Polícia



Vale do Caí

Segundo adolescente ouvido pela polícia se diz arrependido de ter mexido em túmulo de Montenegro

Ação foi gravada em junho de 2012, mas as imagens foram divulgadas nesse final de semana

21/05/2013 - 16h07min

Atualizada em: 21/05/2013 - 16h07min


Vanessa Kannenberg / Uruguaiana
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Dos dois adolescentes identificados e ouvidos pela polícia por terem remexido em um túmulo de Montenegro, apenas um demonstrou arrependimento em depoimento à polícia. A ação foi gravada com uso de um celular em junho do ano passado no município do Vale do Caí, mas as imagens foram postadas na Internet nesse final de semana.

De acordo com o delegado Marcelo Farias Pereira, um dos adolescentes foi ouvido na manhã desta terça-feira e não teria demonstrado remorso. O segundo, ouvido à tarde, teria se dito arrependido. Ambos têm 15 anos. 

- A versão dos dois foi de que, na saída da escola, quando sempre cortavam caminho pelo meio do cemitério municipal, teriam visto o túmulo aberto e resolveram brincar. Eles contaram, ainda, que não conseguiram separar a cabeça do corpo - afirma o delegado.

Os adolescentes, que não estariam estudando atualmente, negaram que tenham divulgado as imagens na internet. Um post no Facebook em que foi divulgado o vídeo, até o início da tarde desta quarta, já havia sido compartilhado por 338 pessoas. A grande maioria dos internautas pede por punição e se diz indignada com a ação.

Os investigadores ainda não identificaram o responsável pela divulgação do vídeo. Segundo Pereira, o foco principal é checar as circunstâncias do crime, enquadrado preliminarmente como vilipêndio de cadáver (desrespeito de corpo humano sem vida), para depois averiguar quem tornou público as imagens. O inquérito deve ser remetido ao Ministério Público até sexta-feira.

Carlos Aldecir Walter, 37 anos, um dos irmãos da vítima que teve o túmulo remexido, teve acesso ao vídeo pelo Facebook e reconheceu o corpo pela camisa e pelo nome do jazigo. O técnico mecânico foi até a polícia, mas o inquérito já havia sido aberto pela manhã, a partir da repercussão na internet.

Ainda conforme ele, o irmão Paulo Alderi Walter morreu aos 43 anos vítima de tuberculose. Ele faleceu no dia 24 de dezembro de 2011, e foi enterrado no dia de Natal.


ENTREVISTA

ZH conversou com Carlos Aldecir Walter, 37 anos, irmão do homem enterrado que teve o túmulo remexido.

Zero Hora - Como você descobriu o vídeo?

Carlos Aldecir Walter - Ontem (segunda-feira), lá por 12h30min, eu estava olhando o Facebook e vi aquele vídeo nojento, à primeira vista, mas como se tratava de um vídeo da minha cidade resolvi dar uma olhada. Quando eu vi a camisa, identifiquei que era a camisa que eu tinha dado pro irmão ser enterrado, ou pelo menos parecida. Continuei olhando e tive certeza quando vi o nome na lápide. O nome que aparece é de outro irmão, enterrado em 2003, mas o Paulo morreu depois, de tuberculose, e foi enterrado no dia de Natal de 2011. No total, são três irmãos meus no mesmo local.

ZH - E qual foi a sua reação ao identificar o teu irmão?

Walter - Na hora eu fiquei perplexo, com o corpo trêmulo e sem acreditar naquilo. Fiquei pensando "Meu Deus, o que eu vou fazer agora. Vou simplesmente ignorar?". Aí eu fui até o cemitério, para ver se realmente era o túmulo da minha família e era, mas o túmulo já estava fechado. Fui, então, até a delegacia. Depois retornei com a polícia até o cemitério e pedi explicações. Me disseram que não tinham provas e eu acreditei na hora, só questionei por que não me avisaram na época, porque no registro eles têm meu telefone e meu endereço.

ZH - E como a sua família recebeu a notícia?

Walter - Eu não queria contar para a minha mãe, que já está com 78 anos e que morava com o meu irmão antes de ele morrer. Mas outro irmão meu acabou contando. Quando cheguei pra almoçar, ela estava chorando, encolhida. Eu entendo que lá no cemitério só tem um corpo, que não sente nada. Mas ela não discerne, acha que agrediram meu irmão e que ele sofreu com isso. Ela já enterrou três filhos e uma coisa dessas só aumenta a dor.

ZH - O que você espera que aconteça agora?

Walter - Eu espero que eles recebam uma punição educativa. De repente que os colocassem pra trabalhar um ano em uma funerária, para que eles vissem o que é a dor de uma família ao perder um ente querido. Eu espero que eles recebam uma sanção que faça eles se tornarem adultos melhores. Afinal, eu não vou ganhar nada com a punição deles, mas nós, a sociedade, vai perder muito se eles se tornarem adultos marginais. E outras coisas também podem ser melhoradas a partir desse acontecimento, como a segurança dos nossos cemitérios, que hoje não existe.

ZH - O que você acha que levou os adolescentes a fazerem isso?

Walter - Acho que é uma questão de aparecer. Esses jovens querem provar que são os bons para a turma. Mostram o vídeo e todos ficam impressionados com a coragem, a bravura deles. Acho que isso levou a essa inconseqüência deles. Que na verdade é uma afronta não só à minha família, mas a toda sociedade. Podia ser o ente de qualquer um, por isso gerou essa comoção popular.

Vídeo de 1min54seg foi divulgado no Facebook nesse domingo

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