente” para desenvolver um projeto de autonomia. Parte dos recursos da ação vem do fundo filantrópico RegeneraRS, enquanto as aulas têm parceria do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS).
Sonhos e obstáculos
A venezuelana Sandra del Valle, que mora há nove anos no Brasil, encontrou no projeto um jeito de se aproximar de um desejo antigo:
– Eu quero virar uma mulher independente financeiramente, sabe? Gosto de trabalhar CLT e tudo, mas eu tenho um sonho que é ter o que eu tinha na Venezuela: um empreendimento. Eu vendia roupas, sapatos, um pouco de tudo. Só que aqui no Brasil tem mais burocracia, e o curso está me ajudando a entender isso.
Sandra conta que até chegou a tentar começar uma loja, mas desanimou após ter sido alvo de um golpe e perder todo o dinheiro investido. Além disso, precisou parar de trabalhar para cuidar do marido, que sofreu um infarto e também se afastou do serviço.
Foco em combate à violência e cidadania
Na edição deste ano, o combate à violência contra a mulher é um dos focos. Uma parceria com o Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do MPRS viabilizou um plantão em que as participantes podem receber atendimento especializado do órgão para abertura de medidas protetivas.
Há também conversas com uma assistente social, que orienta sobre Bolsa Família e outros auxílios aos quais têm direito.
– Até o ano passado, a gente estava muito com a pegada de empreendedorismo feminino, mas, à medida que vai conhecendo mais as mulheres, vai entendendo que não é só sobre isso. É também sobre autonomia, e isso passa por várias coisas, a começar pela defesa de direitos – explica a vice-presidente do Instituto Vakinha, Renata Fehlauer.
– Trabalhamos vieses de empreendedorismo e conseguimos falar sobre acesso a políticas sociais que elas nem sabiam que tinham – completa a diretora de Marketing Bárbara Zarpelon.
Conforme Renata, mais turmas estão previstas ainda para este ano, uma delas no Vale do Taquari, junto à Agência da ONU para as Migrações. As inscrições ocorrem por meio de projetos sociais das regiões onde ocorrem cada edição, e são divulgadas nas redes sociais do Instituto Vakinha.
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos